Não, Giorgian Arrascaeta não é apenas o meia técnico que aquece o coração da Gávea nos domingos de Maracanã. O uruguaio de 30 anos é, segundo o levantamento mais recente do CIES Football Observatory — o Centro Internacional de Estudos do Esporte, sediado na Suíça —, o 22º jogador mais decisivo do planeta entre todos os que atuaram em qualquer uma das 67 ligas avaliadas no último ano. Isso coloca o camisa 14 do Flamengo à frente de nomes como Erling Haaland, do Manchester City, e Cristiano Ronaldo, do Al-Nassr. A pergunta que merece resposta não é se o número impressiona — é por que ainda surpreende.
Como o CIES mede decisividade e por que isso favorece Arrascaeta
A metodologia do CIES não é uma simples soma de gols e assistências. O observatório pondera cada contribuição pelo coeficiente esportivo médio das partidas em que ela ocorreu, cruzando com a média calculada para os 100 melhores jogadores do mundo. Em termos práticos, um gol numa semifinal de liga de alto nível pesa mais do que um gol numa partida de campeonato regional — mas a consistência volumétrica também conta. Arrascaeta entregou 17 gols e 13 assistências no período avaliado, totalizando 30 participações diretas, numa liga sul-americana onde o nível de competição é reconhecidamente desafiador. O Brasileirão não é a Premier League, mas tampouco é uma liga de passeio, e o CIES não ignorou essa variável.
Quando faz um gol pelo Flamengo, Arrascaeta quase sempre o faz em momentos de pressão — em clássicos, em mata-matas da Libertadores, em jogos onde o peso do Maracanã lotado exige sangue-frio. Quando distribui assistências, ele o faz com uma cadência que lembra os anos dourados de seu compatriota Luis Suárez, que aparece na sexta colocação do mesmo ranking defendendo o Sporting, de Portugal. A regularidade, e não apenas o talento pontual, é o que o estudo captura.
Messi no topo e os coadjuvantes que redefinem o mapa do futebol mundial
Lionel Messi lidera o ranking com 59 contribuições diretas — 37 gols e 22 assistências pelo Inter Miami, vantagem de 17 pontos sobre o segundo colocado, Harry Kane, do Bayern de Munique, que somou 42 (35 gols e 7 assistências). O argentino de 38 anos, dono de oito Bolas de Ouro e uma Copa do Mundo, atua numa liga cuja competitividade global é questionável, mas seus números brutos são de uma nitidez que dispensa adjetivos. O CIES não pune o jogador pelo endereço — avalia o impacto dentro de campo, e Messi, mesmo em final de carreira, ainda produz como poucos.

O top-10 do levantamento revela um mapa que desafia qualquer eurocentrismo: além de Messi e Kane, aparecem o sueco Anders Dreyer pelo San Diego FC (22 gols e 19 assistências), Kylian Mbappé no Real Madrid (37 gols e 4 assistências), o veterano Xherdan Shaqiri no FC Basel e Denis Bouanga, congolês do Los Angeles FC, na oitava posição — um nome que o Fluminense tentou contratar na última janela de transferências. A lista inteira é uma declaração de que a decisividade não respeita latitude nem patrocínio de camisa.

Segundo o estudo do CIES, a ponderação foi calculada multiplicando as contribuições pela razão entre o coeficiente esportivo médio das partidas em que os jogadores marcaram gols ou deram assistências e a média medida para os 100 melhores jogadores de futebol — sem considerar o nível das ligas onde essas contribuições foram feitas.
Os brasileiros no ranking e o que Arrascaeta representa para o futebol do país
Arrascaeta não é brasileiro, mas joga no Brasil há anos e carrega o peso afetivo da Gávea como se fosse. No contexto desta lista, ele é o melhor jogador em atividade no futebol nacional — e isso diz algo sobre o momento do Brasileirão como vitrine de talento. Logo abaixo dele, na 23ª posição, aparece Evander da Silva, carioca de 27 anos formado na base do Vasco da Gama e hoje no FC Cincinnati, na MLS, com passagem anterior pelo Portland Timbers e pelo Midtjylland, da Dinamarca. O único brasileiro que atua efetivamente no país é Kaio Jorge, do Cruzeiro, que figura na 32ª posição.
Quando se olha para o restante dos brasileiros na lista, o padrão que emerge é o da diáspora: Leonardo Nascimento (Shanghai Port, 49º), Anderson Talisca (Fenerbahçe, 55º), André Clóvis (Académico de Viseu, 61º) e João Pedro (Qatar SC, 76º). Nenhum deles está numa das cinco grandes ligas europeias — o que, paradoxalmente, reforça a metodologia do CIES: decisividade não é sinônimo de endereço nobre.
Arrascaeta chegou a 100 gols pelo Flamengo nesta temporada — marco celebrado em vitória contra o Madureira —, e esse número não é ornamental num ranking que mede exatamente o que ele sempre soube fazer: aparecer quando importa. O uruguaio já foi melhor jogador do Brasileirão, já levantou a Libertadores com a camisa rubro-negra, e agora tem um certificado suíço de decisividade para pendurar ao lado das medalhas. O ranking do CIES é uma fotografia de um ano, não de uma carreira inteira — mas às vezes uma fotografia bem tirada diz mais do que um álbum inteiro.








