O helicóptero decolou por volta da segunda-feira, 8 de junho, sobre Kansas City, no Missouri. A bordo, uma equipe do canal americano KMBC — filiado da ABC — com câmeras apontadas para o gramado da Universidade do Kansas, onde a seleção da Argélia realizava o treino que nenhum jornalista poderia ver. Em minutos, o planejamento mais sigiloso da Copa do Mundo de 2026 estava na tela de qualquer americano com sinal de TV aberta.
O amistoso que a Argélia não queria que ninguém visse
A lógica do sigilo era simples: o amistoso contra a Bolívia, nesta quarta-feira (10), no Children's Mercy Park, seria jogado com a mesma escalação titular prevista para a estreia do Mundial, em 16 de junho, diante da Argentina. Manter a formação em segredo por seis dias era, na visão do técnico Vladimir Petković, um diferencial tático mensurável. Para isso, a Federação Argelina de Futebol (FAF) obteve da Fifa autorização incomum: a Argélia foi a única das 48 seleções da Copa autorizada a disputar um amistoso fora do período oficial de preparação, que encerrou em 9 de junho. Nenhum outro país jogou no dia 10.
O jogo contra a Bolívia aconteceu sem torcida, sem transmissão televisiva e com a imprensa completamente vetada — sequer jornalistas credenciados tiveram acesso ao estádio. A FAF alegou que a decisão partiu dos organizadores locais, que justificaram a medida pela ausência de agentes de segurança, já deslocados para demandas da Copa. A comunidade argelina nos Estados Unidos, segundo o site especializado DZfoot, reagiu com questionamentos à federação, que manteve a posição.
A escalação confirmada pelo vazamento aéreo posicionou Luca Zidane — filho de Zinedine, goleiro recuperado de uma fratura no rosto sofrida em abril pelo Granada na Série B espanhola — entre os titulares. O time completo: Zidane; Abada, Mandi, Belaid, Aït-Nouri; Zerrouki, Bentaleb, Aouar; Mahrez, Gouiri, Amoura. Petković, portanto, saberá que Scaloni terá acesso a essa formação antes do apito inicial no Arrowhead Stadium.
A reação argelina e o peso do sigilo perdido
Fontes próximas à delegação argelina classificaram a filmagem do KMBC como "uma grave violação da privacidade da equipe", segundo o canal argentino TyC Sports. A FAF não emitiu nota oficial. O desconforto, porém, não apagou a confiança declarada publicamente pelos jogadores desde o desembarque em Kansas City.
"Ganharemos de Messi, se Deus quiser. Precisamos fazer uma boa Copa do Mundo e o primeiro jogo contra a Argentina é muito importante", declarou o meia Ibrahim Maza, 20 anos, ao ser abordado por jornalistas no aeroporto.
Maza invocou um precedente que circula nos bastidores da delegação argelina como referência tática: a vitória da Arábia Saudita sobre a Argentina por 2 a 1 na fase de grupos da Copa do Mundo de 2022, no Qatar. O meia reforçou a analogia:
"Eles provocam muito, mas precisamos dar tudo de nós no jogo, atuar com inteligência e ver no que dá. Se Deus quiser, vamos nos sair bem e vencer Messi", completou o jogador.
Riyad Mahrez, ponta-direita com passagens por Leicester e Manchester City e hoje no Al-Ahli, da Arábia Saudita, adotou tom mais cauteloso — embora igualmente determinado. Ao desembarcar, afirmou que o elenco está focado em orgulhar o país, encarando a Argentina "como qualquer outra partida". Mahrez e o lateral esquerdo Aït-Nouri são apontados como os principais nomes desta geração argelina, que retorna a uma Copa do Mundo após duas edições de ausência consecutiva.
O que a escalação revelada indica para o confronto com a Argentina
A formação vazada pelo helicóptero conta a história de uma equipe construída sobre organização defensiva e transições rápidas. Nos dois amistosos de preparação, a Argélia não tomou gol: venceu a Holanda por 1 a 0 — gol de Moussa aos 40 minutos do segundo tempo — e, segundo os dados disponíveis antes do apito desta quarta, mantinha a meta inviolada também diante do Uruguai. Uma seleção que neutraliza holandeses e uruguaios em campo neutro não vai ao Arrowhead Stadium para administrar uma derrota honrosa.
O meio-campo de Zerrouki e Bentaleb sugere um bloco compacto, com Aouar como elo entre as linhas — um esquema que historicamente dificulta a circulação de bola de equipes que dependem de posse para criar. A Argentina de Scaloni constrói exatamente assim. Seria injusto chamar de armadilha o que a Argélia montou — mas é uma armadilha em escala de Copa do Mundo.
O grupo J coloca ainda Jordânia e Áustria no caminho argelino: após a estreia contra a Argentina no dia 16, em Kansas City, a seleção africana enfrenta a Jordânia em 23 de junho, em Santa Clara, e a Áustria em 27 de junho, novamente em Kansas City. A escalação que o helicóptero revelou ao mundo será testada esta noite — e Scaloni, certamente, já a estudou quadro a quadro.








