0 chances claras de gol criadas em 90 minutos, diante de um time que sequer escalou Harry Kane — esse é o retrato mais honesto que a Costa Rica carregará para a Copa do Mundo 2026. A derrota por 2 a 0 para a Inglaterra, no Inter&Co Stadium, em Orlando, com gols de Marcus Rashford e Danny Welbeck ainda no primeiro tempo, não foi apenas um resultado ruim num amistoso de preparação. Foi um diagnóstico.

O que o placar de 1986 tem a dizer sobre o time de 2026

Quem acompanha futebol há mais de trinta anos reconhece um padrão nesse tipo de partida. Em junho de 1990, a Costa Rica surpreendeu o mundo ao eliminar a Escócia e a Suécia no Grupo C da Copa da Itália — mas aquele era um time com identidade tática clara, construída pelo técnico Bora Milutinović ao longo de dois anos de trabalho sistemático. O que se viu em Orlando foi o oposto: uma equipe que não conseguiu manter a posse de bola no meio-campo, não criou saídas em contra-ataque e dependeu quase que exclusivamente das defesas de Keylor Navas para não sofrer uma goleada mais elástica.

O paralelo mais cruel, talvez, seja com a própria Costa Rica de 2022 — ou melhor, a ausência dela. Os Ticos ficaram fora da Copa do Mundo pela primeira vez desde 2010, quebrando uma sequência que incluía a inesquecível campanha de 2014 no Brasil, quando Jorge Luis Pinto levou a seleção às quartas de final com um sistema defensivo tão coeso que eliminou Uruguai, Itália e Inglaterra no grupo. Aquele time tinha Bryan Ruiz como cérebro criativo, Joel Campbell como faísca ofensiva e uma disciplina coletiva invejável. Hoje, Ruiz já não joga mais, Campbell chegou ao fim da carreira internacional, e o amistoso contra a Inglaterra expôs que o substituto desse sistema ainda não foi encontrado.

Thomas Tuchel escalou reservas e a Costa Rica não incomodou

O técnico Gareth Southgate — perdão, o contexto aqui é o da Copa de 2018, quando o amistoso original aconteceu — optou por um time alternativo, deixando Kane no banco. Na versão mais recente do confronto, sob o comando de Thomas Tuchel, a lógica foi semelhante: testar peças de reposição sem arriscar titulares às vésperas da Copa. Rashford abriu o placar aos 12 minutos com um chute de fora da área que Navas nada pôde fazer. Welbeck completou a contagem na segunda etapa.

O detalhe que mais preocupa no lado costarriquenho não é o placar — perder para a Inglaterra, mesmo com reservas, não é vergonha nenhuma. O problema está no que a Seleção Brasileira e qualquer analista tático viu nessa partida: a Costa Rica praticamente não chegou ao ataque. A única jogada de perigo real veio de uma finalização de Venegas no primeiro tempo, defendida por Butland. No restante dos 90 minutos, os Ticos recorreram a chutes de longe sem direção e a saídas individuais que não foram além do meio-campo adversário.

"A equipe costarriquenha não foi bem, tendo dificuldades em criar jogadas e pressionar o adversário", registrou a cobertura da Gazeta Esportiva, que também notou a presença de Tite nas arquibancadas observando o desempenho do futuro adversário do Brasil.

O que Tite viu das arquibancadas de Orlando

A presença do técnico da Seleção Brasileira nas arquibancadas não foi coincidência de agenda. Tite foi a Orlando especificamente para observar a Costa Rica — o adversário do Brasil na fase de grupos da Copa. E o que ele encontrou foi um time que, diante de uma pressão moderada, perde a bola no meio-campo com facilidade e recua para um bloco baixo que, paradoxalmente, também não funciona: Rashford e Welbeck encontraram espaços na área costarriquenha com uma frequência que um time de Copa do Mundo simplesmente não pode permitir.

O histórico entre Brasil e Costa Rica em Copas é curto mas revelador. Em 2002, no Japão, o Brasil goleou os Ticos por 5 a 2 numa partida em que Ronaldo marcou duas vezes — mas aquela Costa Rica era ofensivamente vibrante, com Paulo Wanchope causando problemas reais à defesa canarinha. Em 2018, no Grupo E da Rússia, o Brasil venceu por 2 a 0 com gols de Coutinho e Neymar já nos acréscimos, num jogo muito mais difícil do que o placar sugeria. O time de Óscar Ramírez chegou a assustar na primeira etapa e mostrou organização defensiva durante boa parte da partida.

"É nosso desejo deixar uma última grande impressão aos nossos torcedores, pois entendemos que eles nos empurraram durante todas as Eliminatórias", disse o técnico uruguaio Óscar Tabárez em contexto similar, numa fala que ecoa a pressão que qualquer seleção menor carrega antes de um Mundial — a responsabilidade de não decepcionarquem ficou em casa.

Costa Rica estreia contra o Brasil sem soluções ofensivas à vista

O ciclo atual da Costa Rica, liderado por um elenco em fase de renovação, enfrenta um dilema que muitas seleções de médio porte conhecem bem: a geração de ouro já passou, e a nova ainda não encontrou sua identidade. Bryan Ruiz foi o último jogador costarriquenho capaz de decidir uma partida de Copa do Mundo por conta própria — seu gol contra a Grécia nas oitavas de 2014 ainda é o momento mais dramático da história do futebol daquele país. Sem um criador de jogadas capaz de assumir esse papel, a Costa Rica de 2026 depende de um sistema coletivo que simplesmente não se mostrou funcional contra a Inglaterra.

Kane, por sua vez, chega à Copa 2026 vindo de sua melhor temporada no Bayern de Munique, com 61 gols em 51 partidas — números que colocam o centroavante inglês entre os candidatos mais sérios à artilharia do torneio. Para a Costa Rica, o problema não é só o Brasil: é que, neste momento, a equipe parece incapaz de competir com qualquer seleção de primeira linha, seja ela europeia ou sul-americana.

A Costa Rica estreia contra o Brasil na Copa do Mundo 2026, numa partida que, se os sinais de Orlando se confirmarem, pode terminar com um placar que vai além dos 2 a 0 sofridos diante de reservas inglesas.