A bola ainda rolava quando o placar já contava uma história mais longa do que 90 minutos. No último sábado (6), a Seleção Brasileira Feminina virou sobre os Estados Unidos por 2 a 1, na Neo Química Arena, em São Paulo — resultado que, por si só, carrega peso histórico contra uma equipe com quatro títulos mundiais. O que interessa ao técnico Arthur Elias, no entanto, não é só o placar: é o que ele aprendeu sobre o time que vai sediar a Copa do Mundo Feminina de 2027.
A escalação que Arthur Elias escolheu para medir o Brasil
No primeiro amistoso, Elias entrou em campo com Lelê na meta; Mariza, Isa Haas e Thais Ferreira na defesa; Isabela e Taina Maranhão no meio; Angelina e Duda Sampaio nas laterais do meio-campo; e o trio ofensivo formado por Kerolin, Dudinha e Bia Zaneratto. A estrutura revela uma aposta em amplitude e velocidade nas alas — padrão que Elias vem construindo desde que assumiu a seleção em 2023. A presença de Taina Maranhão como volante de marcação ao lado de Isabela indica que o treinador quer equilíbrio defensivo mesmo quando escala três atacantes de origem.
Kerolin, que atua pelo Fortaleza — cidade que receberá o segundo amistoso desta terça-feira (9) —, é uma das peças centrais do projeto. A atacante tem sido titular recorrente neste ciclo e representa o perfil de jogadora que Elias prioriza: técnica, velocidade de transição e capacidade de finalizar de fora da área. Dudinha, por sua vez, é a representante mais jovem do ataque titular e acumula passagens pelas categorias de base que a colocam como aposta de médio prazo para 2027.
O que a virada sobre os EUA revela sobre o ciclo atual
Vencer os Estados Unidos de virada não é tarefa trivial. A seleção norte-americana, mesmo em processo de reconstrução após a Copa de 2023 — quando foi eliminada nas oitavas de final pela Suécia —, mantém um elenco de alto nível técnico e físico. O Brasil saiu atrás no placar e conseguiu buscar o resultado, o que aponta para maturidade competitiva e capacidade de reação sob pressão. Esses são exatamente os atributos que faltaram em eliminações anteriores em torneios decisivos.
Segundo a análise registrada pelo SportNavo ao longo deste ciclo preparatório, Elias tem alternado entre um 4-3-3 e um 4-2-3-1 dependendo do adversário, o que demonstra flexibilidade tática. A virada sobre os EUA foi construída com o time apostando em transições rápidas e pressão alta — modelo que exige condicionamento físico elevado para sustentar por 90 minutos, algo que o Brasil historicamente tem dificuldade de manter em torneios longos com jogos a cada três dias.
"Cada jogo dessa janela tem um objetivo específico. Queremos testar situações que vamos encontrar em 2027", afirmou Arthur Elias em entrevista antes da série de amistosos.
Fortaleza recebe o segundo teste — e a pressão muda de endereço
O segundo amistoso acontece nesta terça-feira (9), às 21h30 (horário de Brasília), na Arena Castelão, em Fortaleza. A transmissão será pelo SporTV 2 na TV por assinatura e pelo canal da GE.tv no YouTube. Jogar no Nordeste tem significado diferente para o futebol feminino brasileiro: o público da região tem demonstrado adesão crescente ao esporte, e o Castelão já recebeu partidas da seleção com públicos expressivos nos últimos anos.
A expectativa é que Elias faça alterações no time para avaliar opções de elenco — prática comum em amistosos duplos de Data Fifa. A ausência de Lelê por lesão, confirmada antes desta partida, abre espaço para que a goleira reserva assuma a titularidade e seja avaliada sob pressão real. Para um torneio de 2027 disputado em casa, ter duas goleiras confiáveis é condição mínima, não diferencial.
"Ter o Brasil como sede é uma responsabilidade enorme. A torcida vai estar presente, e nós precisamos estar à altura", disse Bia Zaneratto em declaração à imprensa após o primeiro amistoso.
O que o Brasil precisa construir até 2027
A Copa do Mundo Feminina de 2027 será disputada no Brasil — decisão confirmada pela FIFA em 2023. Isso significa que a seleção terá a vantagem do fator casa, mas também o peso da expectativa de uma torcida que nunca viu o país levantar um troféu mundial feminino. O Brasil foi vice-campeão em 2007, perdendo a final para a Alemanha por 2 a 0, e não chegou às semifinais desde então.
Os amistosos contra os EUA servem como termômetro para três perguntas que Elias precisa responder antes de 2027: a defesa aguenta pressão de seleções de primeiro nível por 90 minutos? O meio-campo tem criatividade suficiente para furar blocos defensivos organizados? E o ataque converte oportunidades em volume suficiente para não depender de jogadas individuais? A virada por 2 a 1 respondeu parcialmente à terceira pergunta — falta consolidar as outras duas.
O Brasil entra em campo nesta terça com a obrigação de mostrar consistência, não apenas capacidade de reação. Vencer uma vez pode ser circunstância — vencer duas vezes seguidas contra os EUA, com variações táticas e de elenco, começa a ser argumento. O palco de 2027 está reservado — falta preencher os 90 minutos que o país vai exigir.








