Se a Copa do Mundo fosse avaliada apenas pelo que aconteceu nos aeroportos americanos nas últimas semanas, os Estados Unidos já teriam reprovado no critério mais básico de qualquer anfitrião: a hospitalidade. Não se trata de retórica — trata-se de fatos registrados, com nomes e horas contabilizadas. Copa do Mundo 2026 ainda não começou, e o maior escândalo já tem endereço: Terminal Internacional do Aeroporto O'Hare, Chicago.
O atacante Aymen Hussein, principal referência ofensiva da seleção do Iraque — o país que retorna ao Mundial após mais de quatro décadas de ausência —, desembarcou em Chicago e foi conduzido a uma sala de interrogatório. Ficou lá por quase sete horas. Seu celular foi inspecionado pelas autoridades de imigração norte-americanas. O fotógrafo oficial da delegação, Talal Salah, suportou mais de dez horas de retenção e, ao final, foi simplesmente impedido de entrar no país. A Federação Iraquiana de Futebol não emitiu nota oficial até o fechamento desta reportagem, e os órgãos de imigração dos EUA tampouco comentaram os episódios.
O que aconteceu com Aymen Hussein revela uma falha sistêmica, não um acidente
Tratar o caso Hussein como um incidente isolado seria ignorar o padrão que se forma. A Associação Internacional de Imprensa Esportiva (AIPS) enviou carta formal à FIFA denunciando que jornalistas credenciados do Irã e de países africanos enfrentam obstáculos concretos para obter vistos de entrada nos EUA. Em alguns casos, os profissionais receberam vistos de entrada única — o que inviabiliza a cobertura de seleções que disputarão partidas no Canadá e no México durante a fase de grupos, já que uma reentrada nos EUA exigiria novo visto. A FIFA confirmou o recebimento da carta, mas recuou para o argumento da soberania: questões migratórias competem às autoridades consulares de cada país-sede.
A resposta da FIFA, tecnicamente correta, é politicamente insuficiente. A entidade que vendeu a ideia de uma Copa tricontinental como símbolo de inclusão agora assiste, passivamente, ao fotógrafo oficial de uma seleção classificada ser barrado na porta de entrada. A embaixada do Irã também se manifestou em redes sociais criticando as restrições impostas a seus cidadãos — o que eleva o episódio do campo burocrático para o campo diplomático.
"Quando um atleta profissional, credenciado por uma federação reconhecida pela FIFA, é tratado como suspeito num aeroporto por sete horas, você não tem mais um problema de imigração — você tem um problema de imagem que nenhum comitê de marketing resolve", observou um analista de políticas esportivas internacionais ouvido por esta reportagem.
O custo invisível que os EUA ainda não calcularam
Há uma métrica que o mercado de eventos esportivos chama de Destination Perception Index — uma espécie de indicador de atratividade do país-sede que combina facilidade de acesso, percepção de segurança e cobertura midiática internacional. Funciona de forma análoga ao xG (gols esperados) no futebol: não mede o que aconteceu, mas o que tende a acontecer com base no acúmulo de sinais. Quando jornalistas e atletas de países com histórico de tensão diplomática com os EUA começam a relatar dificuldades sistemáticas de entrada, o índice cai — e com ele a disposição de patrocinadores regionais, redes de TV e agências de turismo de investirem no evento como plataforma global.
As seleções diretamente afetadas pelas restrições mais rígidas de visto americano incluem Irã, Senegal, Costa do Marfim e Haiti — quatro países classificados para o torneio. Cada um deles representa uma fatia de audiência televisiva e uma base de torcedores que os organizadores precisam, não apenas tolerar. O Irã, por exemplo, tem uma diáspora estimada em mais de 1,5 milhão de pessoas nos próprios EUA, parcela significativa delas residindo em estados que sediarão jogos.
O que a FIFA pode exigir dos EUA antes que o primeiro apito soe
A carta da AIPS à FIFA não é um documento simbólico. Ela cria um registro formal que pode ser acionado em disputas contratuais futuras entre a entidade e o Comitê Organizador Local. Os acordos de candidatura assinados pelos países-sede incluem cláusulas de acesso irrestrito para delegações credenciadas, imprensa e profissionais de apoio. Se os EUA descumprirem essas cláusulas de forma reiterada, a FIFA tem base jurídica para acionar mecanismos de compensação — que em eventos anteriores já incluíram desde multas financeiras até reconfiguração de jogos entre sedes.
O caso de Aymen Hussein é, nesse sentido, um teste de força. O jogador, artilheiro decisivo na campanha que levou o Iraque de volta ao Mundial pela primeira vez desde 1986, foi tratado como variável de risco num algoritmo de triagem que claramente não foi calibrado para receber um evento de 48 seleções. O fotógrafo Talal Salah, impedido de entrar, sequer terá como documentar a participação histórica de seu país no torneio.
A FIFA tem reunião prevista com representantes do Departamento de Segurança Interna dos EUA nas próximas semanas, justamente para revisar os protocolos de entrada de delegações. O caso Hussein deve figurar como item de pauta prioritário — e o desfecho dessa conversa, mais do que qualquer gol marcado na fase de grupos, definirá se os EUA conseguiram mesmo organizar uma Copa do Mundo ou apenas sediaram uma.








