O Ministério Público de Milão convocará jogadores de futebol como testemunhas na investigação sobre um esquema de prostituição que levou à prisão de quatro pessoas, reacendendo debates sobre como clubes brasileiros monitoram a vida extra-campo de seus atletas no exterior. A agência "Ma.De Milano" organizava festas e encontros com mulheres para jogadores dos principais clubes da Itália, incluindo uso de óxido nitroso e serviços sexuais em boates de luxo milanesas.
Segundo a investigação italiana, nenhum atleta é alvo direto das autoridades, mas a grande quantidade de jogadores mencionados revela o alcance do esquema. A empresa divulgava seus serviços através do Instagram, direcionando-se a pessoas "dispostas a gastar somas significativas" para participação de mulheres em "atividades de natureza sexual", conforme documentos do MP.
Monitoramento de brasileiros no exterior
Clubes brasileiros com atletas atuando na Itália intensificaram o acompanhamento psicológico e jurídico após o caso. O Palmeiras, que tem Estêvão negociado com o Chelsea, mantém cláusulas contratuais específicas sobre conduta em empréstimos internacionais. Já o Santos, com histórico de negociar jovens para a Europa, desenvolveu protocolo de orientação que inclui workshops sobre legislação local.
Conforme levantamento do SportNavo, pelo menos 15 clubes da Série A possuem atletas cedidos ou vendidos para o futebol italiano atualmente. O Flamengo, que negocia regularmente com clubes europeus, estabeleceu parceria com escritório jurídico em Milão para acompanhar casos envolvendo seus ex-atletas. A medida foi adotada após episódios anteriores de brasileiros em situações controversas no exterior.
O advogado especialista em direito esportivo Ricardo Mello explica que contratos de cessão incluem cláusulas de conduta, mas raramente especificam situações como a investigada na Itália. "A responsabilidade civil e criminal é individual do atleta, mas clubes podem sofrer desgaste de imagem", analisa o especialista.
Histórico de polêmicas no exterior
Casos anteriores evidenciam fragilidades no acompanhamento de brasileiros na Europa. Em 2019, o meia Lucas Paquetá enfrentou investigação por apostas na Premier League, gerando preocupação no Milan, seu clube à época. O Corinthians, que o revelou, não possuía mecanismos de monitoramento pós-transferência.
A Confederação Brasileira de Futebol registra 1.247 jogadores brasileiros atuando profissionalmente no exterior, sendo 89 na Itália. Destes, 34% foram formados em clubes paulistas e 28% em equipes do Rio de Janeiro. A Serie A italiana concentra o maior número, com 31 brasileiros distribuídos entre os 20 clubes da elite.
"O acompanhamento deve ser preventivo, não reativo. Clubes precisam criar estruturas de apoio que vão além do aspecto esportivo", defende o psicólogo esportivo Carlos Henrique, consultor de várias equipes brasileiras.
O Grêmio implementou programa piloto de acompanhamento remoto para atletas cedidos, incluindo reuniões mensais por videoconferência e contato direto com familiares. A iniciativa surgiu após dificuldades de adaptação de jovens promessas em clubes europeus menores.

Lições para o futebol brasileiro
A investigação italiana expõe lacunas na preparação de jovens talentos para realidades culturais distintas. O Internacional, que negocia frequentemente com a Europa, criou módulo específico sobre legislação estrangeira em sua formação de base. O programa aborda desde questões tributárias até normas de conduta social em diferentes países.
Segundo análise do SportNavo, clubes brasileiros investem em média R$ 180 mil anuais em estruturas jurídicas internacionais, valor considerado baixo comparado aos milhões movimentados em transferências. O Athletico-PR destina 0,8% da receita com vendas para acompanhamento pós-transferência, percentual acima da média nacional de 0,3%.
Especialistas recomendam ampliação de parcerias entre clubes brasileiros e escritórios especializados na Europa. A medida permitiria resposta mais ágil a situações controversas e proteção da imagem institucional. O modelo adotado pelo Ajax, que mantém rede de apoio para ex-jogadores, serve como referência para clubes brasileiros com alto volume de negociações internacionais.
O próximo passo na investigação italiana ocorrerá nas próximas semanas, quando o MP convocará jogadores para depoimento. A situação serve como alerta para clubes brasileiros reforçarem cláusulas contratuais e estruturas de acompanhamento de atletas no exterior.

