— Cara, a Bolívia perdeu pro Iraque. Pro Iraque.
— Eu sei. Mas você lembra do que a gente falava quando o Peru perdeu pro Chile no repechagem de 2018?
— Que era o fim do mundo.
— E não foi. Às vezes o baque mais duro é o que força a renovação que ninguém tinha coragem de fazer.
Essa conversa de bar resume bem o estado de espírito com que a seleção boliviana chegou ao Red Bull Arena, em Harrison, Nova Jersey, neste sábado 6 de junho — pouco mais de três meses após a eliminação no repechagem da Copa do Mundo 2026, numa derrota diante do Iraque que ainda dói, ainda incomoda, ainda não foi completamente digerida pela torcida de La Verde. Mas o futebol não dá trégua, e Oscar Villegas já está olhando para 2030 com uma folha em branco na mão.
A dor do repechagem e o peso de começar de novo
Quem acompanhou os ciclos de eliminatórias sul-americanas nas últimas quatro décadas sabe que o fracasso no repechagem tem uma textura própria — diferente da eliminação nas rodadas classificatórias, ele carrega o peso da quase-chegada, do degrau que faltou. A Colômbia de 1997, que não foi à Copa de 1998 depois de anos de futebol vistoso, levou um ciclo inteiro para se reencontrar. O Uruguai que ficou de fora da Copa de 1970 — sim, antes disso a história é outra — demorou gerações para entender o que precisava mudar. A Bolívia, agora, tem diante de si um problema parecido, mas num contexto diferente: o futebol boliviano nunca teve uma infraestrutura sólida de formação, e o peso da altitude de La Paz, que já foi a maior arma da seleção nos anos 90, virou uma bengala que escondeu limitações técnicas reais.
Desde a queda diante do Iraque, a seleção boliviana não voltou a competir. O balanço dos nove últimos jogos antes deste amistoso é severo: apenas dois triunfos, um empate e seis derrotas — números que, numa tabela de Eliminatórias, significariam rebaixamento à irrelevância. Villegas sabe disso. Por isso o amistoso contra a Escócia não é um jogo qualquer: é o primeiro termômetro de uma nova fase, o primeiro exame público da geração que ele pretende construir para o ciclo que vai até 2030.
Villegas escala um time em transição no Red Bull Arena
A escalação confirmada para o duelo deste sábado revela bastante sobre as intenções do técnico. O goleiro Guillermo Viscarra (camisa 23) foi escolhido no lugar do experiente Carlos Lampe, que inicia no banco — uma sinalização clara de que a hierarquia está sendo revisada. Na defesa, Luis Haquín assume a braçadeira de capitão, ao lado de Efraín Morales, Roberto Fernández e Yomar Rocha. No meio, Ervin Vaca e Robson Tome dividem responsabilidades com Gabriel Villamil. E no ataque, o jovem Miguel Terceros — que joga no Santa Cruz da Bolívia e tem despertado interesse de clubes brasileiros — aparece como a referência ofensiva mais promissora do grupo.
A convocação original era de 28 jogadores, mas a seleção viajou com apenas 23 — cinco ficaram para trás por problemas em trâmites migratórios ou lesões de última hora. Esse tipo de contratempo logístico, que soaria como anedota para seleções com mais estrutura, revela ainda o quanto o futebol boliviano precisa crescer fora de campo. A delegação se hospedou no Renaissance Meadowlands Hotel, em Nova Jersey, onde foi recebida pela comunidade boliviana local — um detalhe que, em matéria do SportNavo, vale registrar como símbolo de uma torcida que vive a ausência da seleção na Copa com uma mistura de frustração e pertencimento.
