O ônibus já havia deixado o aeroporto de Cleveland quando a lista de titulares começou a circular nos grupos. Quatro novidades em relação ao time que goleou o Panamá por 6 a 2. Sem Neymar, que ficou em Nova Jersey com o fisioterapeuta Rafael Martini e o médico Felipe Kalil cuidando da panturrilha direita, Carlo Ancelotti decidiu usar o último ensaio antes da Copa do Mundo para testar combinações que ainda não tinha visto em jogo oficial.
O amistoso contra o Egito, neste sábado (6), às 19h (horário de Brasília), no Huntington Bank Field, em Cleveland, não é exatamente uma final. Mas tem o peso de quem sabe que na sexta-feira que vem o Brasil já enfrenta Marrocos na estreia do Mundial — e que cada minuto de rodagem conta.
O que Neymar faz em Nova Jersey enquanto o Brasil treina
A ausência do camisa 10 é o elefante na sala desta preparação. Neymar permaneceu em Nova Jersey acompanhado do preparador físico Christiano Nunes e da equipe médica da CBF. Na próxima segunda-feira (8), ele realizará ressonância magnética para avaliar se tem condições de voltar aos trabalhos no campo. A janela é apertada: a estreia na Copa é dia 13.
Taticamente, a ausência de Neymar obriga Ancelotti a redistribuir responsabilidades de criação. No 4-2-4 confirmado pelo treinador, Lucas Paquetá assume o papel de organizador entre as linhas — e é justamente aí que os dados ficam interessantes.
Paquetá terminou a temporada 2025/2026 pelo West Ham com números relevantes de progressive passes (passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário): média de 6,4 por 90 minutos, acima da média de meias ofensivos da Premier League, que fica em torno de 4,8. Ancelotti foi direto ao ponto na coletiva desta sexta:
"O Paquetá é um jogador importante para a gente porque tem características diferentes das de outros meias."
Traduzindo para o contexto tático: enquanto Bruno Guimarães atua como pivô defensivo — com alto volume de defensive actions (pressões, interceptações e duelos ganhos) —, Paquetá tem liberdade para aparecer entre as linhas e conectar o meio com o quarteto ofensivo. É uma divisão de tarefas que funciona como uma versão mais vertical do que o Brasil apresentou em boa parte das Eliminatórias.
O que os números revelam sobre Igor Thiago e o 4-2-4 de Ancelotti
A grande novidade desta escalação é Igor Thiago como titular. O centroavante do Club Brugge — que encerrou a temporada belga com 18 gols em todas as competições — entra no lugar de Matheus Cunha, que havia iniciado contra o Panamá. Ancelotti foi transparente sobre o motivo:
"Quero testar o Igor Thiago no jogo de amanhã para buscar outra opção. Acho que o sistema com os quatro na frente é bastante consolidado, mas quero provar outra alternativa neste último teste."
O ponto central aqui é o xG (expected goals) — a métrica que calcula a probabilidade de um chute se converter em gol com base em posição, ângulo e tipo de assistência. Igor Thiago tem um perfil de centroavante que se posiciona bem dentro da área, com xG acumulado acima de 14 nos últimos dois anos europeus. Isso significa que ele cria situações de alta qualidade, não apenas volume de finalizações.
Para comparar com o que o Brasil tem no elenco:
- Igor Thiago — centroavante de área, xG/90 estimado em 0,52, forte no jogo aéreo
- Matheus Cunha — mais móvel, desce para receber, xG/90 em torno de 0,38, mas com maior xA (expected assists) pela capacidade de combinar
- Vinicius Jr — pelas pontas, xG/90 de 0,61 no Real Madrid na temporada 2025/2026, referência absoluta do setor
A outra mudança no lado esquerdo da defesa é Douglas Santos no lugar de Alex Sandro. O lateral do Zenit tem um perfil mais ofensivo, com média de 4,1 progressive passes por 90 minutos — número que alimenta bem a dinâmica de um sistema com quatro na frente, já que o lateral precisa ser um terceiro criador nesse esquema.
Marquinhos, Gabriel Magalhães e a dupla que chegou pela Champions
Tem uma cena que ficou gravada na cabeça de quem acompanhou a final da Champions League, no último sábado: Marquinhos correndo em direção a Gabriel Magalhães antes mesmo de celebrar com os companheiros do PSG. O bicampeonato dos franceses havia sido conquistado nos pênaltis, e o zagueiro do Arsenal havia desperdiçado a cobrança decisiva — a mesma situação que Marquinhos viveu contra a Croácia, nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022.
"Eu estava pronto e preparado para celebrar e comemorar. Mas, quando começo a correr, tenho essa imagem dele de frente para mim e do meu time passando por ele, a mesma imagem do meu pênalti em 2022. Ali comecei a pensar no meu companheiro, ter empatia", disse Marquinhos em coletiva.
Essa dupla volta a atuar junta hoje — mas com uma ressalva. Gabriel Magalhães alegou cansaço após a longa sequência com o Arsenal e começa no banco. Léo Pereira, que foi titular contra o Panamá, mantém a posição ao lado de Marquinhos. O capitão da Seleção, que não jogou na última rodada por causa da final europeia, retorna como titular e traz consigo a liderança de um jogador que acumulou mais de 40 partidas na temporada entre PSG e Seleção.
No segundo tempo, Ancelotti confirmou que usará todas as 11 substituições disponíveis — incluindo a entrada de Weverton no gol e de Gabriel Martinelli, que se juntou à delegação após a Champions mas começa no banco. É uma rotação planejada, como foi feito contra o Panamá, para dar minutos a jogadores que precisam de ritmo antes do Mundial.
Como apurado em matéria do SportNavo, o PPDA (passes permitidos por ação defensiva — métrica que mede a intensidade da pressão de uma equipe) do Brasil contra o Panamá ficou em 7,3, indicando pressão alta e consistente. Ancelotti vai querer ver um número parecido hoje contra um Egito liderado por Mohamed Salah, que chega ao seu quarto Mundial sem nunca ter vencido uma partida de Copa — dois empates e cinco derrotas em sete jogos históricos.
Depois do apito final em Cleveland, a delegação retorna para Nova Jersey — onde Neymar aguarda o resultado da ressonância na segunda-feira. Enquanto o camisa 10 corre contra o relógio, Ancelotti vai colher as últimas respostas que precisa antes de 13 de junho, quando o Brasil entra em campo contra Marrocos na estreia da Copa do Mundo.








