Quantas seleções carregam um tabu de quatro décadas e ainda assim chegam como leve favoritas ao jogo de abertura? A pergunta, formulada assim, parece paradoxal. Mas é exatamente o que os números dizem sobre o Copa do Mundo desta sexta-feira, no SoFi Stadium, em Los Angeles: o Paraguai acumula oito estreias em Mundiais com apenas uma vitória, porém o modelo estatístico da Fundação Getúlio Vargas simulou o confronto contra os Estados Unidos 100 mil vezes e colocou os guaranis à frente, com 37,9% de chance de triunfo contra 33,6% dos anfitriões.

O tabu existe e é documentado. A única vez que o Paraguai venceu um jogo de abertura em Copa foi em 12 de junho de 1986 — curiosamente, exatos 40 anos antes desta partida —, quando bateu o Iraque por 1 a 0 no México. Nas outras sete participações, o saldo foi quatro empates e três derrotas, incluindo um 7 a 3 sofrido para a França em 1958 que ainda hoje soa como um trauma geracional para quem acompanha o futebol paraguaio. A história, portanto, não é generosa. Mas a história também não bota a bola no chão às 22h (horário de Brasília).

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O que torna o cenário ainda mais carregado de simbolismo é o adversário. A única derrota paraguaia nesta lista que envolve os Estados Unidos foi justamente a estreia absoluta de ambos em Copas, no dia 17 de julho de 1930, no Estádio Parque Central, em Montevidéu. Naquele Grupo 4 da primeira edição do torneio, os americanos venceram por 3 a 0 com três gols de Bert Patenaude — feito que a Fifa só reconheceu oficialmente como o primeiro hat-trick da história dos Mundiais em 2006, 76 anos depois. Quase um século separa aquele jogo deste. E, curiosamente, o placar histórico é o mesmo ponto de partida da conversa.

O que o tabu paraguaio revela sobre ciclos de pressão em estreias

Quem acompanha o futebol europeu há décadas sabe que o peso de uma estreia em torneio de mata-mata — ou de fase de grupos com eliminação direta — é desproporcional ao que o resultado em si representa na tabela. Lembro de ter coberto a Copa de 1998 em Barcelona, quando a Espanha empatou com a Nigéria na abertura e passou o torneio inteiro com a corda no pescoço. O empate valeu um ponto. Psicologicamente, valeu uma derrota. O Paraguai de 2010 entendeu isso: empatou 1 a 1 com a Itália na estreia e ainda chegou às quartas de final, eliminado pela Espanha de Xavi e Iniesta, que naquele ciclo acumulava 102 pontos em 38 jogos pela La Liga — a melhor média da história do futebol espanhol até então.

O histórico paraguaio em estreias é, na verdade, menos catastrófico do que parece à primeira leitura. Dos oito jogos de abertura, quatro terminaram em empate: 2 a 2 com a Suécia em 1950, 0 a 0 com a Bulgária em 1998, 2 a 2 com a África do Sul em 2002 e 1 a 1 com a Itália em 2010. Ou seja, em metade das vezes o Paraguai não perdeu. O problema é que, num torneio em que cada ponto é ouro, empatar na estreia contra adversários de nível similar costuma comprometer a classificação — e nas três edições em que perdeu na abertura (1930, 1958 e 2006), foi eliminado na fase de grupos.

A distância entre uma vitória e uma derrota na estreia paraguaia é, historicamente, a distância entre avançar e ir para casa. Não é exagero comparar essa margem à diferença entre Recife e Manaus em linha reta — 2.700 quilômetros que separam dois mundos completamente distintos dentro do mesmo país. Uma vitória sobre os EUA coloca o Paraguai com os pés na segunda fase. Uma derrota, dado o restante do Grupo D, pode significar eliminação antes mesmo de a Copa ganhar ritmo.

Os EUA de Pochettino e o paradoxo de ser favorito em casa sem convencer

Mauricio Pochettino assumiu a seleção americana com o currículo de quem transformou o Tottenham em candidato à Champions League entre 2016 e 2019 — chegando à final de Madrid em 2019, perdida para o Liverpool de Klopp por 2 a 0. Mas 2026 não tem sido um ano tranquilo para o técnico argentino. Os Estados Unidos perderam três dos quatro amistosos de preparação, enfrentando adversários de alto nível como Bélgica, Portugal, Senegal e Alemanha. A lógica de Pochettino era usar as derrotas como aprendizado. O risco é que o aprendizado chegue tarde.

