O Brasil prepara seus atletas para enfrentar as maiores pressões do futebol mundial, mas chega à Copa sem o profissional cuja função específica é lidar com pressão. Esse paradoxo define, com precisão cirúrgica, a escolha de Tite de não incluir um psicólogo na delegação que disputará o torneio — a mesma decisão tomada na Rússia, em 2018, quando a Seleção Brasileira caiu nas quartas de final para a Bélgica por 2 a 1.
De Regina Brandão a um vazio de doze anos
A última vez que o Brasil levou um psicólogo à Copa do Mundo foi em 2014, quando a professora Regina Brandão integrou a comissão técnica de Luiz Felipe Scolari. O resultado daquele torneio — eliminação por 7 a 1 para a Alemanha na semifinal, no Estádio Mineirão, diante de 58.141 torcedores — ficou gravado na história como o episódio mais traumático do futebol brasileiro. A ironia é que a presença de Brandão foi associada, na narrativa popular, ao fracasso, quando o colapso emocional coletivo daquela noite de 8 de julho de 2014 seria, justamente, o argumento mais contundente em favor do trabalho preventivo de um especialista.
Nos mundiais de 1994 e 1998, o tema sequer entrava no vocabulário das comissões técnicas brasileiras. Carlos Alberto Parreira e Zagallo operavam dentro de uma cultura esportiva que tratava fragilidade emocional como deficiência de caráter, não como variável técnica. O tetracampeonato nos Estados Unidos, conquistado nos pênaltis contra a Itália, e o vice na França não geraram reflexão sobre o tema. A psicologia do esporte só ganhou espaço institucional na CBF a partir dos anos 2000, de forma fragmentada e sem continuidade.

O argumento de Tite e seus limites práticos
Tite justificou a ausência do profissional com um critério técnico específico: o tempo de preparação desta Copa é de apenas nove dias, insuficiente para que um psicólogo construísse vínculos de confiança com os atletas. O raciocínio tem fundamento — a psicologia clínica aplicada ao esporte de alto rendimento exige histórico de relacionamento para produzir efeito real. Um profissional apresentado às vésperas de uma semifinal não substitui meses de trabalho conjunto.
"Eu já tinha um preparo psicológico de um profissional, assim como temos assessoramento de pessoas suficientemente abalizadas para nos conduzir nessa seara psicológica", disse Tite em entrevista ao programa Bem, Amigos, do SporTV.
O que o técnico descreveu, no entanto, não é acompanhamento dos jogadores — é suporte à comissão técnica. O auxiliar César Sampaio confirmou que uma psicóloga realizou reuniões esporádicas com a equipe de trabalho na sede da CBF, no Rio de Janeiro, abordando temas como a transição de carreira e o encerramento do ciclo. Esse modelo atende aos coordenadores, não aos atletas que entrarão em campo sob pressão máxima.
O que os próprios jogadores dizem sobre saúde mental
A distância entre a posição da comissão técnica e a realidade dos atletas convocados é mensurável. O lateral Alex Telles declarou, em entrevista ao ge, que realiza acompanhamento psicológico há cinco ou seis anos de forma contínua.
"É muito importante, eu faço acompanhamento psicológico há uns cinco, seis anos. Isso me ajuda muito. A gente lida todos os dias com pressão. Às vezes a pressão é positiva, às vezes é negativa, tem altos e baixos nos treinamentos e nos jogos. Sem falar a vida pessoal, que também é muito importante e pode te atrapalhar ou te ajudar", afirmou o lateral.
A fala de Telles não é isolada. Nos últimos quatro anos, o tema da saúde mental ganhou presença crescente no discurso de atletas de alto nível no Brasil e no exterior. O tenista Naomi Osaka se retirou de Roland Garros em 2021 citando saúde mental. O ginasta Simone Biles abandonou finais olímpicas em Tóquio pelo mesmo motivo. No futebol brasileiro, jogadores de clubes como Flamengo, Palmeiras e São Paulo passaram a mencionar acompanhamento psicológico como parte da rotina profissional, sem o estigma que o tema carregava até meados dos anos 2010.
O risco real de chegar à Copa com nove dias e sem suporte especializado
A compressão do calendário desta Copa — com janela de preparação de apenas nove dias, menor do que em qualquer edição anterior desde 1970 — amplifica o problema. Em 2006, a Seleção de Parreira treinou por 21 dias antes da estreia. Em 2010, Dunga teve 17 dias com o grupo completo. Em 2014, Felipão reuniu o elenco com quase um mês de antecedência. O tempo reduzido aumenta a dependência de respostas emocionais automáticas — exatamente o campo em que o trabalho psicológico prévio faz diferença.
Jogadores que atuam em ligas europeias chegam ao torneio após temporadas de 60 a 70 partidas. O acúmulo físico é mensurável por exames; o acúmulo emocional não aparece em nenhum relatório médico. Decisões sob fadiga cognitiva, reações a cobranças da torcida, gestão de conflitos internos no vestiário — essas variáveis não têm protocolo de tratamento dentro da comissão de Tite.
A Copa do Mundo começa em 13 de junho. O Brasil estreia dias depois. Se a Seleção avançar às fases eliminatórias, cada partida carregará o peso de 200 milhões de torcedores e doze anos sem título. Tite apostou que preleções motivacionais substituem psicologia do esporte. O placar de 2 a 1 para a Bélgica, em Kazan, em julho de 2018, sugere que essa aposta já foi testada — e perdida.








