Todo mundo sabe que o Uruguai foi eliminado na fase de grupos pela segunda Copa consecutiva. O que pouca gente entendeu enquanto acontecia é que o colapso não começou no gramado — começou no corredor do vestiário, muito antes do apito inicial contra a Espanha.

O diagnóstico que Bielsa fez de si mesmo

Quando Marcelo Bielsa chegou ao microfone após a derrota por 1 a 0 para a Espanha, na sexta-feira 26 de junho, a primeira palavra que saiu foi "nada". Não como figura de linguagem. Como resposta literal ao que havia deixado ao futebol uruguaio.

"O que eu deixo para o futebol uruguaio é nada, porque qualquer tipo de contribuição que um treinador possa fazer ao futebol de um país em que trabalhou por três anos nunca se consolida se não houver resultados. O quarto lugar nas Eliminatórias não teve valor, o terceiro lugar na Copa América não teve valor e, obviamente, esta atuação não preciso nem definir", disse o treinador ao canal DSports.

Três anos de trabalho. Quarto lugar nas Eliminatórias. Terceiro na Copa América. Tudo descartado por ele mesmo, em voz alta, diante das câmeras. Quem não tem cão caça com gato — e Bielsa, sem o respeito do vestiário e sem resultados na Copa, ficou sem nenhum dos dois.

Rebelião antes do jogo decisivo e o silêncio que custou caro

Antes da partida contra a Espanha, quatro pilares do elenco — Sergio Rochet, Manuel Ugarte, Rodrigo Bentancur e Federico Valverde — se reuniram com Bielsa para questionar a montagem tática da equipe. A informação foi divulgada pela rádio El Espectador e confirmada por múltiplas fontes cobrindo a Copa do Mundo 2026. Não era uma conversa técnica amigável. Era uma rebelião organizada, às vésperas do jogo mais importante do grupo.

O contexto vinha de longe. Já em 2024, Luis Suárez havia exposto publicamente o clima interno da seleção após a Copa América.

"Na Copa América houve situações que me magoaram e que não contei por uma questão de convivência. Muitos jogadores fizeram reunião para pedir ao treinador que pelo menos nos desse bom dia. Ele nem sequer nos cumprimenta", disse Suárez na época.

Quando o atacante do Inter Miami considerou voltar à seleção para a Copa, Bielsa foi direto: preferiu Viñas, Aguirre e Darwin Núñez. A escolha foi legítima do ponto de vista técnico — mas o resultado em campo mostrou que a linha ofensiva não entregou o que prometia. O Uruguai terminou a fase de grupos sem vencer nenhum jogo, com apenas dois pontos, ficando atrás de Cabo Verde, estreante na competição.

O que os números revelam sobre o colapso tático

Olhando pela lente das métricas modernas, o Uruguai desta Copa foi um time que nunca encontrou identidade ofensiva. Alguns dados que ajudam a entender o tamanho do problema:

  • xG (expected goals) acumulado nos três jogos: o Uruguai criou poucas situações de alta qualidade. Empatar 1 a 1 com a Arábia Saudita e 2 a 2 com Cabo Verde — seleção que jogou sua primeira Copa — indica geração de chance muito abaixo do esperado para um time com Valverde e Bentancur no meio.
  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva): Bielsa é historicamente associado a alta pressão, mas os relatos de vestiário e o desempenho em campo sugerem que o pressing nunca foi executado com coerência coletiva — o que explica o gol sofrido contra a Arábia e os dois contra Cabo Verde.
  • Progressive passes: com o meio-campo desconectado da linha de ataque, o Uruguai raramente conseguiu progredir em transições rápidas. Valverde, que no Real Madrid acumula mais de 8 progressive passes por 90 minutos em média na temporada 2025/2026 da Champions, não teve estrutura para replicar isso com a Celeste.

Quando um time tem Valverde e Bentancur no meio e não consegue criar volume ofensivo, o problema não é de elenco. É de organização. Quando o mesmo time tem esses jogadores questionando o técnico antes do jogo decisivo, o problema é ainda mais profundo — é de confiança.

Segunda eliminação seguida e o peso de um ciclo perdido

Em 2022, no Qatar, o Uruguai também caiu na fase de grupos do Grupo H com quatro pontos — eliminado no critério de gols pró, depois de vencer Gana por 2 a 0 na última rodada. Era doloroso, mas havia a sensação de azar. Agora, em 2026, sem vencer nenhum jogo e com dois pontos, a narrativa de azar não existe mais.

A Celeste se tornou a primeira seleção sul-americana eliminada desta Copa do Mundo, ficando atrás de Cabo Verde — time que empatou com Espanha, Uruguai e Arábia Saudita, jogando um futebol intenso, organizado e com identidade clara sob o comando de Pedro Brito, o Bubista. A comparação é brutal: o time africano, em sua estreia em Copas, mostrou mais coesão coletiva do que a seleção uruguaia em três anos de trabalho com Bielsa.

Gabriel Valverde (Blooming)
Gabriel Valverde (Blooming)

Há ainda o episódio de Fernando Muslera, que cometeu um erro grave no gol de Alejandro Baena e foi substituído no intervalo pelo goleiro do Internacional, Sergio Rochet. Bielsa revelou que a saída não foi decisão dele: "Eu não tomei essa decisão. Foi o próprio Muslera que tomou", afirmou. Um técnico que não controla nem a substituição do goleiro num jogo eliminatório já perdeu muito mais do que a partida.

Conforme apurado em matéria do SportNavo durante a fase de grupos, o isolamento de Bielsa dentro do próprio grupo era um tema recorrente nos bastidores da delegação uruguaia desde antes da estreia.

Com a eliminação confirmada, a Associação Uruguaia de Futebol precisará reconstruir não apenas o elenco, mas o ambiente interno de uma seleção que chegou à Copa em guerra consigo mesma. Darwin Núñez, Valverde e Bentancur têm menos de 27 anos e seguirão sendo peças centrais do próximo ciclo — mas precisarão de um comando capaz de transformar talento individual em coesão coletiva, algo que Bielsa, por sua própria admissão, não conseguiu entregar.