A torcida do Minas Tênis Clube estava em pé quando o apito final soou na última sexta-feira, 24. Não era para comemorar apenas a classificação à final da Superliga Feminina — era para homenagear a adversária. Camila Brait, 37 anos, líbero do Osasco, jogou sua última partida como profissional naquele ginásio e saiu com os olhos marejados diante de um gesto que raramente se vê entre torcidas rivais. A derrota por 3 a 2 para o Minas encerrou a série semifinal em 2 a 1 para o clube mineiro e fechou, de forma definitiva, uma das carreiras mais longevas e vitoriosas do vôlei feminino nacional.
Uma carreira construída tijolo por tijolo no Osasco
Brait chegou ao Osasco na temporada 2008/09 e jamais saiu de verdade — mesmo nos períodos em que integrou o calendário exclusivo da Seleção Brasileira, o clube paulista foi sempre sua casa. No total, foram três títulos da Superliga Feminina com a camisa osasquense: 2009/10, 2011/12 e 2024/25, este último conquistado poucos meses antes da eliminação que selou sua aposentadoria. São exatamente 16 temporadas defendendo as mesmas cores, uma raridade num circuito marcado pela rotatividade de contratos a cada ciclo olímpico.
O primeiro título, em 2009/10, já revelou a personalidade competitiva da líbero. Na decisão contra o então Rio de Janeiro Vôlei, Brait protagonizou uma sequência de defesas no tie-break que salvou duas bolas na diagonal em momento crítico. O set decisivo terminou 15 a 12 para o Osasco, consagrando o clube campeão por 3 a 2. Quem acompanhou aquele jogo sabe que sem aquelas defesas o placar poderia ter sido outro.
Mas foi em 2012 que Brait escreveu o capítulo mais simbólico de sua trajetória em clubes. O Osasco conquistou o Mundial de Clubes naquele ano, e a líbero foi determinante para levar a equipe até o topo do torneio internacional. Ao final da competição, ela recebeu o prêmio de melhor líbero do torneio — reconhecimento que consolidou sua reputação além das fronteiras do vôlei brasileiro.
O auge com a amarelinha e a prata de Tóquio
Brait estreou pela Seleção Brasileira em 2010 e atravessou mais de uma década defendendo o Brasil em competições de alto nível. O ápice com a amarelinha veio nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, realizados em 2021, quando o Brasil conquistou a medalha de prata. A campanha olímpica foi a coroação de um ciclo extenso e exigente, e a líbero, já com mais de 33 anos à época, mostrou que experiência pode ser tão decisiva quanto explosão física na posição. Após Tóquio, Brait anunciou sua saída da Seleção em 2021, encerrando um capítulo de mais de dez anos vestindo o verde e amarelo.
Conforme levantamento do SportNavo sobre o histórico de líberos brasileiras em Olimpíadas, Brait figura entre as atletas de maior longevidade na posição dentro do circuito da CBV, ao lado de nomes como Fabi e Sassá. Sua presença em torneios internacionais ao longo de mais de uma década é um dado que poucos atletas de qualquer fundamento conseguem ostentar no vôlei feminino nacional.
O legado técnico de uma líbero que redefiniu padrões
No vôlei, a função do líbero é invisível para quem não conhece o jogo — e exatamente por isso é tão difícil de mensurar. A posição não pontua, não saca e não bloqueia. Toda a contribuição é medida em defesas, recepções e passes que sustentam o sistema ofensivo da equipe. Nesse contexto, Brait acumulou ao longo da carreira uma consistência estatística que a transformou em referência técnica para a nova geração de líberos brasileiras formadas nas últimas duas décadas.
A análise do SportNavo sobre seu desempenho nas edições da Superliga em que disputou finais mostra que Brait manteve índices de aproveitamento na recepção acima de 55% nas fases decisivas — número que, para uma líbero que atuou em alto nível por quase 17 temporadas, revela uma estabilidade técnica fora do comum. No Mundial de 2012, o prêmio individual de melhor líbero veio justamente pela combinação de percentuais defensivos altos com passagem eficiente para o levantador.
A homenagem feita pela torcida do Minas — adversária histórica do Osasco nas grandes decisões da Superliga — traduziu em gesto aquilo que os números já indicavam há anos. Nas palavras da própria Brait, visível emocionada ao deixar a quadra pela última vez, a noite representou muito mais do que uma eliminação: foi a despedida que uma carreira como a dela merecia, mesmo que longe do ginásio paulista onde construiu sua história.
O que vem depois dos 37 anos e das três Superligas
Brait encerra a carreira com três títulos de Superliga Feminina, um Mundial de Clubes (2012), uma medalha de prata olímpica (Tóquio 2021) e o reconhecimento de melhor líbero do campeonato mundial de clubes. O Osasco, clube que ela defendeu por praticamente toda a vida adulta, avança agora para uma reformulação de elenco típica do período pós-semifinal. A equipe paulista foi eliminada na melhor de três pelo Minas, que enfrentará o Praia Clube — liderado por Adenízia — na grande final da Superliga Feminina, com datas ainda a serem confirmadas pela CBV para os próximos dias.








