Setenta e cinco por cento de toda a energia gerada pelo corpo durante uma corrida de alta intensidade vira calor. Não movimento. Não gol. Calor puro. Essa é a física cruel que vai perseguir cada jogador que entrar em campo na Copa do Mundo 2026 — e a ciência já tem os números para provar que o verão norte-americano não vai facilitar nada.

O mapa do perigo nas sedes americanas

O ar em Houston pesa. Quem já esteve lá em julho sabe: não é só calor, é uma parede úmida que gruda na pele antes mesmo de você sair do aeroporto. A umidade que sobe do Golfo do México transforma cidades como Houston, Miami, Dallas e Monterrey em ambientes onde o suor — o principal mecanismo de resfriamento do corpo humano — simplesmente perde eficiência. O suor só resfria quando evapora. Com umidade alta, ele não evapora. Fica ali, escorrendo, inútil.

As previsões sazonais para o verão de 2026 indicam temperaturas acima do normal em grande parte dos Estados Unidos. A World Weather Attribution, organização científica especializada em clima extremo, calculou que cerca de um quarto das 104 partidas do torneio poderá ser disputado em condições que excedem os limites de segurança recomendados para atletas de elite. Uma em cada quatro partidas. É a diferença entre Recife e Curitiba em pleno janeiro — dois países climáticos dentro de um mesmo território.

A métrica que os cientistas usam não é o termômetro comum. É a temperatura de bulbo úmido, que combina calor, umidade, radiação solar e vento para calcular o estresse térmico real no corpo. Um dia de 32°C com 85% de umidade pode ser fisiologicamente mais perigoso do que 38°C em clima seco.

O que a fisiologia diz sobre jogar 90 minutos no forno

Chris Minson, professor de fisiologia e codiretor dos Laboratórios de Fisiologia do Exercício e Ambiental da Universidade de Oregon, colocou em números o que acontece dentro do corpo de um jogador de futebol sob calor extremo.

"Setenta e cinco por cento de toda a energia que utilizamos durante o exercício é convertida em calor. Apenas cerca de 25% é destinada à realização do exercício em si", declarou Minson à Reuters.

Isso significa que um atacante correndo em velocidade máxima está, na prática, carregando um motor superaquecido. O sistema cardiovascular precisa trabalhar em dobro: bombear sangue para os músculos e para a pele, onde o calor é dissipado. Quando a umidade impede a evaporação do suor, o sistema entra em colapso progressivo. A frequência cardíaca sobe. A velocidade cai. As decisões ficam mais lentas. E o risco de colapso térmico se torna real.

"Uma das coisas mais difíceis para nós é quando a umidade está muito alta", reforçou Minson.

Uma pesquisa da Climate Central publicada às vésperas do torneio chegou a um dado ainda mais alarmante: as mudanças climáticas aumentaram a probabilidade de temperaturas prejudiciais ao desempenho em 97 das 104 partidas do torneio. Quase a totalidade do Mundial.

Guadalajara em 26 de junho é o epicentro do risco

Se há uma data marcada no calendário dos cientistas do esporte, é 26 de junho. Nesse dia, Uruguai e Espanha se enfrentam em Guadalajara, no México, num jogo que a Climate Central classifica como o de maior risco climático de toda a Copa. Os pesquisadores estimam 70% de probabilidade de que o calor prejudique o desempenho dos jogadores nessa partida — um aumento de 37 pontos percentuais em relação ao que seria esperado sem as mudanças climáticas. Para colocar em perspectiva: é como se o aquecimento global tivesse transformado um risco moderado num quase-certeza.

O torneio começa oficialmente em 11 de junho e vai até 19 de julho, com a final em Nova Jersey. São 39 dias de competição, o Mundial mais longo da história, com 48 seleções e 104 partidas distribuídas entre Estados Unidos, Canadá e México. O Brasil estreia no dia 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), contra Marrocos, em cidade da Costa Leste americana — uma das regiões de menor risco térmico do torneio.

O que as seleções podem fazer — e o que não podem controlar

As comissões técnicas já sabem que o adversário mais imprevisível desta Copa não vai usar chuteiras. Aclimatação antecipada, hidratação monitorada por dados em tempo real, protocolos de resfriamento nos intervalos com coletes de gelo e imersão em água fria — tudo isso está nos planos das seleções mais bem preparadas. A FIFA também prevê pausas para hidratação durante as partidas disputadas em condições de calor extremo, mecanismo já testado em Mundiais anteriores.

O que nenhuma comissão técnica consegue controlar são as tempestades. A umidade que sobe do Golfo do México não apenas sufoca — ela alimenta sistemas de tempestades capazes de interromper partidas sem aviso prévio. Os organizadores têm protocolos de suspensão, mas numa competição com 104 jogos e logística distribuída por três países, cada atraso tem efeito cascata.

A partida de Uruguai e Espanha em Guadalajara acontece em 26 de junho. O relógio já está contando. E o termômetro, subindo.