Todo mundo já sabe que Marrocos chega à Copa sem Nayef Aguerd e Abde Ezzalzouli. O que pouca gente está discutindo é o quanto esses dois nomes específicos mudavam a estrutura marroquina — e como a ausência deles abre brechas concretas para o Brasil no sábado, dia 13, em Nova Jersey.
O que Aguerd e Ezzalzouli representavam no sistema de Ouahbi
Aguerd, zagueiro do Olympique de Marselha, não era só um defensor de qualidade técnica. Ele era o principal ativador de saída de bola da linha defensiva marroquina. Em termos de métricas modernas, zagueiros com o perfil dele costumam liderar seus times em progressive passes — passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário — partindo da defesa. Tira Aguerd, e Marrocos perde fluidez no primeiro terço do campo.
Já Ezzalzouli, do Betis, era outra história. O atacante era o elemento de imprevisibilidade do ataque marroquino: alto xA (expected assists), capacidade de conduzir em espaços reduzidos e criar superioridades individuais no corredor esquerdo. Pra ter uma referência rápida:
- xA por 90 minutos de Ezzalzouli na temporada 2025/2026 pela La Liga estava acima de 0,25 — índice de criadores de nível europeu
- Sua taxa de progressive carries (conduções que avançam o jogo) era uma das mais altas entre os atacantes convocados para a Copa
- Sem ele, Marrocos perde o principal gerador de desequilíbrio no lado esquerdo
Saadane e Sbai chegam — mas o perfil é outro
Os substitutos já estavam nos Estados Unidos com a delegação, justamente por precaução. Marwane Saadane, que defende o Al Fateh na Arábia Saudita, entra na vaga de Aguerd. Amine Sbai, do Angers — clube da segunda divisão francesa — assume a posição de Ezzalzouli. Ambos já aparecem como opções disponíveis para o técnico Mohamed Ouahbi contra o Brasil.
O problema não é a qualidade individual — é o encaixe tático. Saadane tem menos rodagem em esquemas de pressão alta e linhas defensivas compactas do que Aguerd. Isso impacta diretamente o PPDA (passes permitidos por ação defensiva) da equipe: quanto menor o PPDA, mais agressiva é a pressão. Marrocos costumava ter PPDA abaixo de 8 com Aguerd organizando a saída — qualquer desorganização nessa métrica entrega mais espaço para o meio-campo brasileiro.
Sbai, por sua vez, tem perfil mais de chegada do que de criação. Menos xG gerado via drible, mais movimentação sem bola. O tipo de atacante que funciona num sistema mais direto, não no jogo posicional que Ouahbi costuma montar.
E o Brasil, como lê essa brecha?
Qual time do Brasil vai aparecer em campo sabendo que o lado esquerdo de Marrocos perdeu seu principal desequilibrador?
A resposta tática mais óbvia é pressionar mais o corredor direito marroquino — justamente onde Saadane vai atuar. Um zagueiro menos experiente em saída de bola sob pressão tende a errar mais passes no primeiro terço, o que aumenta as chances de recuperação do Brasil em zonas perigosas. Métricas de defensive actions (duelos, interceptações, bloqueios) nessa região do campo devem ser monitoradas desde o início do jogo.
Tem também a questão de Noussair Mazraoui, lateral do Manchester United que sofreu uma lesão no ombro, mas aparentemente não será cortado. Se Mazraoui jogar abaixo do ritmo ideal, o lado esquerdo do ataque brasileiro — que tem Vinicius Jr. como referência — vira um pesadelo para Marrocos desde o primeiro minuto.
O que os números sugerem para o confronto de sábado
Quando uma seleção perde simultaneamente seu principal organizador defensivo e seu principal criador ofensivo, o impacto vai além das posições individuais. A pass network — rede de passes que define os circuitos de jogo — precisa ser reconfigurada. E fazer isso em menos de 72 horas antes de uma estreia de Copa do Mundo é, no mínimo, um desafio enorme para qualquer comissão técnica.
- Sem Aguerd: saída de bola mais lenta, maior risco de pressão alta ser bem-sucedida
- Sem Ezzalzouli: xG esperado do ataque marroquino cai, menos variações no último terço
- Com Mazraoui em dúvida: o corredor direito de Marrocos pode ser o ponto mais vulnerável do jogo
Brasil x Marrocos acontece no sábado, dia 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey. A transmissão será pela CazéTV, disponível no Disney+. Ouahbi vai escalar na véspera — e a escalação vai dizer muito sobre o quanto esses cortes realmente mudaram o plano de jogo.
Dois jogadores saem carregados. Onze entram em campo. E o Brasil vai saber, nos primeiros 15 minutos, exatamente o quanto Marrocos conseguiu reorganizar o que perdeu.








