Conhece. Brahim Díaz não chega à estreia da Copa do Mundo 2026 como um adversário qualquer de Carlo Ancelotti — ele chega como alguém que viveu dentro do método, entendeu os padrões de pressão, os momentos de rotação tática e até os critérios de escalação do técnico italiano. Entre 2023 e 2025, os dois dividiram o vestiário do Real Madrid. Neste sábado (13), se encontram em lados opostos no MetLife Stadium, em Nova Jersey, com o Brasil estreando no Grupo C da Copa do Mundo diante de Marrocos às 19h (horário de Brasília).

O que duas temporadas no Real Madrid fizeram com Brahim Díaz

Quando o meia-atacante retornou ao Real Madrid em 2023, após três temporadas emprestado ao Milan, Ancelotti o recebeu com uma proposta clara: versatilidade total. O marroquino passou a atuar aberto pelas pontas, como falso 9 e, em determinadas situações, recuado na linha de meio-campo. O resultado estatístico dessa transformação foi expressivo: 18 gols e 16 assistências em duas temporadas com a camisa merengue — números que justificaram a pressão da imprensa espanhola por mais minutos.

A pressão era compreensível. Brahim produzia bem quando acionado, mas enfrentava a concorrência de Jude Bellingham exatamente na posição central que mais o agradava. Ancelotti, ao ser cobrado publicamente, não se esquivou da pergunta:

"Talvez eu tenha sido injusto com o Brahim Díaz, não há nada de errado em dizer que ele poderia ter jogado mais minutos. É óbvio. Como justificativa, posso dizer que, na posição dele, embora ele possa jogar em outras, é onde Bellingham jogou bastante e jogou bem."

A declaração do técnico — admitindo publicamente uma injustiça com um atleta que ele mesmo moldou — revela algo importante sobre a dinâmica entre os dois: havia respeito técnico mútuo, mas também uma hierarquia de escolhas que Brahim entendeu de perto. Esse entendimento, agora, pode ser usado como arma tática por Marrocos.

A opção por Marrocos e o trauma recente na Copa Africana

O ano de 2024 foi divisor de águas para Brahim Díaz fora dos gramados. Nascido em Málaga, com passagem pela base espanhola e até uma estreia pelo profissional da Fúria, ele optou por defender Marrocos — nação de sua avó. A decisão gerou debate, mas Ancelotti foi um dos primeiros a defendê-lo publicamente:

"Brahim para nós é um jogador importante e pode ser para qualquer equipe. Ele escolheu onde o queriam e acho que escolheu bem, por Marrocos ser uma grande equipe, fez uma Copa do Mundo fantástica em 2022 e Brahim vai agregar ainda mais."

A defesa pública do treinador contrastou com o que viria depois. Com a saída de Ancelotti do Real Madrid, o desempenho de Brahim despencou: apenas 2 gols em 42 partidas na temporada 2025/26 pelo clube espanhol — uma queda abrupta que expôs o quanto o italiano era central para seu funcionamento. Para completar o cenário de pressão, Brahim desperdiçou uma cobrança de pênalti na final da última Copa Africana de Nações contra o Senegal, carregando esse peso direto para o Mundial.

A comparação histórica é inevitável: assim como Romário chegou ao Mundial de 1994 carregando 24 anos de jejum brasileiro — e usou a pressão como combustível para cinco gols na fase de grupos e o título — Brahim Díaz chega ao Grupo C com traumas recentes e a necessidade de provar que ainda é o principal nome da seleção africana. O próprio Romário, em entrevista recente, sintetizou essa lógica: "É nessa hora que o grande jogador aparece, que o cara diferenciado tem de assumir essa responsabilidade."

Como Marrocos pode usar o conhecimento de Brahim contra Ancelotti

A chave estratégica para Marrocos não está apenas no talento individual de Brahim Díaz — está na informação que ele carrega. Dois anos convivendo com Ancelotti significam conhecimento sobre os padrões de pressão alta que o técnico italiano costuma evitar, as zonas de espaço que seus laterais deixam quando se projetam e os momentos em que o bloco médio-baixo adversário pode ser explorado em transições rápidas.

Do lado brasileiro, Alex Sandro — lateral do Flamengo com 22 partidas na temporada 2026 pelo clube, sendo 20 como titular — deve iniciar o jogo e pode ser um ponto de atenção defensivo exatamente pela projeção ofensiva que Ancelotti costuma exigir dos laterais. Se Brahim Díaz conhece esse padrão de memória, Marrocos pode explorar o corredor esquerdo brasileiro com maior precisão do que qualquer análise de vídeo permitiria.

No ataque brasileiro, Endrickartilheiro do último amistoso contra o Egito, com gol na vitória por 2 a 1, e valorizado de €35 milhões para €40 milhões desde a convocação — aparece como opção ofensiva que pode atuar como referência ou em dupla com Vinícius Jr. e Raphinha. A decisão de Ancelotti sobre a composição do setor ofensivo define o equilíbrio tático do jogo e, consequentemente, o quanto Brahim Díaz terá de espaço para liderar as transições marroquinas.

O Brasil chega ao confronto com uma invencibilidade de 92 anos em estreias de Copa do Mundo — a última derrota inaugural foi em 1934, 3 a 1 para a Espanha no Luigi Ferraris, na Itália — e com um elenco avaliado em €928,20 milhões segundo o Transfermarkt. Marrocos, por sua vez, chega sem dois jogadores que desfalcaram a equipe nos dias que antecederam o jogo, conforme confirmado em 11 de junho. A bola rola neste sábado, às 19h, no MetLife Stadium — e o ex-aluno vai tentar mostrar que aprendeu a lição melhor do que o mestre esperava, em matéria do SportNavo.