A escalação mais recente dos americanos, usada contra a Alemanha em 6 de junho, indicava Matt Freese no gol — superando o veterano Matt Turner —, com Tim Ream como capitão da defesa aos 38 anos. Christian Pulisic segue como o nome mais reconhecido do elenco, espalhado por ligas europeias de ponta. O ranking da Fifa coloca os EUA na 16ª posição, 24 postos à frente do Paraguai, que ocupa o 40º lugar. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, a análise do Grupo D já sinalizava que a estreia americana seria o jogo mais equilibrado do grupo — e os números da FGV confirmam essa leitura.

"Pochettino tem histórico positivo recente contra o Paraguai", aponta o relatório da FGV, que registra vitória americana por 2 a 1 em amistoso de novembro de 2025. "Mas o modelo não considera esse resultado como garantia. O padrão geral do Paraguai no ciclo recente pesa mais do que um único amistoso."

O algoritmo da FGV usa inferência bayesiana, atualizando estimativas com base em todos os jogos internacionais desde janeiro de 2023. O resultado mais provável apontado pela simulação é um empate por 1 a 1, com 12,8% de probabilidade — seguido de vitória paraguaia por 1 a 0 (12,5%) e empate por 0 a 0 (11,0%). A vitória americana por 1 a 0 aparece com 11,6%. São números que descrevem um jogo de margens estreitas, onde um erro de posicionamento ou uma bola parada pode decidir.

O Paraguai de Alfaro e a geração que pode encerrar 40 anos sem vencer na estreia

O técnico Gustavo Alfaro conduziu o Paraguai de volta ao Mundial após 16 anos de ausência — as últimas três edições, em 2014, 2018 e 2022, ficaram fora. A campanha nas eliminatórias sul-americanas foi consistente o suficiente para classificar, mas o treinador mostrou cautela extrema na preparação: no amistoso mais recente antes da Copa, 22 jogadores entraram em campo em algum momento da partida, tornando difícil qualquer leitura sobre a escalação titular.

O que o tabu paraguaio revela sobre ciclos de pressão em estreias Como 40 anos d
O que o tabu paraguaio revela sobre ciclos de pressão em estreias Como 40 anos d

O paralelo histórico mais próximo para este Paraguai é, curiosamente, o de 1986 — a única vez em que o tabu foi quebrado. Naquela Copa do México, a seleção guarani estava num grupo com os donos da casa e a Bélgica, venceu o Iraque na estreia por 1 a 0, classificou-se em segundo lugar e só foi eliminada nas oitavas de final pela Inglaterra de Gary Lineker, que marcou três gols. Quarenta anos depois, o contexto é diferente: o adversário na estreia é um dos anfitriões, não um time periférico. Mas a estrutura emocional do desafio é idêntica — vencer para respirar, empatar para sobreviver com dificuldade, perder para torcer por milagre.

"A seleção do Paraguai retorna à Copa do Mundo após ficar de fora das últimas três edições do torneio", registra a cobertura do DAZN News, contextualizando que "ninguém espera que ela lidere o Grupo D" — o que, historicamente, costuma ser o tipo de pressão invertida que libera equipes para jogar sem amarras.

A melhor campanha paraguaia em Copas foi em 2010, quando chegou às quartas de final. Naquele torneio, a equipe do técnico Gerardo Martino somou 7 pontos na fase de grupos — incluindo aquele empate com a Itália na estreia — e só parou diante da Espanha, que acabaria campeã. Se o Paraguai de Alfaro conseguir ao menos repetir o padrão de 2010, os três pontos desta sexta não são condição suficiente para avançar, mas são condição quase necessária.

O jogo desta sexta-feira, portanto, tem camadas que vão muito além dos 90 minutos no SoFi Stadium. Se o Paraguai vencer, encerra um tabu de 40 anos e coloca os Estados Unidos — sede do torneio, 16º no ranking, treinados por um dos técnicos mais experientes da Europa — em situação delicada para as rodadas seguintes. Se os americanos triunfarem, repetem o placar histórico de 1930 e consolidam o favoritismo no grupo. E se o empate por 1 a 1, resultado mais provável segundo a FGV, se confirmar: o que acontece quando Paraguai e EUA se encontrarem novamente em fase eliminatória, caso ambos avancem pelo Grupo D?