"Mesmo diante da derrota, a seleção africana teve bons momentos" — essa frase, dita pela comissão técnica argelina após o 3 a 0 para a Argentina, resume a ilusão perigosa que pode custar a Copa à Argélia. Bons momentos não pontuam. Vitórias, sim.

Jordânia e Argélia se enfrentam na terça-feira (23), à 0h (de Brasília), no Levi's Stadium, em Santa Clara, pela segunda rodada do Grupo J da Copa do Mundo. Quem perder vai depender de uma combinação de resultados que, a esta altura, parece mais miragem do que matemática.

O que os números da primeira rodada dizem sobre cada seleção

A Jordânia perdeu por 4 a 1 para a Áustria, com o único gol anotado por Odeh Al-Fakhouri. O placar, porém, esconde nuances. O xG (expected goals) gerado pelos jordanianos foi superior ao que o resultado sugere — Ali Olwan chegou a empatar em 1 a 1 antes do gol contra de Yazan Abu Arab, aos 76 minutos, virar o jogo definitivamente. Nos acréscimos, Arnautovic fechou o caixão.

O xG mede quantos gols uma equipe deveria ter marcado com base na qualidade das finalizações. Quando o placar supera muito o xG adversário, costuma indicar que o resultado foi inflado por erros individuais — e não por superioridade tática absoluta. No caso jordaniano, o gol contra foi exatamente esse tipo de evento.

O que os números da primeira rodada dizem sobre cada seleção Jordânia e Argélia
O que os números da primeira rodada dizem sobre cada seleção Jordânia e Argélia

A Argélia, por sua vez, sofreu 3 a 0 da Argentina com Lionel Messi em modo Copa. Os argelinos reclamaram da não expulsão do camisa 10 após entrada em Mandi ainda no primeiro tempo, quando o placar era de apenas 1 a 0. Chaibi chegou a balançar as redes, mas o árbitro anulou por impedimento. O goleiro Luca Zidane, filho de Zinedine, falhou em duas oportunidades e mesmo assim deve ser mantido como titular pelo técnico Vladimir Petkovic.

Comparando as duas estreias em métricas objetivas:

  • Jordânia x Áustria: gol contra e dois gols nos acréscimos distorceram o placar; a equipe asiática chegou ao empate no segundo tempo
  • Argélia x Argentina: derrota mais controlada taticamente, mas com erros individuais graves do goleiro e dependência excessiva de Mahrez na criação
  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva): a Argélia pressionou pouco a saída de bola argentina — índice alto indica que a equipe recuou cedo demais, entregando território
  • Progressive passes (passes que avançam o jogo em pelo menos 10 metros): a Jordânia completou mais ações progressivas do que se esperava de uma estreante, especialmente pelo corredor direito com Mousa Al-Tamari

O histórico entre as duas seleções oferece pouca base para prever qualquer coisa

O único confronto registrado entre Jordânia e Argélia foi um amistoso em 2018, encerrado em 1 a 1. Oito anos de distância e contextos completamente diferentes. Aquele jogo não tinha Copa do Mundo em jogo, não tinha pressão de eliminação, não tinha Luca Zidane no gol nem Al-Tamari como referência ofensiva.

Conforme registrado pelo SportNavo, este será apenas o segundo jogo da Jordânia em toda a história das Copas do Mundo. A Argélia, por outro lado, chega à sua quinta participação — a primeira desde 2014, quando chegou às oitavas de final e perdeu para a Alemanha na prorrogação por 2 a 1, com gol de Schürrle.

Doze anos. É o tempo que a Argélia ficou fora do Mundial. A geração atual é formada em grande parte por jogadores nascidos ou criados na França — Aouar, Bensebaini, Aït-Nouri e o próprio Luca Zidane são exemplos dessa diáspora que virou seleção. Mahrez, ex-Manchester City e hoje no Al-Ahli da Arábia Saudita, é o nome mais reconhecido, mas já tem 33 anos e não está no melhor momento físico.

Esperou.

O que cada técnico pode fazer para mudar o jogo

O técnico jordaniano Jamal Sellami estuda abrir mão da formação com três zagueiros — esquema utilizado contra a Áustria — para aumentar o poder ofensivo. Isso significaria liberar Al-Tamari, que atua pelo Rennes na Ligue 1, para jogar mais perto da área adversária em vez de recuar para ajudar na construção.

Al-Tamari é o único jogador jordaniano atuando em um campeonato europeu de primeira divisão. Sua capacidade de criar espaços em velocidade e gerar xA (expected assists — métrica que mede a qualidade das chances criadas por assistências) é o principal ativo ofensivo da equipe. Nas ações defensivas, a Jordânia tende a se organizar em bloco médio-baixo e sair em transição rápida — exatamente o tipo de jogo que pode incomodar uma Argélia que prefere ter a bola.

"A experiência de Luca é importante para confrontos decisivos", disse a comissão técnica argelina ao justificar a manutenção do goleiro apesar das falhas contra a Argentina.

Petkovic deve manter a mesma base: Zidane; Belghali, Mandi, Bensebaini e Aït-Nouri; Bentaleb, Boudaoui e Maza; Hadj Moussa, Gouiri e Chaïbi. A presença de Aouar como opção no meio é um trunfo que o técnico suíço pode usar para dar mais criatividade ao time caso o placar exija.

A provável escalação jordaniana: Abulaila; Haddad, Nasib, Abualnadi e Abu Taha; Al-Rashdan, Al-Rawabdeh e Al-Dawoud; Odeh Al-Fakhouri, Al-Tamari e Olwan.

Os dois times entram em campo já sabendo o resultado de Áustria x Argentina, marcado para segunda-feira. Se a Argentina vencer, quem perder o duelo entre Jordânia e Argélia estará praticamente eliminado antes da última rodada. Se houver empate entre as favoritas, o cenário abre — mas ainda exige vitória de qualquer uma das duas na terça.

"Mostramos coragem e luta em campo", afirmou a delegação jordaniana após a derrota para a Áustria, deixando claro que a equipe não veio à Copa apenas para cumprir tabela.

Jordânia e Argélia se enfrentam às 0h de terça-feira (23), no Levi's Stadium, em Santa Clara. O grupo J tem apenas quatro vagas de história para qualquer uma delas — e 90 minutos para decidir qual seguirá com vida no torneio. A última vez que as duas se encontraram, em 2018, ninguém se importou muito com o resultado. Desta vez, o perdedor vai para casa com 0 pontos em 2 jogos e uma última rodada que já nasce como missão impossível.