O que é preciso para transformar uma cerimônia de abertura de Copa do Mundo em algo memorável? A pergunta parece simples, mas a resposta que o Estádio Azteca entregou na noite desta quinta-feira (11 de junho) foi, para boa parte do público conectado ao redor do planeta, um equívoco de proporções globais. Antes mesmo que México e África do Sul entrassem em campo pelo pontapé inaugural do torneio, as redes sociais já haviam veredicto: a festa estava aquém do palco.

O espetáculo durou menos de 20 minutos — uma brevidade que, por si só, acendeu o primeiro sinal de alerta. Para uma competição que reuniu 48 seleções em três países anfitriões e promete alcançar audiência superior a 5 bilhões de pessoas ao longo de um mês, o tempo dedicado à apresentação artística pareceu desproporcional. O elenco convocado era de respeito: Shakira e Burna Boy entoaram a canção oficial da competição, "Dai Dai", ao lado de Alejandro Fernández, Belinda, Danny Ocean, J Balvin, Lila Downs, Los Ángeles Azules, Maná e Tyla. Nomes com peso de palco e histórico de grandes apresentações. E ainda assim o resultado não convenceu.

A percepção dominante — um show que não ensaiou para a ocasião

A crítica que mais circulou nas redes foi direta e sem rodeios.

"Gente, a galera não ensaiou para se apresentar na abertura da Copa do Mundo?"
A frase, publicada por um internauta e rapidamente replicada por milhares, sintetizou a sensação de improviso que tomou conta da transmissão. Transições abruptas entre artistas, coordenação coreográfica irregular e a percepção de que as partes nunca formaram um todo coeso alimentaram essa leitura.

A questão do playback de Shakira ganhou vida própria. A colombiana, que também performou em Copacabana durante os preparativos para o torneio, foi acusada de não cantar ao vivo.

"Shakira fez playback em Copacabana e fez playback na abertura da Copa do Mundo. Ela só canta quando não tem ninguém olhando?"
, ironizou um usuário. A reclamação sobre a representação cultural mexicana foi igualmente recorrente:
"Horrível, nada a ver com futebol. Pouquíssima cultura mexicana, e o pouco que havia era em inglês."
Para uma nação que respira mariachi, cinema de ouro e muralismo — e que sediou a Copa de 1970 e a de 1986 — a ausência de profundidade identitária pareceu um desperdício histórico.

Outro internauta tentou equilibrar a avaliação com honestidade:

"Eu esperava bem mais, não vou mentir. Mas foi ok. O que interessa mesmo são os jogos."
Essa ambivalência — resignação temperada por expectativa — talvez seja o retrato mais fiel do sentimento coletivo.

A contra-leitura — uma cerimônia que carrega o peso de três anfitriões

Há, porém, uma perspectiva que a avalanche de críticas tende a engolir: pela primeira vez na história, uma Copa do Mundo distribui suas cerimônias de abertura por três países. O espetáculo mexicano no Azteca foi apenas o primeiro de três eventos programados para esta edição. Na sexta-feira (12), o Canadá abre sua parcela da festa no Estádio BMO Field, em Toronto, às 14h30 (horário de Brasília), com Michael Bublé e Alanis Morissette antes do jogo entre os anfitriões e a Bósnia e Herzegovina. Às 20h30, o foco se volta para os Estados Unidos, onde o SoFi Stadium, em Los Angeles, recebe Anitta — ao lado da tailandesa Lisa e do nigeriano Rema —, mais Katy Perry e Future, antes do confronto entre americanos e paraguaios.

Nesse contexto, talvez a cerimônia mexicana tenha carregado sozinha o peso de representar um torneio que, por sua natureza tripartida, dilui o simbolismo de abertura entre diferentes culturas e momentos. A Fifa apostou em uma narrativa fragmentada — e o México pagou o preço de ser o primeiro capítulo de uma história que ainda não terminou de se apresentar.

  • Duração total da cerimônia mexicana: menos de 20 minutos
  • Artistas presentes: Shakira, Burna Boy, J Balvin, Maná, Belinda, Alejandro Fernández, Tyla, Danny Ocean, Lila Downs e Los Ángeles Azules
  • Música oficial: "Dai Dai", interpretada por Shakira e Burna Boy
  • Próximas cerimônias: Toronto (12/06, 14h30) e Los Angeles (12/06, 20h30)

O peso da comparação — o que as Copas anteriores fizeram diferente

A memória afetiva é um juiz severo. Quem assistiu à abertura da Copa de 2014, no Brasil, lembra da emoção de Claudinho Borges abrindo o espetáculo no Itaquerão com "Aquarela do Brasil" antes de Pitbull, Jennifer Lopez e Claudia Leitte subirem ao palco para "We Are One" — canção que, independentemente do gosto pessoal, gerou uma identidade visual e sonora reconhecível. A Copa de 2010, na África do Sul, ficou marcada pelo vuvuzela e pela apresentação de Shakira com "Waka Waka", que se tornou um dos hinos mais reproduzidos da história do torneio, com mais de 3 bilhões de visualizações no YouTube até hoje. Em 2018, na Rússia, Robbie Williams abriu os trabalhos com irreverência e uma certa grandiosidade pop que, mesmo polarizando opiniões, nunca pareceu ensaio de segunda divisão.

O padrão histórico revela que as cerimônias mais lembradas têm em comum uma âncora emocional — uma música, um gesto, um símbolo que condensa o país anfitrião em um instante universal. A edição mexicana de 2026, ao tentar acomodar dez artistas em menos de 20 minutos, pulverizou qualquer possibilidade de criar esse momento singular.

Como apurado em matéria do SportNavo, a questão agora é se as cerimônias canadense e americana conseguirão resgatar o fôlego simbólico que o Azteca deixou escapar. Anitta sobe ao palco do SoFi Stadium na sexta-feira às 20h30 (de Brasília), com a missão implícita de provar que o formato tripartido pode, ainda, produzir um momento à altura da maior competição esportiva do planeta.