A CBF encerrou 2025 com déficit de R$ 182,5 milhões, resultado aprovado em assembleia pelas 27 federações estaduais na última segunda-feira, 27. O número é ainda mais expressivo quando comparado ao exercício anterior: em 2024, a confederação havia registrado superávit de R$ 107 milhões — uma inversão de quase R$ 290 milhões no saldo em apenas 12 meses.
O que gerou o rombo
A principal causa do déficit está no aumento de 111% nas despesas operacionais, impulsionado sobretudo pelo pagamento de R$ 80 milhões ao Icasa, clube cearense que ganhou na Justiça o processo referente ao não acesso à Série A em 2014 — há mais de dez anos a CBF respondia por essa ação. A quantia representa quase metade do rombo total e ilustra o peso que pendências jurídicas de gestões anteriores carregam no balanço atual.
O diretor financeiro da CBF, Valdecir de Souza, defendeu as despesas como parte de um processo de reorganização estrutural.
"Fez-se necessário gastar para buscar eficiência na nova gestão: resultados futuros, receitas crescentes, para que possamos fazer o que é mais importante, que é investir no futebol. Durante a Assembleia, acho que todos perceberam este ambiente novo, essa nova gestão, a vontade de fazer acontecer, de ter uma CBF com modernidade comparável às grandes confederações, como a FIFA. É o protagonismo da CBF que precisamos retomar", declarou Valdecir de Souza.
O presidente da CBF, Samir Xaud, reforçou a narrativa de que o gasto atual é um investimento com retorno futuro.

"Enfrentamos problemas e assumimos o compromisso de reorganizar finanças, regularizar dívidas trabalhistas e com clubes. Este investimento vai nos trazer frutos", afirmou Xaud na assembleia.
Receita recorde não evitou o déficit
O paradoxo do balanço de 2025 é que a CBF atingiu receita bruta de R$ 1,7 bilhão, incremento de R$ 200 milhões em relação a 2024. Mesmo com o maior faturamento de sua história recente, a explosão nas saídas financeiras consumiu a folga gerada pelo lado das receitas. A análise exclusiva do SportNavo mostra que a proporção entre despesas e receitas da entidade saiu de um patamar controlado para um nível de alerta, com gastos crescendo em ritmo três vezes superior ao das entradas.
Esse desequilíbrio tem reflexo direto na capacidade da confederação de distribuir recursos ao ecossistema do futebol brasileiro. Federações estaduais, clubes formadores e competições de base dependem parcialmente dos repasses da CBF para manutenção de calendários e infraestrutura. Com o caixa comprometido pela quitação de passivos históricos, a tendência é que investimentos em categorias de base e programas de desenvolvimento fiquem represados no curto prazo.
Impacto no futebol de base e nas federações
Para quem acompanha de perto a formação de atletas, como faço há anos cobrindo categorias sub-17 e sub-20, o sinal amarelo financeiro da CBF tem consequências práticas e imediatas. O calendário do Campeonato Brasileiro Sub-20 e das competições organizadas diretamente pela confederação depende de contrapartidas financeiras que podem ser revisadas quando o caixa está pressionado. Em 2024, a CBF distribuiu recursos a 27 federações para custeio de competições regionais jovens — esse volume pode ser revisto ao longo de 2026 caso o déficit não seja revertido.
A análise do SportNavo também aponta que clubes com processos trabalhistas em andamento contra a CBF — situação semelhante à do Icasa — podem acelerar acordos ao perceber que a entidade está em modo de regularização de passivos. Isso cria um risco adicional de novas saídas financeiras não previstas no orçamento aprovado pelas federações.
O que a CBF projeta para recuperar o equilíbrio
A direção da confederação projeta receitas crescentes como principal motor de recuperação, sem detalhar publicamente metas numéricas ou fontes específicas. A receita de R$ 1,7 bilhão em 2025 foi sustentada por contratos de transmissão, patrocínios e direitos comerciais das competições nacionais, incluindo o Brasileirão e a Seleção Brasileira. A manutenção ou ampliação desses contratos será determinante para que o balanço de 2026 registre retorno ao superávit.
A próxima assembleia ordinária das federações, prevista para o primeiro semestre de 2026, deve apresentar o orçamento revisado com base nos compromissos firmados por Samir Xaud. Nesse encontro, as 27 federações terão acesso ao detalhamento dos passivos ainda pendentes e ao cronograma de quitação das dívidas trabalhistas citadas pelo presidente — o que definirá se o déficit de R$ 182,5 milhões foi um custo pontual de transição ou o início de um desequilíbrio estrutural mais profundo.