O que a Escócia revela sobre o nível que a Bolívia quer alcançar
Do outro lado do gramado estará uma seleção escocesa que voltou às Copas do Mundo depois de 28 anos — a última participação havia sido na França de 1998, quando o time de Colin Hendry saiu na fase de grupos sem vencer nenhuma partida. A classificação para 2026 não foi tranquila: em outubro, a Escócia venceu Grécia e Bielorrusia em Hampden Park, mas uma derrota posterior para os gregos recolocou tudo em dúvida. A vaga só foi confirmada no confronto decisivo contra a Dinamarca, num jogo em que ambos precisavam ganhar. Andrew Robertson, que capitaneia o time neste amistoso, viveu esses momentos de perto como um dos líderes do vestiário.
Para o amistoso em Nova Jersey, o técnico escocês escalou Scott McTominay no meio-campo — um dos jogadores mais decisivos do ciclo de classificação — ao lado de Lewis Ferguson e Ryan Christie. Na frente, Lawrence Shankland e Che Adams formam a dupla de ataque. A ausência de Billy Gilmour, cortado por lesão antes mesmo desta data FIFA, pesa sobre o setor criativo, mas não muda o fato de que a Escócia chega ao Red Bull Arena como uma seleção mundialista em processo de afinação final antes de estrear no Grupo C da Copa contra o Haiti.
"La transmisión comenzará desde las 15:45 con la previa, que incluirá análisis, información del equipo y la expectativa de los hinchas en Nueva Jersey", confirmou a Unitel, canal responsável pela transmissão oficial na Bolívia.
Historicamente, Bolívia e Escócia raramente se encontraram num campo de futebol — o historial entre as duas seleções é tão escasso que este confronto em solo norte-americano já representa um capítulo inédito para as gerações atuais de ambos os países. Essa raridade, paradoxalmente, é um dado positivo para Villegas: sem referências recentes, o adversário europeu terá que se preparar para uma equipe que ele mesmo ainda está descobrindo.
O ciclo para 2030 e o que os próximos meses vão revelar
Quem viveu o ciclo de reconstrução do Uruguai após a Copa de 2006 — quando Óscar Tabárez assumiu a seleção e começou a trabalhar com jovens que ninguém conhecia, como Diego Forlán tinha 27 anos e Luis Suárez tinha apenas 19 — entende que reconstruções levam tempo e exigem paciência da imprensa, da federação e da torcida. A Bolívia tem, a seu favor, o fato de que as Eliminatórias para 2030 ainda não começaram, o que dá ao staff técnico uma janela de pelo menos 18 meses para testar combinações sem o peso do resultado imediato.
O segundo amistoso desta data FIFA já está agendado: na quarta-feira, 10 de junho, a Bolívia enfrenta a Argélia — outro teste de nível médio-alto que vai ajudar Villegas a definir quem são os titulares do novo ciclo. A dupla de amistosos foi desenhada exatamente para isso: não para vencer, mas para aprender. Nesse sentido, o técnico tem repetido nos bastidores que o objetivo não é o resultado contra a Escócia ou a Argélia, mas sim identificar quais jogadores têm condições de sustentar um ritmo competitivo fora da altitude de La Paz — o grande gargalo histórico da seleção boliviana em eliminatórias com jogos fora de casa.
"Bolivia toma este compromiso como el punto de partida de un nuevo proceso de reestructuración y recambio generacional con la mira en las Eliminatorias para el Mundial de 2030", descreveu o El Comercio ao detalhar o contexto da convocação de Villegas.
A Copa do Mundo de 2030, que será realizada em múltiplos continentes — incluindo jogos na América do Sul como parte das comemorações do centenário do torneio —, representa uma janela histórica para a Bolívia. Uma seleção sul-americana que joga no próprio continente, mesmo que apenas em jogos simbólicos, tem uma pressão diferente, um simbolismo diferente. Villegas parece entender esse peso. O amistoso de hoje em Nova Jersey, diante de uma Escócia mundialista, é o primeiro passo de uma caminhada longa — mas caminhadas longas sempre começam com um primeiro passo concreto, num campo de grama, com um árbitro e uma bola. Em 10 de junho, quando a Bolívia enfrentar a Argélia, já teremos a segunda peça do quebra-cabeça que vai definir se este novo ciclo tem ou não alicerces sólidos o suficiente para durar.








