Todo mundo já sabe que Alex Pereira vai subir ao peso-pesado no domingo. O que pouca gente parou para calcular é o caminho exato pelo qual Ciryl Gane pode — ou não pode — atrapalhar essa jornada. Paulo Costa calculou, deu a resposta sem rodeios, e os dados sustentam cada palavra dele.
O que Paulo Costa viu que outros ignoraram em Gane
Em entrevista ao canal PVT, Borrachinha elogiou o francês com sinceridade — e depois o descartou com a mesma.
"O Gane é um ótimo lutador, se move muito fluido, bem rápido. Tem que prestar atenção. Mas não vejo tanto risco assim para o Poatan. Acho que o Poatan vai se dar melhor e vai vencer", disse Paulo Costa.
A movimentação de Gane é real. Nos últimos três combates, o francês acumulou 58% de significant strike accuracy — número alto para a divisão de pesos-pesados, onde a média fica em torno de 42%. Ele usa o jab longo para controlar distância e o teep para resetar o ritmo. Contra Stipe Miocic, em 2021, essa receita funcionou por cinco rounds inteiros.
O problema é que Miocic não tem o mesmo poder de finalização em um único golpe que Pereira carrega. O brasileiro registra 91% de taxa de finalização por nocaute ou TKO no UFC — o número mais alto entre todos os ex-campeões ativos da organização. Gane já foi parado antes: Ngannou o nocauteou no round 1 em janeiro de 2022 com um uppercut que veio de um ângulo quase idêntico ao que Pereira usa como golpe de saída no muay thai.
Poatan estreia no peso-pesado carregando três cinturões de história
Esta será a primeira vez que Alex Pereira compete profissionalmente como peso-pesado no MMA. A transição não é trivial — mas o contexto dela é diferente do que parece. Pereira não está subindo por necessidade. Está subindo porque o processo de desidratação para os 93 kg estava corroendo seu desempenho nos rounds finais.
A trajetória de Paulo Costa no próprio UFC ilustra o ponto. Após migrar dos médios para os meio-pesados, Borrachinha encadeou duas vitórias seguidas e voltou a ser cotado para disputar o cinturão. A lógica é a mesma: lutador que não precisa mais matar o corpo na balança chega mais inteiro ao octógono.
No currículo de Pereira já constam títulos simultâneos no peso-médio e meio-pesado do GLORY Kickboxing — a maior organização da modalidade no mundo — e cinturões do UFC nas mesmas duas divisões. Uma vitória sobre Gane faria dele o primeiro atleta campeão em três categorias diferentes na história do Ultimate. Nenhum outro lutador chegou tão perto dessa marca.
O reach de Pereira é de 213 cm. O de Gane, 211 cm. A diferença é mínima, mas o que muda é a qualidade do golpe final: Poatan tem nocautes registrados com jab, cruzado, uppercut, joelhada e chute na cabeça. Gane tem poder, mas não tem esse portfólio de finalizações.
A estratégia de Gane e o ponto onde ela quebra contra Poatan
O plano mais lógico para o francês é o que ele sempre executa: movimento lateral constante, volume de jabs para acumular pontos, e tentativa de takedown quando o adversário avança. A wrestling defense de Pereira no UFC é de 78% — acima da média da divisão meio-pesada, onde ele passou os últimos anos. Contra pesados maiores, esse número ainda não foi testado.
Esse é o único ponto de interrogação real. Se Gane conseguir derrubar Pereira e trabalhar no ground and pound, os dois primeiros rounds podem ser complicados. Masvidal, em análise publicada antes do evento, apontou exatamente esse intervalo como janela de risco para o brasileiro.
Mas há um dado que pesa contra esse cenário: Gane tentou 3,1 takedowns por luta em média ao longo da carreira e converteu apenas 38% deles. Contra adversários com base de striking sólida — como Volkov, em 2020 — ele praticamente abandonou o wrestling e ficou na trocação. Pereira é o melhor striker que Gane já enfrentou. A tendência histórica do francês é justamente recuar para o que sabe fazer, e o que sabe fazer coloca ele dentro do alcance do nocaute de Poatan.
A luta pelo cinturão interino dos pesos-pesados está marcada para domingo, 14 de junho, no UFC Casa Branca. Se Pereira vencer, o próximo passo é o campeão indisputado — e Aspinall, que ainda se recupera de lesão, terá que responder a um adversário que pode chegar ao título unificado antes mesmo de ele estar 100% pronto para defendê-lo.








