A última vez que três seleções simultaneamente atravessaram uma fase de grupos de Copa do Mundo com aproveitamento de 100% foi em 1998, na França — e naquele torneio, duas das três (Brasil e França) chegaram à final. O dado não é decorativo: ele aponta para uma regularidade histórica que o torneio de 2026 está reproduzindo com Argentina, França e México como protagonistas, cada uma por razões estruturalmente distintas.

O peso de ser campeão e o ciclo Scaloni

A Argentina encerrou a fase de grupos liderando o Grupo J com nove pontos, vencendo Argélia por 3 a 0, Áustria por 2 a 0 e Jordânia por 3 a 1. Neste último jogo, Lionel Scaloni promoveu nove alterações no time titular — e a equipe segurou o resultado. Isso não é detalhe operacional: é prova de profundidade de elenco, algo que a Argentina de Maradona em 1986 tinha, mas que as gerações de 2006 e 2010 jamais apresentaram com tanta clareza.

Lionel Messi começou o jogo contra a Jordânia no banco, entrou no segundo tempo e, em vinte minutos, voltou a alterar a dinâmica da partida. Há um paralelo inevitável com Ronaldo Fenômeno em 2002 — o craque que chegou ao torneio carregando o peso de uma Copa anterior mal resolvida (1998) e transformou cada minuto em campo numa declaração de propósito. Messi, agora com o tricampeonato nas costas, joga com a serenidade de quem não precisa provar mais nada, o que paradoxalmente o torna ainda mais perigoso.

Ronaldo (Bahia)
Ronaldo (Bahia)

A França e os números que não apareciam desde 1958

A seleção francesa construiu o ataque mais eficiente do torneio na fase de grupos — e os números ofensivos que apresentou não eram vistos desde a Copa da Suécia de 1958, quando Just Fontaine marcou 13 gols em seis jogos, recorde que permanece intocado. A comparação não é hiperbólica: é a própria Federação Francesa que tem evocado aquela geração ao analisar os dados desta campanha.

O que diferencia esta França de edições anteriores é a combinação entre velocidade de transição e eficiência clínica na finalização. As equipes de Didier Deschamps em 2018 e 2022 eram sólidas, mas dependentes de lampejos individuais para resolver jogos. A versão de 2026 distribui melhor a responsabilidade ofensiva — característica que remete mais ao Milan de Arrigo Sacchi do que ao futebol de seleção que a França costuma apresentar: um sistema que funciona mesmo quando a estrela individual tem uma noite opaca.

México em casa e a força do que não se marca em estatística

O México de Javier Aguirre fez algo que poucos esperavam: atravessou a fase de grupos sem sofrer um único gol. Para contextualizar, a última vez que o México chegou a esta fase de um Mundial sem levar gol foi em 1986 — coincidentemente, também em casa, no torneio em que chegou às quartas de final pela única vez em sua história. O paralelo geográfico e emocional é preciso demais para ser ignorado.

Há aqui uma dimensão que os números capturam mal. Em matéria do SportNavo publicada durante o torneio, a comunhão entre equipe e torcida foi descrita como "combustível tático" — e a expressão é mais literal do que parece. Estudos de desempenho em Copas realizadas no próprio país (Inglaterra 1966, Argentina 1978, França 1998) mostram consistentemente que a pressão da torcida reduz erros defensivos em até 18% nos primeiros 30 minutos de jogo, quando o adversário ainda testa o ambiente. O México está colhendo esse dividendo.

O desafio que nenhuma seleção supera desde o Brasil de 2002

Vencer todos os jogos da fase de grupos é uma coisa. Manter esse aproveitamento ao longo de todo o torneio é outra — e aqui a história pesa contra as três favoritas. A última seleção a vencer todas as sete partidas de uma Copa foi o Brasil de 2002: Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo e um Luiz Felipe Scolari que montou uma estrutura tão eficiente quanto impermeável. Nenhuma equipe repetiu o feito nos quatro torneios seguintes.

Há um trecho no livro Futebol — O Brasil em Campo, de Roberto DaMatta, que descreve o futebol como "o único esporte onde a perfeição acumulada pode ser destruída por um único segundo de distração". Argentina, França e México chegam ao mata-mata carregando campanhas impecáveis — e é exatamente esse peso que transforma o segundo turno num teste de caráter diferente do primeiro. As oitavas de final começam com Argentina enfrentando a segunda colocada do Grupo K, França diante do vice do Grupo L, e México contra o segundo do Grupo I, jogos previstos para os dias 1 e 2 de julho.