Trinta e oito por cento das intenções de consumo para a Copa do Mundo de 2026 estão com a TV Globo — e dez por cento, com a CazéTV. Esses são os números de uma pesquisa Datafolha divulgada pela Folha de S.Paulo em abril de 2025, conduzida entre os dias 7 e 9 com 2.004 entrevistados acima de 16 anos em 137 municípios brasileiros. Por trás da aparente superioridade da emissora tradicional, porém, há uma fratura geracional que redefine a estrutura do mercado audiovisual esportivo no Brasil.
O que os números do Datafolha revelam sobre o consumo por faixa etária
Quando a amostragem geral é desmembrada por idade — com margem de erro de cinco pontos percentuais nesse recorte — o quadro se transforma. Entre os jovens de 16 a 24 anos, a TV Globo aparece com 34% das intenções e a CazéTV com 29%. Somados os 6% que indicaram o YouTube como plataforma preferida — e a CazéTV transmitirá exclusivamente via YouTube nesta modalidade digital —, há um empate técnico que, no limite, pode pender para o canal de Casimiro Miguel. Entre os brasileiros com 60 anos ou mais, no entanto, a Globo mantém 39% e a CazéTV despenca para 1%. O SBT, emissora com quatro décadas de história construída sob Silvio Santos, retém 10% nessa faixa etária.
Os dados indicam algo que a sociologia dos meios já identificou em outros contextos: a fragmentação do consumo audiovisual não é uniforme. Ela é estruturada por trajetórias de socialização com a mídia. Quem cresceu assistindo Globo em antenas parabólicas no interior do Brasil não migra para o streaming com a mesma fluidez de quem foi alfabetizado digitalmente pelo YouTube. A análise do SportNavo sobre os dados do Datafolha aponta que a CazéTV não disputa apenas audiência — disputa a memória afetiva do esporte brasileiro.
A CazéTV como segundo lugar e o que isso significa para o mercado
A posição de segunda colocada, à frente do SBT com seus 9% na amostragem geral, é um marco histórico para uma plataforma de streaming esportivo no Brasil. A CazéTV, operada pela LiveMode em parceria com a Amazon Prime Video para a transmissão da Copa 2026, consolida-se como alternativa real de massa — não como nicho. O SBT, que transmitiu Copas do Mundo anteriores com grande audiência em TV aberta, fica numericamente atrás de uma plataforma que sequer existia como estrutura jornalística consolidada há uma década.
Esse reposicionamento tem implicações diretas sobre a lógica de precificação dos direitos de transmissão. Segundo apuração do SportNavo, o modelo de receita publicitária da CazéTV — baseado em inserções digitais, patrocínios integrados e interatividade com o público — é estruturalmente distinto do modelo de audiência televisiva linear que sustenta o valor comercial da Globo. Em uma Copa do Mundo, onde os volumes de audiência se concentram em poucas semanas, a guerra entre esses dois modelos será medida em CPM, tempo de permanência e alcance verificável por plataforma.

O desafio de falar com gerações diferentes ao mesmo tempo
O problema central da CazéTV para 2026 não é tecnológico — é sociológico. A linguagem que conquista os 16 a 24 anos, calcada em memes, informalidade e interação ao vivo nos comentários, pode ser exatamente o elemento que afasta os 45 a 60 anos, público que historicamente ancora a audiência televisiva dos grandes torneios. Não há um formato único que resolva essa equação sem concessões em algum extremo do espectro etário.
A TV Globo, por sua vez, enfrenta o inverso: sua linguagem consolidada e sua infraestrutura técnica de excelência são valorizadas pelos mais velhos, mas percebidas como distantes e excessivamente formais por boa parte dos jovens. Os 5% que indicaram o SporTV — canal pago da própria Globo — e os 2% que mencionaram o Globoplay como plataforma de preferência sugerem que o ecossistema Globo ainda tem penetração digital, embora fragmentada. O Premiere, PPV da emissora, recebeu 2% das intenções, mas não terá direitos de transmissão da Copa 2026 — dado que expõe um problema de percepção pública sobre quem vai transmitir o quê.

Um torneio, duas audiências e as consequências para a política esportiva brasileira
A Copa do Mundo é o evento de maior audiência televisiva do planeta. No Brasil, os jogos da Seleção Brasileira historicamente superam 40 pontos no Ibope em TV aberta — uma concentração de atenção pública que não tem paralelo em nenhum outro produto midiático. A divisão de direitos entre Globo e CazéTV para 2026 representa, pela primeira vez, uma fragmentação institucionalizada dessa audiência. Não se trata apenas de onde as pessoas vão assistir; trata-se de como o Estado e os anunciantes calcularão o impacto público de um evento que, em Copas anteriores, era medido por uma métrica única e centralizada.
A pesquisa Datafolha também registrou 5% de menções à Record e 2% à Band entre as intenções de consumo — emissoras que não possuem os direitos de transmissão da Copa 2026. Esse dado revela um índice significativo de desinformação do público sobre a distribuição dos direitos, o que por si só é uma variável importante: parte da audiência potencial pode simplesmente não encontrar o sinal correto no dia dos jogos. A estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2026, prevista para junho daquele ano, será o primeiro teste real desse novo ecossistema de transmissão — e os números do Datafolha de hoje já indicam que a disputa mais relevante não será em campo, mas nas telas.








