"Não sei por onde começar, mas dói indescritivelmente ter que perder o maior torneio do mundo." A frase foi publicada por Lennart Karl nas redes sociais na última sexta-feira (5), horas depois de uma ruptura de fibras musculares na coxa esquerda encerrar o sonho do atacante de 18 anos de estrear em Copas do Mundo. O jovem do Bayern de Munique estava em Chicago, nos Estados Unidos, durante um treino da seleção alemã quando a lesão foi confirmada por exames médicos — um dia antes da vitória da Alemanha sobre os anfitriões norte-americanos no Soldier Field. Quase simultaneamente, do outro lado da preparação mundial, a Argentina vivia seu próprio pesadelo: Leonardo Balerdi, zagueiro do Olympique de Marselha, deixava a concentração da atual campeã do mundo com lesão muscular na perna direita. Dois cortes, duas seleções favoritas, dez dias para o início da Copa do Mundo.

A lesão de Karl e a resposta imediata de Nagelsmann

A ruptura de fibras de Karl não foi uma surpresa total. O técnico Julian Nagelsmann já havia manifestado preocupação pública com a condição física do atacante antes da confirmação oficial do corte — sinal de que o departamento médico alemão acompanhava o jovem com atenção redobrada. Karl, que disputou cerca de 40 partidas pelo Bayern de Munique nesta temporada 2025/2026, conquistando o Campeonato Alemão e a Copa da Alemanha, era considerado uma opção tanto para a titularidade quanto para entrar no decorrer das partidas, especialmente em situações em que a Alemanha precisasse de velocidade e imprevisibilidade pelo lado do ataque.

Para cobrir a vaga, Nagelsmann convocou o meio-campista Assan Ouédraogo, de 20 anos, do RB Leipzig — uma escolha que revela a preferência do técnico por perfis jovens e dinâmicos. O elenco alemão ainda conta com Kai Havertz, do Arsenal, capaz de atuar como centroavante ou ponta; Nick Woltemade, do Newcastle; Deniz Undav e Jamie Leweling, ambos do Stuttgart. A Alemanha, que sofreu eliminações na fase de grupos em 2018 e 2022 — duas das maiores frustrações da história recente do futebol europeu —, abre o Grupo E no dia 14 de junho contra Curaçao, no NRG Stadium, em Houston. Os jogos seguintes são contra a Costa do Marfim em Toronto (20 de junho) e o Equador em East Rutherford, Nova Jersey (25 de junho).

"Fiz de tudo para estar apto para a Copa do Mundo. Infelizmente, as lesões muitas vezes vêm na hora mais infeliz", escreveu Karl, prometendo voltar mais forte e desejando sucesso aos companheiros.

A perda de Karl — um atacante que representa exatamente o tipo de renovação geracional que a Alemanha busca desde o trauma do Catar 2022 — tem peso simbólico além do tático. Comparando com crises de elenco em Mundiais anteriores, a situação lembra a ausência de Rudi Völler na Copa de 1990, quando o atacante estava suspenso para a estreia e a Alemanha precisou reorganizar o ataque antes de conquistar o título na Itália. A diferença é que, em 1990, a substituição era por suspensão; agora, é por uma lesão que não dá margem a qualquer esperança de retorno durante o torneio.

O rombo defensivo da Argentina e os dez nomes na mesa de Scaloni

O corte de Balerdi — conforme registrado pelo SportNavo desde o início da semana de preparação argentina — representa um problema de natureza diferente para Lionel Scaloni. O zagueiro do Olympique de Marselha era uma peça consolidada no ciclo do técnico, com experiência internacional e capacidade de liderança na saída de bola. A lesão muscular na perna direita o tira de uma posição que a Argentina já vinha gerenciando com cuidado, dado o desgaste físico acumulado pelos defensores ao longo de uma temporada europeia intensa.

A lista de candidatos à substituição é extensa e revela a profundidade — mas também a complexidade — do mapa defensivo argentino. Entre os avaliados estão: Marcos Senesi (Bournemouth), Lucas Martínez Quarta (River Plate), Germán Pezzella (River Plate), Lautaro Di Lollo (Boca Juniors), Zaid Romero (Getafe), Kevin Mac Allister (Union St.-Gilloise), Nicolás Capaldo (Hamburgo), Marcos Acuña (River Plate), Gabriel Rojas (Racing) e Agustín Giay, lateral do Palmeiras que também figura como alvo do Cruzeiro no mercado brasileiro.

Cada candidato carrega um perfil específico. Senesi — que havia ficado de fora da lista por margem mínima — é o nome mais lógico: zagueiro central canhoto, com rodagem internacional pelo Bournemouth e familiaridade com a dinâmica do grupo de Scaloni. Martínez Quarta agrega experiência em convocações anteriores e capacidade de atuar como segundo marcador central. Pezzella, campeão do mundo no Catar 2022, oferece hierarquia e liderança no vestiário, mas alterna entre titular e reserva no River Plate e chega com ritmo de jogo abaixo do ideal. Di Lollo e Romero representam a vertente de renovação geracional — o primeiro pelo Boca Juniors, o segundo pelo Getafe, onde acumula presença física e características de defensor central clássico.

A lesão de Karl e a resposta imediata de Nagelsmann Balerdi e Karl cortados a 10
A lesão de Karl e a resposta imediata de Nagelsmann Balerdi e Karl cortados a 10

O que muda no mapa do Mundial para as duas seleções

Historicamente, cortes de última hora em Copas do Mundo raramente determinam o destino de uma seleção — mas frequentemente revelam a solidez ou fragilidade de um projeto. A Itália de 1982, por exemplo, chegou ao título após perder jogadores importantes na preparação e ainda assim construiu uma das campanhas mais memoráveis da história do torneio, com Paolo Rossi como protagonista improvável. O dado concreto é que, das últimas dez seleções campeãs mundiais, sete enfrentaram ao menos um corte forçado por lesão nos 15 dias anteriores ao início do torneio — o que transforma o episódio em quase um rito de passagem, não em prognóstico negativo.

Para a Alemanha, o impacto imediato é a perda de uma variável tática que Nagelsmann havia planejado usar — especialmente contra adversários que defendem com bloco baixo, situação em que a velocidade e a imprevisibilidade de Karl seriam ativos concretos. Ouédraogo, o substituto convocado, tem perfil diferente: é um meio-campista de caixa, com mais vocação para controle e pressão do que para desequilíbrio individual. A adaptação do esquema alemão a essa realidade será testada já no dia 14 de junho, contra Curaçao.

Para a Argentina, o prazo é ainda mais curto e a decisão de Scaloni — seja por Senesi, Martínez Quarta ou uma surpresa como Giay — moldará diretamente a estrutura defensiva que enfrentará os rivais do grupo. A atual campeã do mundo estreia no torneio com a pressão adicional de defender o título conquistado no Catar, e qualquer instabilidade na zaga — setor que Balerdi ajudava a equilibrar — pode ser explorada por adversários que estudam a seleção de Messi com atenção cirúrgica. A decisão oficial de Scaloni sobre o substituto de Balerdi deve ser anunciada nos próximos dois dias, antes do prazo final da FIFA para alterações nas listas definitivas.