Três fatos: sete jogos como titular na Euro 2024, quatro titularidades em oito convocações com Tuchel, e um concorrente chamado Morgan Rogers que o alemão prefere no meio. Tudo se explica daí.

Jude Bellingham chegou à Copa do Mundo de 2026 como um dos jogadores mais reconhecidos do planeta — postulante à Bola de Ouro em 2024, após sua primeira temporada no Real Madrid, artilheiro providencial da Inglaterra na Euro disputada na Alemanha, autor do gol que evitou a eliminação nas oitavas de final contra a Eslováquia nos acréscimos do segundo tempo. Aquele chute de voleio, de fora da área, às vésperas do apito final, sintetizou tudo que Gareth Southgate esperava dele: um jogador capaz de resolver sozinho o que o coletivo não conseguia. Dois anos depois, o mesmo Bellingham treina para disputar uma vaga que antes era sua por direito de obra.

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O que Southgate enxergava que Tuchel não vê da mesma forma

Sob o comando de Southgate, Bellingham foi titular nas sete partidas da Inglaterra na Euro 2024, da fase de grupos até a final contra a Espanha — derrota por 2 a 1 em Berlim, no dia 14 de julho de 2024. Naquele torneio, marcou dois gols e distribuiu uma assistência, números modestos em quantidade mas de peso específico altíssimo: o gol contra a Eslováquia, já nos acréscimos do segundo tempo, e outro nas quartas de final, contra a Suíça. Southgate o via como o organizador, o jogador capaz de transitar entre a criação e a finalização, o camisa 10 com liberdade de movimentação que a seleção inglesa raramente encontrou em sua história recente.

Thomas Tuchel, que assumiu a seleção inglesa em janeiro de 2025, não nega o talento de Bellingham — mas recusa a ideia de que um jogador, qualquer que seja, está acima da disputa interna. Na semana que antecede a estreia da Inglaterra na Copa do Mundo, marcada para o dia 17 de junho contra a Croácia, o técnico alemão foi direto ao ser questionado sobre a situação do meia:

"Ele tem de lutar pela vaga de titular. Os papéis podem mudar a qualquer momento, mas, no momento, há 14 ou 15 possíveis titulares, e Jude é um deles", afirmou Tuchel.

A declaração não é apenas uma estratégia de comunicação para manter o vestiário equilibrado. Ela reflete uma mudança real de hierarquia. Dos oito jogos em que Bellingham esteve à disposição de Tuchel, foi titular em apenas quatro, entrou no segundo tempo em outros três e sequer foi utilizado no amistoso contra o Japão, em março, apesar de constar na lista de relacionados.

Morgan Rogers e a nova geometria do meio-campo inglês

O nome que ocupa o espaço tático antes reservado a Bellingham é Morgan Rogers, meia do Aston Villa. Aos 22 anos, Rogers ganhou a confiança de Tuchel ao longo dos amistosos preparatórios e passou a funcionar como o camisa 10 preferencial no esquema do treinador — um perfil mais dinâmico no pressing e mais previsível na ocupação de espaços, características que o sistema de Tuchel exige com mais constância do que o estilo individualista de Bellingham permite.

No amistoso de sábado, 6 de junho, contra a Nova Zelândia em Tampa, na Flórida — vitória inglesa por 1 a 0, com gol do capitão Harry Kane —, Bellingham começou entre os reservas e entrou apenas no início do segundo tempo. A partida, registrada pelo SportNavo como parte da cobertura da preparação inglesa para o Mundial, mostrou um time que funciona sem depender de sua presença desde o apito inicial.

A convocação de Tuchel já havia gerado ruído antes mesmo dos amistosos finais. Phil Foden, do Manchester City, Cole Palmer, do Chelsea, e Harry Maguire, do Manchester United, ficaram fora da lista dos 26 para a Copa do Mundo — ausências que expuseram a disposição do treinador de romper com nomes estabelecidos quando julga que o conjunto funciona melhor sem eles. Bellingham entrou na lista, mas sem o status que tinha com Southgate.

O que a história diz sobre camisa 10 pressionados antes de Copas

A situação de Bellingham não é inédita no futebol inglês. Paul Gascoigne, convocado para a Copa de 1998 por Glenn Hoddle, foi cortado na véspera do torneio após uma série de atuações irregulares nos amistosos — episódio que marcou o fim de uma era. Wayne Rooney chegou à Copa de 2014, no Brasil, carregando dúvidas sobre sua forma física e seu papel no esquema de Roy Hodgson, e terminou o torneio como titular mas sem impacto decisivo. A história da seleção inglesa é repleta de camisa 10 que chegaram a Copas do Mundo com o peso da expectativa e saíram com a sensação de que o torneio foi grande demais para o momento que viviam.

Bellingham tem 20 anos. Na Copa do Mundo de 2022, no Qatar, tinha 19 e foi titular nos cinco jogos da Inglaterra antes da eliminação nas quartas de final para a França — derrota por 2 a 1, com dois gols de Olivier Giroud e gol inglês de Bukayo Saka. Naquele torneio, ainda era tratado como promessa que confirmava o presente. Em 2024, na Euro, era o presente absoluto. Em 2026, pela primeira vez, precisa reconquistar o que antes era dado.

Três jogos para provar, começando pela Croácia

A fase de grupos da Inglaterra na Copa do Mundo de 2026 está desenhada: dia 17 de junho contra a Croácia, dia 23 contra Gana e dia 27 contra o Panamá — todos com horário de 17h ou 18h no horário de Brasília. São três jogos, potencialmente seis meias-horas de segundo tempo se Tuchel mantiver Bellingham como opção de banco, para que o jogador do Real Madrid reverta uma hierarquia que o alemão construiu ao longo de 18 meses de trabalho.

Tuchel já demonstrou que não tem apego sentimental a reputações — cortou Foden, Palmer e Maguire sem hesitar. Se Bellingham não convencer nos minutos que receber, o treinador tem Rogers e outros 13 ou 14 nomes que considera igualmente aptos para a titularidade. A pergunta que fica é concreta e urgente: se a Inglaterra empatar ou perder contra a Croácia no dia 17, Tuchel dará a Bellingham a titularidade já na segunda rodada contra Gana — ou Rogers permanece como escolha mesmo sob pressão de resultado?