Os detectores apitaram. Os cães farejadores circularam entre as malas. A prancheta tática — aquela com os esquemas que Igor Sergeev e seus companheiros estudaram por meses — foi colocada numa esteira de escaneamento. Era 8 de junho de 2026, no Icahn Stadium, em Manhattan, e a seleção do Uzbequistão estava prestes a disputar um amistoso fechado contra a Holanda. O que ninguém esperava era que a preparação para o jogo começasse numa fila de revista corporal individual, com cada membro da delegação passando por inspeção antes de entrar no estádio.
O que Cannavaro viu na fila do Icahn Stadium
Fabio Cannavaro — campeão mundial com a Itália em 2006, Bola de Ouro naquele mesmo ano, e hoje técnico da seleção uzbeque — não escondeu o estranhamento. Em entrevista à emissora chinesa CGTN, o treinador foi direto:
"Falaram que estas eram as regras, mas, no final, a inspeção aconteceu só com a gente, então achei curioso. O motivo precisa perguntar para eles."
À Sky Sports, Cannavaro reforçou a percepção de tratamento diferenciado: "Disseram-me que estas eram as regras. Mas, no final, a inspeção foi apenas para nós." Imagens registradas pela ESPN Centroamérica mostram os jogadores uzbeques organizados em fila, passando individualmente pelos detectores de metal. Bolsas, mochilas e equipamentos técnicos foram revistados. Segundo o próprio treinador, foi a primeira vez em sua carreira que vivenciou um protocolo de segurança dessa magnitude antes de uma partida.
Igor Sergeev — o atacante que marcou o único gol uzbeque na derrota por 2 a 1 para a Holanda — também demonstrou surpresa com o procedimento. A partida, disputada num estádio com capacidade para cerca de 5 mil espectadores e sem presença de público, era parte da preparação final para a Copa do Mundo de 2026. O resultado ficou em segundo plano diante da polêmica gerada nos bastidores.
A versão americana e o contexto Trump
Não houve manifestação oficial detalhada das autoridades americanas sobre o caso. O que circulou, segundo os jornais argentinos Olé e TN Deportivo, foi uma hipótese contextual: a presença do presidente Donald Trump em Nova York naquela data teria intensificado protocolos de controle e vigilância em diferentes pontos da cidade. Se essa explicação procede, ela não responde à pergunta central levantada por Cannavaro — por que apenas a delegação do Uzbequistão foi submetida ao procedimento, e não a seleção holandesa, que disputou o mesmo jogo no mesmo estádio?
A ausência de resposta oficial é, ela mesma, um dado. Numa Copa do Mundo que reunirá 48 seleções, distribuirá 104 partidas entre Estados Unidos, Canadá e México, e receberá delegações de países com os perfis políticos mais variados possíveis, a falta de transparência sobre critérios de segurança cria precedente preocupante. O México, outra sede do torneio, já enfrenta pressão sobre seus próprios protocolos: com cerca de 90% da população de Guadalajara afirmando não se sentir segura na cidade, as autoridades prometem um dos maiores esquemas de segurança já montados para um evento esportivo no país.
Estreia histórica ameaçada por imagem de discriminação
O timing do episódio agrava o impacto simbólico. O Uzbequistão chega à Copa do Mundo de 2026 numa condição inédita: esta será sua primeira participação em um Mundial. A classificação histórica, construída sob o comando de Cannavaro — que assumiu a seleção com a missão explícita de levar o país à elite do futebol mundial —, deu ao país asiático um protagonismo novo no cenário global. O zagueiro Abdukodir Khusanov, de 22 anos, é apontado como o principal nome do elenco e um dos jovens defensores mais promissores do futebol internacional.
Estrear num Mundial já é, por si só, um desafio enorme. Chegar a esse momento carregando a imagem de uma delegação tratada com suspeita — revistada com cães farejadores enquanto a equipe adversária entrava sem maiores controles — adiciona uma camada de constrangimento que vai além do protocolo de segurança. Torcedores e internautas que acompanharam as imagens divulgadas nas redes sociais não pouparam críticas, questionando se o mesmo tratamento seria aplicado a seleções europeias ou sul-americanas em condições semelhantes.
A pressão sobre organizadores e autoridades locais para que os protocolos sejam padronizados e aplicados sem distinção entre delegações é crescente — e legítima. Como registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura pré-Copa, a edição de 2026 já acumula tensões logísticas, políticas e de infraestrutura que testam a capacidade dos três países-sede de entregar um torneio à altura de sua dimensão histórica. O Uzbequistão disputa sua primeira partida na fase de grupos do Mundial no dia 12 de junho, e Cannavaro já avisou que o episódio em Nova York não será esquecido tão cedo.








