A campainha do ginásio soou às seis da manhã — e Ben Askren, 41 anos, estava lá. Essa imagem, real ou imaginada, resume o que o retorno do ex-campeão do ONE Championship ao MMA representa: não uma nostalgia embalada para venda, mas uma aposta calculada, com adversário de altíssimo nível e data marcada. O UFC e o mundo das lutas vão prestar atenção em 18 de julho, quando Askren sobe ao cage pelo RAF para enfrentar Belal Muhammad. Quem achar que isso é exibicionismo não leu os dados.
O que Ben Askren construiu antes de parar
Antes de qualquer análise do confronto, é necessário entender o que Askren representa factualmente no esporte. O americano de Wisconsin foi campeão do ONE Championship e do Bellator simultaneamente em diferentes épocas, acumulando um cartel que chegou a 19 vitórias consecutivas antes de sua passagem pelo UFC. Seu estilo de wrestling funcional — baseado em double-legs e controle de posição — foi durante anos considerado um dos mais eficientes do MMA, independentemente da categoria. No UFC, perdeu para Jorge Masvidal por nocaute técnico em cinco segundos (o mais rápido da história do evento), depois para Demian Maia por finalização e para Robbie Lawler em decisão controversa. Três lutas, três derrotas. Mas o contexto importa: Askren chegou ao UFC com 34 anos, após cirurgia no quadril, e enfrentou adversários de elite sem período de adaptação.
O contra-argumento mais óbvio é este: Askren tem 41 anos, não luta desde 2019 e sua única vitória no UFC foi anulada. Quem defende o retorno estaria ignorando a biologia. A refutação é direta — o RAF não é o UFC de 2019. A promoção opera em circuito próprio, com critérios de matchmaking distintos, e Askren não está sendo colocado contra um top-5 da divisão principal. Belal Muhammad, porém, complica esse raciocínio.
Belal Muhammad não é um adversário de transição
Aqui mora o problema central desta análise. Belal Muhammad não é um oponente escolhido para facilitar o retorno de Askren. O lutador de origem palestina nascido em Chicago construiu um dos currículos mais sólidos do peso-médio nos últimos quatro anos. Sua sequência mais recente inclui vitórias sobre nomes de peso, e ele está escalado para o card do UFC Fight Night no APEX contra Gabriel Bonfim — o que significa que Muhammad está em atividade competitiva de alto nível enquanto Askren retorna de sete anos de inatividade.
Os números de Muhammad no wrestling defense são particularmente relevantes aqui. Segundo dados compilados pelo FightMetric, Muhammad consegue defender acima de 70% das tentativas de queda de seus adversários — exatamente o fundamento que Askren usa como base de todo seu jogo. Isso não é coincidência na escolha do adversário; é um teste de resistência deliberado. O RAF quer saber se Askren ainda tem o que tinha, e colocou na frente dele alguém capaz de responder essa pergunta com precisão cirúrgica.
"Belal Muhammad é um dos lutadores mais completos do peso-médio no mundo neste momento", segundo análise do painel do MMA Fighting após o anúncio do confronto pelo RAF.
O que o RAF ganha com esse confronto
A promoção RAF está em ascensão clara. O RAF 11 já tem confirmado o main event entre Arman Tsarukyan e Colby Covington — dois nomes que disputaram o cinturão do UFC em momentos diferentes e que trazem audiência garantida. Colocar Askren vs. Muhammad no mesmo card ou em evento próximo é uma estratégia de construção de marca que faz sentido comercial. O RAF também já contou com as estreias de Merab Dvalishvili e Gable Steveson em seu roster recente, sinalizando que a promoção tem capacidade de atrair nomes reconhecidos do circuito principal.
Para Askren, o RAF oferece o que o UFC nunca ofereceu: tempo de adaptação, adversários calibrados para o momento da carreira e um palco que não exige que ele seja o melhor do mundo imediatamente. O problema é que Muhammad não está seguindo esse roteiro. O lutador de Chicago vai para o cage com o mesmo preparo que levaria para qualquer luta de alto nível — e isso torna o retorno de Askren genuinamente arriscado.
"O Ben Askren ainda tem o wrestling mais difícil de defender que já vi", afirmou um dos comentaristas do painel do Between the Links, do MMA Fighting, ao analisar o anúncio do retorno.
O que esperar em 18 de julho
A luta vai para o chão. Essa é a premissa mais segura desta análise. Askren não tem outro caminho — seu striking nunca foi sua ferramenta principal, e contra um lutador com o timing de Muhammad em pé, tentar trocar golpes seria suicídio tático. A questão é se o wrestling de Askren, construído ao longo de décadas mas não testado em alta intensidade desde 2019, ainda tem a explosão necessária para superar a defesa de queda de Muhammad.
Se Askren conseguir levar a luta para o chão e manter controle de posição, ele tem condições de vencer por decisão ou por finalização — seu ground-and-pound nunca foi letal, mas seu controle posicional é historicamente eficiente. Se Muhammad conseguir manter a luta em pé por dois ou três rounds, o volume de golpes e o condicionamento físico superior vão pesar de forma determinante. Sete anos de inatividade competitiva de alto nível não se apagam com semanas de campo de treinamento, e o cardio é o primeiro a trair quem ficou fora por muito tempo.
O retorno de Askren em 18 de julho pelo RAF é o teste mais honesto possível para medir o que sobrou de um dos wrestlers mais técnicos que o MMA já produziu — Está pronto para competir; falta saber se ainda consegue impor o jogo contra quem foi treinado especificamente para negá-lo.








