A última vez que o Brasil chegou a uma semifinal de Copa do Mundo, em 2014, Thiago Silva cumpriu suspensão automática justamente no jogo mais importante — e o que veio depois ficou gravado como o 7 a 1. Doze anos depois, a Seleção carrega um padrão igualmente preocupante: dois dos seus jogadores mais experientes e respeitados entregam, nos clubes, performances que as métricas avançadas classificam como elite, mas, com a camisa amarela, somem quando o torneio mais importa.
Alisson e Marquinhos são o centro desse debate — e os dados ajudam a entender por que o problema vai além de opinião.
O que os números dizem sobre Alisson nas Copas
No Liverpool, Alisson é um dos goleiros com melhor PSxG-GA (Post-Shot Expected Goals minus Goals Allowed) da Premier League nas últimas temporadas — ou seja, ele consistentemente salva mais gols do que a posição da bola exigiria de um goleiro médio. Essa métrica mede o quanto o arqueiro supera a expectativa estatística em cada chute sofrido. No clube inglês, o número é positivo e expressivo.
Com a Seleção, o cenário muda. Na Copa de 2022, no Catar, Alisson disputou 5 jogos e não apresentou nenhuma intervenção classificada como "high-difficulty save" nas estatísticas públicas do torneio. O Brasil foi eliminado nos pênaltis pela Croácia, e o goleiro não defendeu nenhuma das cobranças — algo que, isolado, não define uma carreira, mas reforça um padrão de invisibilidade em momentos decisivos.
Na Copa de 2018, na Rússia, o roteiro foi parecido. Alisson saiu do torneio sem um erro fatal, mas também sem aquela defesa impossível que muda o rumo de uma partida. O Brasil caiu nas quartas para a Bélgica por 2 a 1, e nenhum dos gols sofridos exigiu milagre do goleiro — mas nenhuma defesa sua impediu o que era evitável.
"Alisson e Marquinhos estão, no time nacional, muito mais para jogadores comuns do que atletas fora de série", escreveu um analista especializado em desempenho de seleções, síntese registrada pelo SportNavo a partir de cobertura da ESPN Brasil.
Marquinhos e o erro que não pode se repetir na Copa
No PSG, Marquinhos opera como um dos zagueiros mais completos da Europa em termos de defensive actions — categoria que engloba desarmes, interceptações e pressão alta sobre o portador da bola. Nos últimos dois títulos da Champions League pelo clube parisiense, ele liderou a zaga com autoridade e foi capitão em momentos de pressão máxima.
Quando usa a camisa 4 do Brasil, porém, a consistência some. No amistoso recente contra o Egito, Marquinhos cometeu um erro defensivo claro que abriu espaço para o gol adversário — o tipo de falha que um zagueiro com seu currículo não deveria cometer em partidas de baixa intensidade competitiva. O problema não é o erro em si; é que ele não é isolado. A tendência de Marquinhos perder o posicionamento e hesitar no passe sob pressão se repete com a Seleção de forma que nunca aparece no PSG.
Quando joga pelo clube, ele domina o progressive passing da zaga — passes que avançam a bola pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário, indicando confiança e clareza na saída de bola. Quando joga pela Seleção, esse número cai, e os passes ficam mais laterais, mais defensivos, mais com medo.
Quando enfrenta pressão no clube, ele resolve com leitura de jogo. Quando enfrenta pressão na Seleção, ele recua.
O dilema de Ancelotti e as alternativas reais na defesa
Carlo Ancelotti herda um problema estrutural. No caso do goleiro, a situação é mais delicada: Ederson, que seria o nome mais lógico de reserva, também vive fase irregular, e Bento — revelação recente — ainda não tem o repertório técnico para assumir uma Copa do Mundo como titular sem riscos. Nenhum dos substitutos de Alisson é, hoje, estatisticamente melhor que ele. Isso torna a decisão de Ancelotti quase obrigatória: Alisson começa jogando.
Com Marquinhos, a conta é diferente. Gabriel Magalhães, pelo Arsenal, acumula números superiores em PPDA (Passes Permitidos Por Ação Defensiva) — métrica que mede a intensidade da pressão de uma equipe: quanto menor o número, mais agressiva a marcação. O zagueiro do Arsenal pressiona mais, erra menos no posicionamento e, na temporada 2025/2026 da Premier League, registrou uma das melhores taxas de interceptação entre zagueiros centrais. Bremer, recuperado de lesão grave, também entra nessa disputa.
A questão não é se Ancelotti quer tirar Marquinhos — é se ele vai ter coragem de fazê-lo. Capitão histórico, bicampeão da Champions, presença de vestiário. Esses fatores extracampo pesam em qualquer decisão técnica, e a tendência natural é manter o nome consagrado até que o erro seja grande demais para ignorar. O amistoso contra o Egito pode ter sido um aviso.
O xG concedido (expected goals against) pelo Brasil nos últimos amistosos sob Ancelotti mostra uma zaga que ainda não encontrou o equilíbrio entre construção e solidez. Com Marquinhos no eixo, a saída de bola até melhora, mas as defensive actions nos momentos de transição adversária ficam abaixo do que o técnico italiano precisa para um torneio de mata-mata.
A Copa do Mundo começa em julho de 2026, e o Brasil estreia no grupo que inclui adversários com transições rápidas — exatamente o cenário que expõe as fragilidades de Marquinhos com a camisa amarela. Ancelotti tem menos de dois meses para decidir se confia no histórico ou nos números. Se a resposta vier tarde demais, o Brasil pode repetir o padrão de 2018 e 2022 — eliminado antes da semifinal, com dois titulares incontestáveis que nunca entregaram o que entregam nos clubes.








