2 empates em 2 jogos — contra Arábia Saudita e Cabo Verde — e uma classificação que pendia por um fio. Esse é o retrato do Uruguai na Copa do Mundo 2026 antes do duelo decisivo com a Espanha, marcado para sexta-feira, dia 26, às 21h (horário de Brasília). O número parece simples, mas carrega um peso que vai muito além da aritmética da fase de grupos: nenhum dos dois adversários figurava entre os favoritos do torneio, e o time de Marcelo Bielsa não conseguiu transformar domínio em vitória em nenhuma das duas partidas. A situação é crítica — e quem mais a escancarou foi justamente o homem que Bielsa dispensou antes do torneio começar.
O fantasma de 1990 e a armadilha que o Uruguai conhece de cor
Reparemos no detalhe histórico: o Uruguai já viveu situação semelhante em Copa do Mundo. Em 1990, na Itália, a Celeste chegou à última rodada da fase de grupos precisando de resultado positivo contra a Coreia do Sul para avançar, após dois jogos sem vitória. Venceu por 1 a 0 e seguiu em frente. A diferença hoje é o peso do adversário — a Espanha não é a Coreia de 1990 — e a ferida aberta dentro do próprio vestiário, algo que em nenhum dos episódios anteriores chegou a ser exposto publicamente com tanta clareza.
A pressão externa sobre Bielsa não é novidade. O técnico argentino, de 70 anos, nunca cultivou relações fáceis com elencos. Mas o nível de exposição pública do conflito com Luis Suárez representa um capítulo diferente. Em entrevista ao canal DSports Uruguay, após se aposentar da seleção em 2024, o atacante do Inter Miami revelou uma cena que diz muito sobre o ambiente criado pelo treinador:
"Muitos jogadores fizeram reunião para pedir ao treinador que pelo menos nos desse bom dia. Ele nem sequer nos cumprimenta."A fala não é de um atleta frustrado com minutagem — é de um capitão histórico descrevendo o colapso do mínimo protocolo de convivência num grupo nacional.
Suárez vê o Uruguai no limite e cobra reação dos jogadores
Do banco de observador, Suárez acompanhou os dois tropeços e não se conteve. Ao comentar a situação atual da seleção, o artilheiro que marcou 68 gols pela Celeste ao longo de 20 anos foi explícito sobre o estado do grupo e sobre o que espera de Bielsa para o jogo decisivo:

"Acho que cada técnico tem sua própria maneira de lidar com esse tipo de situação, e neste caso, a seleção está no limite. Mostrar essa força agora, neste momento, será ótimo para um uruguaio, porque gostamos desse tipo de situação. Não queremos chegar a esse ponto, mas é o momento em que estamos, e bem, vamos torcer para que o técnico tome a decisão certa para que o Uruguai possa ser campeão."
A frase tem camadas. "Vamos torcer para que o técnico tome a decisão certa" não é um voto de confiança — é uma cobrança velada, quase uma ultimato público. Suárez também direcionou o olhar para os jogadores dentro de campo, invocando o caráter histórico do futebol uruguaio como argumento de mobilização:
"Nós, uruguaios, estamos acostumados com isso. É nesses momentos que demonstramos essa coragem, essa autocrítica, essa força coletiva, esse caráter uruguaio, que precisa ser mostrado nessas situações."
O que os números revelam sobre o colapso ofensivo de Bielsa
O problema do Uruguai não é apenas emocional. Os dois empates revelam uma equipe que, taticamente, funciona como tempestade sem trovão — muita movimentação, pressão alta, presença nos últimos 30 metros, mas sem o relâmpago do gol que transforma domínio em resultado. Darwin Núñez, centroavante do Liverpool avaliado em cerca de 80 milhões de euros pelo mercado europeu, não balançou as redes nos dois jogos. Federico Valverde, do Real Madrid, operou em modo apagado contra adversários que priorizaram o bloco defensivo baixo.
Bielsa, fiel ao seu 4-3-3 de pressing intenso, não demonstrou nos dois jogos capacidade de adaptar o plano quando o adversário resistiu ao volume de jogo. A Arábia Saudita e Cabo Verde, cada uma à sua maneira, encontraram no bloco compacto a resposta para neutralizar a intensidade uruguaia. Contra a Espanha — finalista da última Eurocopa e com Pedri, Yamal e Morata em forma — a tarefa de superar um bloco defensivo organizado será exponencialmente mais complexa. A questão é se Bielsa vai reconhecer isso antes do apito inicial.
O que está em jogo na sexta-feira além da classificação
Para o Uruguai avançar, uma vitória simples basta — dependendo do resultado paralelo do grupo. Uma derrota encerra a participação na fase de grupos, algo que não acontece com a seleção celeste desde 2002. Um empate também pode não ser suficiente. O cenário coloca Bielsa numa encruzilhada que vai além do placar: se o Uruguai for eliminado, o técnico argentino — que assumiu o cargo em 2023 e nunca disputou uma Copa como técnico de seleção principal — vai carregar o peso de ter chegado ao torneio sem conseguir uma vitória sequer na fase de grupos.

Suárez, mesmo de fora, deixou no ar uma perspectiva que resume o sentimento do torcedor uruguaio: ele acredita no grupo de jogadores, mas mantém a dúvida sobre as escolhas do comando técnico. O jogo contra a Espanha acontece na sexta-feira, 26 de junho, às 21h (horário de Brasília), com transmissão pela CazéTV, disponível no Disney+. Se o Uruguai perder, Bielsa terá encerrado sua passagem pela Celeste sem jamais ter disputado uma partida de mata-mata numa Copa do Mundo — e o racha com Suárez vai figurar como o símbolo mais amargo de uma gestão que nunca resolveu o problema mais básico de qualquer equipe: a coesão do vestiário.








