Terça-feira, 9 de junho de 2026. Aquela data precisaria ser celebrada sem ressalvas. O Castelão registrou 55.744 torcedores para um amistoso da seleção feminina — o maior público da história do futebol feminino brasileiro em jogos desse formato, superando os 33.272 registrados em Recife em 2024. Em vez disso, a noite terminou com Arthur Elias na coletiva, usando a palavra que ninguém esperava ouvir: xenofobia.
O vestiário que chegou ao limite antes do apito final
O primeiro tempo foi truncado, com o Brasil competindo de igual para igual e Lorena salvando a equipe nos acréscimos com duas defesas seguidas em chutes de Lavelle. A preocupação real veio aos 30 minutos, quando Dudinha saiu de maca após uma dividida com Sonnett, chorando e com fortes dores no joelho. A perda da meio-campista já era um golpe antes de qualquer decisão arbitral.
No segundo tempo, os EUA cresceram e encontraram o único gol da partida aos 17 minutos: Sophia Wilson arriscou de fora da área, a bola desviou em Isabela e morreu no fundo da rede de Lorena. Na súmula, gol contra da defensora brasileira. A partir daí, a partida virou outro jogo — não dentro das quatro linhas, mas ao redor delas.
Bia Zaneratto e Tarciane foram expulsas no decorrer da etapa final. Arthur Elias também recebeu cartão vermelho à beira do gramado. Após o apito final, a árbitra espanhola Paola Cebollada López ainda expulsou Kerolin e Ludmila por reclamação. Cinco brasileiras — entre jogadoras e comissão técnica — eliminadas de uma partida amistosa. Marta, que não atuava desde a Copa América de 2025, entrou nos minutos finais com o Brasil jogando com nove atletas.
O desabafo de Arthur Elias e a acusação direta
Na coletiva pós-jogo, Arthur Elias não poupou palavras. Começou pelo que acontecia na linha lateral, invisível para quem assistia pela televisão:
"A quarta árbitra brasileira não consegue se comunicar direito com as espanholas, que também não estão nem aí para ela. Foi nesse jogo, foi no jogo anterior, a Rejane me falou isso, que ela falava e as espanholas também não ligavam para ela."
O técnico foi além e descreveu o episódio como o mais humilhante de sua carreira à beira do campo, citando especialmente a auxiliar espanhola que ficou posicionada ao seu lado durante a partida. Mas foi na sequência que a fala ganhou outra dimensão:
"São várias situações que são reflexo de uma xenofobia que a gente sofre. Isso vai vir para a Copa do Mundo. Eu garanto a vocês que é xenofobia, que a seleção brasileira foi desrespeitada muitas vezes."
A acusação não é nova nos bastidores da seleção. Elias mencionou que a reclamação é feita internamente há tempos, mas raramente chega ao público. Ao verbalizá-la numa coletiva com câmeras, o técnico transformou uma insatisfação interna em pauta de governança esportiva internacional — a menos de 12 meses da Copa do Mundo de 2027.
55 mil torcedores e o tamanho do que está em jogo para o futebol feminino
Há uma contradição cruel nessa noite. O mesmo jogo que expôs falhas graves de gestão arbitral foi também o maior evento da história do futebol feminino brasileiro em amistosos. Mônica Esperidião, CSO da FSports — agência que detém com exclusividade os direitos de comercialização do futebol feminino da CBF no ciclo 2025–2029 — resumiu o que os números representam:
"Esse marco é resultado de um trabalho consistente desenvolvido em várias frentes e que visa aproximar a Seleção Brasileira Feminina dos torcedores, fortalecendo a conexão do público com a categoria em todos os cantos do país."
O salto é expressivo: de 33.272 pagantes em Recife em 2024 para 55.744 no Castelão em 2026 representa crescimento de 67% no público de amistosos em menos de dois anos. Para efeito de comparação, muitos jogos da Série B masculina em 2026 não chegam a 10 mil torcedores. O futebol feminino deixou de ser nicho e passou a disputar espaço de mercado com o masculino de forma concreta — e os contratos de comercialização refletem isso.
O problema é que o crescimento de público e receita não veio acompanhado de uma estrutura equivalente de proteção institucional. Quando um técnico precisa ir a público acusar xenofobia para que o tema seja levado a sério, é sinal de que os canais formais de reclamação junto à FIFA e à IFAB não funcionam com a mesma eficiência para as seleções femininas de fora da Europa. Esse desequilíbrio estrutural é o que transforma um amistoso em pauta política.
Conforme registrado pelo SportNavo ao longo do ciclo, a seleção feminina brasileira acumula reclamações contra trios arbitrais europeus em competições de alto nível — e o padrão descrito por Elias, de comunicação ignorada entre a quarta árbitra local e o trio principal, já havia aparecido no amistoso anterior da mesma série. Com a Copa do Mundo de 2027 no horizonte, a CBF terá que decidir se leva esse histórico às instâncias da FIFA antes que ele se repita num jogo que vale vaga ou título.
Terça-feira, 9 de junho de 2026. Aquela data precisaria ser celebrada com orgulho. O maior público da história dos amistosos femininos brasileiros merecia outro capítulo — e agora cabe à CBF transformar o desabafo de Elias em protocolo formal antes que a seleção entre em campo na Copa do Mundo de 2027.








