Todo mundo sabe que a Bélgica foi o melhor time do mundo que nunca ganhou nada. O que pouca gente parou para calcular é o que sobrou depois que o mito foi embora — e o que surgiu no lugar.
Rudi Garcia anunciou os 26 convocados para a Copa do Mundo numa sexta-feira que parecia protocolar. Courtois no gol do Real Madrid. De Bruyne no meio-campo do Napoli. Lukaku na frente, também pelo Napoli. Doku pelo Manchester City. Trossard pelo Arsenal, clube que ainda briga pelo título da Premier League e disputa a final da Champions League nesta temporada. A lista soava familiar demais. Mas a Bélgica de 2026 não é a de 2018 — e fingir que é pode ser o maior erro de quem vai enfrentá-la no Grupo G.
A narrativa da despedida que os números desmentem
A história que circula é simples e cinematográfica: velhos heróis fazendo sua última dança, a geração de ouro se despedindo com dignidade. Bonita. E imprecisa.
A Bélgica que caiu na fase de grupos em 2022, no Catar, era uma seleção em colapso interno. Domenico Tedesco assumiu o cargo e transformou o vestiário num campo minado. Courtois, o melhor goleiro do mundo na visão de muitos especialistas, ficou de fora da Eurocopa por problemas de relacionamento com o técnico. A seleção perdeu para a Eslováquia, caiu para a França nas oitavas e ainda foi rebaixada na Liga das Nações depois de vencer apenas a estreia, contra Israel, e empatar com a Itália. Tedesco foi demitido. Fim.
Aí veio Garcia. O francês assumiu num momento de caos e encontrou uma equipe que precisava de estrutura antes de precisar de talento. No primeiro jogo, derrota por 3 a 1 para a Ucrânia na ida do playoff da Liga das Nações. Na volta, virada por 3 a 0, com Lukaku decisivo. Nas eliminatórias para a Copa, dois tropeços contra a Macedônia do Norte e um empate com o Cazaquistão — mas a vaga veio. E em amistoso recente, goleada de 5 a 2 sobre os Estados Unidos, com Dodi Lukebakio marcando três gols. Isso não é uma seleção em colapso. É uma seleção se recalibrando.
"Queria que De Bruyne tivesse a braçadeira, mas precisava de alguém mais presente no dia a dia do grupo", disse Garcia ao explicar a decisão de passar o capitanato para Youri Tielemans em setembro de 2025.
De Bruyne ainda decide, mas Doku é quem acelera o pulso
Kevin De Bruyne vai para o seu quarto Mundial com 35 anos e 117 jogos pela seleção, 36 gols marcados. O mais lembrado deles foi contra o Brasil, nas quartas de 2018, quando a Bélgica venceu por 2 a 1 e eliminou a seleção verde-amarela. Naquele dia, num estádio de Kazan sufocado pelo calor russo de julho, De Bruyne foi o jogador mais inteligente em campo. Hoje, sem a braçadeira e atuando pelo Napoli — após deixar o Manchester City —, ele ainda carrega o peso tático da equipe, mas divide os holofotes de forma diferente.
Jérémy Doku tem 22 anos e está na convocação como o nome que mais faz a torcida se levantar. Pelo Manchester City nesta temporada 2025/2026, o atacante acumula atuações que combinam velocidade absurda com finalizações precisas. Garcia o posiciona como peça central do ataque dinâmico que a Bélgica quer apresentar no Mundial. Ao lado dele, Amadou Onana, do Aston Villa, representa a musculatura e a inteligência posicional que o meio-campo belga precisava para não depender só da genialidade de De Bruyne.
Transformou.

A convocação tem apenas três jogadores do futebol belga local — o restante atua nas principais ligas europeias. Zeno Debast defende o Sporting CP. Charles De Ketelaere é titular na Atalanta. Alexis Saelemaekers joga pelo AC Milan. A base europeia é sólida, e Garcia soube aproveitá-la sem depender de um único nome para carregar o time.

O Grupo G e o que a Bélgica realmente precisa provar
A Bélgica é cabeça de chave do Grupo G e estreia no dia 15 de junho contra o Irã, em Seattle. O adversário asiático chega à Copa depois de um processo de classificação que envolveu tensões geopolíticas reais — após ataques norte-americanos no país, a participação iraniana ficou em dúvida até a FIFA garantir a presença do Team Melli nos países-sede. O Irã é liderado por Mehdi Taremi e é historicamente difícil de ser batido, com um futebol físico e perigoso na bola aérea.
O Egito, segundo adversário da fase de grupos, carrega Mohamed Salah como figura central. O atacante do Liverpool chega à Copa buscando uma redenção que as edições anteriores não entregaram. A seleção egípcia tem 16 dos seus convocados atuando no futebol local, com estrutura baseada no Al Ahly, e aposta no contra-ataque como arma principal.
A Nova Zelândia completa o grupo como único classificado da Oceania — a Austrália disputa a eliminatória asiática — e chega para sua terceira Copa do Mundo.
"Este grupo é administrável, mas nenhum jogo é fácil neste nível", afirmou Garcia em entrevista publicada pelo SportNavo antes da convocação oficial, ao ser questionado sobre as expectativas para a fase de grupos.
O melhor resultado da Bélgica em Mundiais foi o terceiro lugar em 2018, na Rússia, quando eliminou Brasil e Japão antes de cair para a França na semifinal. Em 2022, no Catar, nem saiu da fase de grupos. A diferença entre os dois ciclos não foi de talento — foi de coesão. Garcia parece ter entendido isso. A Bélgica que vai a Seattle no dia 15 de junho tem menos estrelas absolutas do que a de 2018, mas mais equilíbrio interno do que a de 2022. E Doku, com 22 anos, ainda tem pelo menos mais dois Mundiais pela frente — o que significa que esta não é a última dança de ninguém, mas talvez o início de algo novo.








