O melhor goleiro do mundo pode ser o maior ponto fraco da memória afetiva do futebol brasileiro. Esse é o paradoxo que Alisson carrega ao chegar à Copa do Mundo de 2026 como titular da Seleção pela terceira vez consecutiva — uma marca que, na história verde-amarela, só Gilmar dos Santos Neves e Cláudio Taffarel haviam alcançado antes dele.
A marca de três Mundiais e o peso de quem veio antes
Gilmar foi campeão em 1958 e 1962. Taffarel ergueu a taça em Pasadena, no dia 17 de julho de 1994, após a disputa de pênaltis contra a Itália — série em que defendeu a cobrança de Daniele Massaro e viu Baggio mandar para as nuvens. Alisson, que nasceu em 2 de outubro de 1992 em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, ainda não tem esse capítulo escrito. A diferença entre os três não está no nível técnico. Está no troféu que só a Copa do Mundo concede.
Em entrevista coletiva nesta quinta-feira (11), em Morristown, Nova Jersey, o goleiro do Liverpool foi direto ao ponto quando perguntado sobre as eliminações nas edições de 2018 e 2022.
"O que mais me incomoda de tudo isso é não ter vencido. É óbvio que para um goleiro sofrer um gol, indefensável ou não, sempre fica aquele negócio de se eu tivesse feito alguma coisa diferente", declarou Alisson.
A frase tem peso histórico. Em 2018, na derrota por 2 a 1 para a Bélgica nas quartas de final na Rússia, o gol de Kevin De Bruyne — em jogada que passou por Fernandinho — foi o estopim de críticas que acompanharam o goleiro por anos. Em 2022, no Catar, a eliminação para a Croácia nos pênaltis nas quartas de final reacendeu o debate: Alisson defendeu apenas uma cobrança croata, enquanto Livakovic brilhou do outro lado.
O que separa Alisson de Taffarel na memória da torcida
Existe uma diferença silenciosa entre como um goleiro é julgado na Europa e como ele é julgado na América do Sul. O que para o inglês é consistência — clean sheets, distribuição de bola, liderança defensiva — para o brasileiro é apenas obrigação de quem joga no Liverpool. O que define o ídolo, aqui, é o momento em que o país para. E o Brasil só para de verdade em julho, quando há um troféu em disputa.
Taffarel encerrou sua carreira na Seleção com 101 partidas disputadas e o único título mundial que um goleiro brasileiro já conquistou. Alisson, aos 33 anos, acumula atuações de alto nível, uma Premier League (2019-2020) e uma Champions League (2018-2019) pelo Liverpool, além do prêmio de melhor goleiro do mundo pelo IFFHS em 2019, 2020 e 2021. Na Seleção, porém, a Copa América de 2019 — conquistada no Maracanã, com 3 a 1 sobre o Peru na final — ainda é o único troféu de expressão. E o próprio Alisson reconhece o abismo entre as duas conquistas.
"Já conquistamos a Copa América, mas nada se compara a ganhar uma Copa do Mundo. Ninguém vai me criticar mais do que eu mesmo", disse o goleiro, que também destacou o trabalho diário ao lado de Taffarel, hoje coordenador de goleiros da Seleção.
Ancelotti e a blindagem que 2018 e 2022 não tiveram
A chegada de Carlo Ancelotti ao comando da Seleção Brasileira, em junho de 2024, mudou o ambiente interno de uma forma que as palavras do próprio Alisson descrevem com precisão. O italiano, que acumula quatro títulos da Champions League como treinador — com Milan (2003 e 2007), Real Madrid (2014 e 2022) — trouxe algo que os ciclos anteriores não conseguiram oferecer ao grupo: tranquilidade sem ingenuidade.
"Ele é resiliente, humilde, tem uma inteligência muito grande para escolher as palavras certas. É um grande gestor e tem uma ideia clara de futebol, simples e objetiva", definiu Alisson sobre o técnico italiano.

O goleiro também contextualizou o momento atual da Seleção dentro de uma perspectiva histórica que, curiosamente, favorece o Brasil. Em 1994, a equipe de Parreira chegou ao Mundial americano sendo questionada por jogar um futebol pragmático, sem a fluidez das gerações de 1970 e 1982. O resultado foi o tetracampeonato. Em 2002, o Brasil entrou na Copa da Coreia e Japão com Ronaldo recém-saído de convulsões e uma geração sem o brilho esperado — e saiu campeão invicto, com 18 gols marcados e apenas 4 sofridos em sete partidas.
A Copa do Mundo como divisor de águas de uma carreira inteira
Alisson foi claro ao ser questionado sobre o que representa disputar um terceiro Mundial como titular. Ele não fugiu do tema nem transformou a resposta em protocolo.
"Eu me sinto honrado de chegar a essa marca dos goleiros que estiveram em três Copas do Mundo, mas quero entrar no outro grupo. Quero estar nos campeões de uma Copa. Com os outros 25 convocados. Esse é meu foco", afirmou.
A matéria do SportNavo já mostrou, em análises anteriores sobre o ciclo pós-Catar, como a questão do goleiro da Seleção foi um dos debates mais intensos dos últimos 18 meses. Alisson conviveu com lesões — ficou de fora de partidas importantes pelo Liverpool na temporada 2025/2026 para chegar em condições físicas plenas ao Mundial — e com a concorrência declarada de Ederson e Bento. Mas Ancelotti manteve a hierarquia e o gaúcho de Novo Hamburgo chega ao MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey, como titular absoluto para a estreia contra o Marrocos, neste sábado (13).
O paradoxo que abre esta análise tem uma resolução possível. O melhor goleiro do mundo pode se tornar o maior ídolo da memória afetiva do futebol brasileiro — desde que o apito final de uma grande decisão o encontre do lado certo do placar.








