Quem menos precisa de apresentação é quem mais surpreende quando fala de jovens. Antonio de Oliveira Filho — o Neymar de uma geração anterior, o homem que vestiu a camisa 9 do Brasil antes de Romário e Ronaldo — olhou para a lista de Carlo Ancelotti e apontou dois nomes que a maioria dos analistas ainda trata como promessa: Endrick e Rayan. O paradoxo é esse: o ídolo que viveu a Copa de 1990 em Nápoles, ao lado de Maradona no dia a dia do Napoli, é quem enxerga com mais clareza o que os jovens de 2026 têm de diferente.

O que Careca viu em Endrick que a Europa ainda debate

Careca chegou à Copa de 1990 com 29 anos e 73 gols pelo Napoli em quatro temporadas — números que o colocavam entre os centroavantes mais eficientes da Europa naquele ciclo. Quando ele fala de um atacante, fala de dentro. E a palavra que escolheu para Endrick não foi técnica: foi comportamental.

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"Eu gosto muito do Endrick porque ele é destemido. É baixinho, mas se entrega de corpo e alma."

Destemido é uma palavra que carrega peso histórico. Em 1982, Zico tinha 29 anos e o Brasil jogava o futebol mais bonito do mundo — mas perdeu para a Itália porque faltou frieza nos momentos decisivos. Em 1990, o próprio Careca marcou dois gols contra a Costa Rica e um contra a Escócia, mas o Brasil foi eliminado pela Argentina num jogo em que Caniggia aproveitou um erro de Taffarel. O que separa gerações não é talento: é temperamento. E Careca, que viveu esses dois lados, reconhece no garoto do Real Madrid uma característica que não se ensina em academia.

Endrick completou 18 anos em julho de 2024 e, na temporada 2025/2026 pelo Real Madrid, acumulou participações pontuais — mas cada uma com aquela marca de quem não entra para ocupar espaço. O físico baixo, que alguns na imprensa espanhola usaram como argumento contra ele, é exatamente o que Careca identifica como força: a capacidade de se jogar em disputas que jogadores mais altos evitam.

Rayan e o padrão das revelações que chegam sem aviso

Se Endrick já tem contrato com o Real Madrid e exposição europeia, Rayan é o nome que ainda divide opiniões. Careca foi direto, sem rodeios, ao jornal argentino Olé:

"E também do Rayan, que é outro jovem jogador muito bom."

"Muito bom" dito por quem marcou 73 gols no Napoli de Maradona não é elogio protocolar. Há um padrão histórico aqui que merece atenção: nas Copas de 1994 e 1998, o Brasil levou jovens que chegaram quase como figurantes e saíram como protagonistas. Ronaldo tinha 17 anos no banco de 1994 — convocado, mas sem minutos — e em 1998 foi o jogador do torneio com 4 gols. Robinho, em 2006, entrou como coadjuvante e saiu como o nome mais comentado da campanha brasileira. Rayan segue esse roteiro: jovem, com espaço para crescer dentro do torneio, sem o peso das expectativas que paralisa.

Em matéria do SportNavo, o perfil de Rayan já foi detalhado — um atacante criado nas categorias de base com capacidade de atuar pelos lados e pelo centro, o tipo de polivalência que Ancelotti valoriza quando precisa de variações táticas ao longo de uma Copa.

A defesa de Neymar e o que ela diz sobre o futebol brasileiro

Antes de falar dos jovens, Careca foi à questão mais delicada da convocação. A lesão na panturrilha de Neymar transformou o camisa 10 no tema mais debatido da pré-Copa — e o ex-atacante do São Paulo e Napoli não hesitou.

"O Neymar precisa ter a oportunidade de estar lá. Espero que ele se recupere bem, mas essa lesão na panturrilha é complicada. Mesmo assim, ele tinha que estar lá. É um talento único."

A posição de Careca tem paralelo direto com o debate que cercou Ronaldo antes da Copa de 1998. O centroavante chegou à França com problemas físicos que geraram dúvida até a véspera da final — e ainda assim foi o artilheiro do torneio com 4 gols. A diferença é que Ronaldo tinha 21 anos e Neymar chega a esta Copa com 34. O argumento de Careca não é sobre condição física: é sobre o que um jogador desse calibre representa para o vestiário e para o adversário, mesmo que entre em campo por 20 minutos.

Brasil estreia contra Marrocos com a geração mais jovem desde 1990

A delegação de Ancelotti tem uma característica que não aparecia desde a Copa de 1990: dois atacantes com menos de 20 anos na lista titular — algo que o próprio Careca viveu de dentro, quando tinha ao lado dele jovens como Müller, que fez sua primeira Copa com 23 anos. A diferença é que em 1990 o Brasil chegou como favorito absoluto e saiu nas oitavas. Em 2026, a mistura de experiência — Neymar, se recuperado — com a ousadia de Endrick e Rayan cria um perfil de seleção mais imprevisível, o que historicamente funciona melhor em torneios eliminatórios do que equipes com hierarquia rígida.

O Brasil estreia na Copa do Mundo contra Marrocos neste sábado, dia 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), com transmissão pela CazéTV. Se Ancelotti escalar Endrick desde o início — como a maioria dos cenários táticos projeta — será a primeira vez que o atacante do Real Madrid terá a Copa como palco principal. Careca já deu o veredicto. O jogo confirma.