R$ 71,4 milhões em três anos de contrato, R$ 23,8 milhões garantidos por temporada — o patrocínio do Flamengo com a Hapvida, anunciado em agosto de 2025, foi celebrado como um dos maiores acordos de naming e saúde do futebol brasileiro no período recente. Agora, em abril de 2026, esse mesmo contrato está no centro de uma disputa judicial que pode complicar o planejamento financeiro do clube para o restante da temporada e para 2027.

A ação judicial e o que a corretora alega

Rodrigo Queiroz, representante de uma corretora de seguros, ajuizou ação contra o Flamengo e o vice-presidente Fabio Palmer alegando que intermediou o negócio com a Hapvida e não recebeu comissão pelo trabalho. Segundo Queiroz, ele conduziu reuniões, encaminhou a apresentação formal do projeto e manteve contato direto com Palmer via WhatsApp — fator que se tornou central no processo, já que ele pediu à Justiça acesso às conversas do aplicativo para corroborar suas alegações.

"A corretora afirma que participou de reuniões, fez contatos, encaminhou a apresentação formal do projeto e esteve em todos os trâmites até que a tratativa fosse concluída", conforme descrito na petição inicial apresentada ao Poder Judiciário em abril de 2026.

Um detalhe relevante: Palmer já respondeu ao processo e anexou as mensagens de WhatsApp, o que confirma que houve comunicação entre as partes sobre o patrocínio da Hapvida. A existência das conversas não prova comissão devida, mas tampouco favorece a tese do Flamengo de que a corretora não teve qualquer envolvimento relevante na negociação.

A defesa do clube e os riscos jurídicos reais

O Flamengo adotou uma linha de defesa técnica: argumentou que é parte ilegítima no polo passivo porque o clube, como pessoa jurídica, não travou diálogos diretos com Queiroz — quem o fez foi Palmer, pessoa física. O clube acrescentou que a petição inicial "não demonstra de forma clara e objetiva os fatos" e que não existe "qualquer contrato ou avença formal escrita de comissionamento". A estratégia é sólida do ponto de vista processual, mas não encerra o risco.

"A petição inicial não demonstra de forma clara e objetiva os fatos dos quais alega apenas genericamente, não traz qualquer contrato ou avença formal escrita de comissionamento ou negócio que o valha com o clube", afirmou o Flamengo em sua manifestação judicial.

A análise do SportNavo aponta que o ponto mais sensível para o Flamengo não é a derrota imediata na ação — que ainda está em fase de coleta de provas —, mas o efeito de imagem e a eventual abertura de precedente. Se a Justiça reconhecer que Palmer, como vice-presidente, atuou em nome do clube ao negociar os termos do patrocínio via WhatsApp, a tese da ilegitimidade passiva desmorona. Nesse cenário, o clube pode ser condenado a pagar comissão sobre R$ 71,4 milhões, valor que, dependendo da alíquota contratual de mercado — que varia entre 3% e 8% em contratos de agenciamento esportivo —, representaria entre R$ 2,1 milhões e R$ 5,7 milhões saindo do caixa.

A ação judicial e o que a corretora alega Ação judicial sobre patrocínio de R$ 7
A ação judicial e o que a corretora alega Ação judicial sobre patrocínio de R$ 7

O impacto no planejamento financeiro para 2026 e 2027

O Flamengo encerrou 2024 com receita total acima de R$ 1,2 bilhão, segundo balanços divulgados pelo clube, consolidando-se entre as cinco maiores arrecadações do futebol sul-americano. O contrato com Hapvida e Solutions representa aproximadamente 2% dessa receita anual — não é um valor que quebra o clube, mas é dinheiro comprometido com metas específicas de folha e investimento em elenco para 2027, quando a parceria ainda estará vigente.

O timing da ação é particularmente delicado. O Flamengo disputa simultaneamente Brasileirão — onde ocupa a vice-liderança com 23 pontos na 13ª rodada, cinco atrás do Palmeiras —, Copa Libertadores e Copa do Brasil, com seis jogos fora do Rio de Janeiro em sequência de 21 dias. Uma exposição judicial que exija desvio de atenção da diretoria financeira e jurídica em plena reta de definição de contratos para 2027 é um custo de oportunidade que qualquer clube preferiria evitar.

Campo e jurídico disputando espaço na pauta rubro-negra

Enquanto os advogados do clube trabalham a defesa, Leonardo Jardim comandou o último treino no Ninho do Urubu na tarde deste sábado (25) antes do embarque às 20h para Belo Horizonte, onde o Flamengo enfrenta o Atlético-MG neste domingo (26), às 20h30, na Arena MRV, pela 13ª rodada do Brasileirão. O jogo terá transmissão pelo SporTV e Premiere. A Arena MRV é palco carregado de memória rubro-negra: foi lá que Gonzalo Plata, em fase de recuperação de confiança sob Jardim, marcou o gol de cavadinha que sacramentou o título da Copa do Brasil de 2024 diante do próprio Galo.

A resolução do processo judicial não chegará antes do apito final de domingo. O próximo passo relevante no processo é a análise da Justiça sobre a admissibilidade das provas requeridas pela corretora — decisão que definirá se o caso avança para uma fase de instrução mais demorada ou se é encerrado liminarmente. O Flamengo volta a campo pela Copa Libertadores na semana seguinte contra o Independiente Medellín, com o jurídico e o esportivo correndo em paralelo, cada um exigindo sua fatia de atenção da gestão do clube.