O avião pousou em Boston e o silêncio dentro da delegação francesa durava desde o embarque em Paris. Não era desconforto — era foco. A seleção que chegou aos Estados Unidos carrega um peso que nenhuma equipe sustentou com sucesso desde 1962: a chance de vencer duas Copas do Mundo consecutivas. Brasil fez em 1958 e 1962. Ninguém mais repetiu o feito.
Quando Didier Deschamps assumiu o comando da seleção francesa em julho de 2012, ninguém imaginava que ele ficaria quase 15 anos no cargo e chegaria a uma Copa do Mundo em posição de fazer história dupla: como jogador, ele já foi bicampeão com a França (Copa 1998, Euro 2000). Como técnico, a janela está aberta — e está se fechando. Esta será sua despedida.
Deschamps sai pela porta que ele mesmo construiu
Quase quinze anos no comando deixam marcas visíveis no DNA de uma seleção. A França de 2026 sabe defender com organização por longos períodos, pressionar em bloco quando necessário e explodir em velocidade nos contra-ataques. Olivier Giroud e Antoine Griezmann foram embora. A equipe não sentiu. Isso, por si só, diz muito sobre o trabalho de Deschamps na construção de profundidade no elenco.
O esquema tático provável é um 4-2-3-1 bastante flexível. Mike Maignan no gol. William Saliba e Dayot Upamecano na zaga. Jules Koundé pela direita e Theo Hernandez com liberdade para avançar pela esquerda. No meio, Aurélien Tchouaméni como primeiro volante, com Adrien Rabiot ou Manu Koné ao lado. E Michael Olise atrás de Kylian Mbappé.
O alerta veio de um lugar inesperado: a derrota para a Costa do Marfim, que encerrou uma invencibilidade de um ano da seleção e a tirou da liderança do ranking FIFA. A imprensa francesa começou a publicar relatos de companheiros pedindo que Mbappé ajudasse mais na marcação. Deschamps não confirmou nem desmentiu publicamente. Mas o recado estava dado.
"A equipe incorporou novos talentos e não sentiu as saídas de referências que marcaram a última década", segundo análise técnica publicada pelo ge.globo.com sobre a preparação francesa para o Mundial.
Mbappé na final de 2022 já foi aviso suficiente
Três gols numa final de Copa do Mundo. Mbappé fez isso em Lusail, no Qatar, em dezembro de 2022 — e ainda assim a França perdeu nos pênaltis para a Argentina. Aquele número não é detalhe: é a dimensão do que ele carrega. Nenhum jogador havia marcado três vezes numa decisão desde Geoff Hurst, em 1966.
A proposta tática de Deschamps para 2026 é dar ainda mais liberdade ao camisa 10. Menos obrigações defensivas, mais espaço para criar e finalizar. O risco está nos flancos: quando Mbappé não recompõe, laterais e zagueiros são obrigados a cobrir espaços que não são deles. A derrota para a Costa do Marfim foi o exemplo mais recente dessa vulnerabilidade.
O histórico, porém, fala mais alto do que qualquer alerta tático. Nas últimas duas Copas, a França chegou à final. Em 2018, campeã. Em 2022, vice. Nenhuma outra seleção tem essa consistência no período. E a geração atual é, segundo análises técnicas, mais talentosa do que aquela que levantou a taça na Rússia.
"A França perde essa Copa se estiver num dia ruim ou se os egos não colaborarem", alertou análise publicada pelo ge.globo.com, lembrando o colapso da seleção na Copa de 2010, documentado pela Netflix.
Jogos-treino contra a MLS e a estratégia que já funcionou duas vezes
O detalhe que poucos perceberam está no calendário da delegação francesa. Segundo o jornal L'Équipe, a comissão técnica programou jogos-treino nos dias 17 e 23 de junho, nos intervalos entre as partidas da fase de grupos. Os primeiros adversários são times de base do New England Revolution, da Major League Soccer.
Não é improviso. A mesma metodologia foi usada nas Copas de 2018 e 2022, e também na Eurocopa de 2024. A ideia é simples: jogadores que não entram nos jogos oficiais perdem ritmo competitivo rapidamente. Com os jogos-treino, a intensidade é mantida — e Deschamps tem mais opções reais disponíveis quando precisa mudar o jogo no segundo tempo.
A Federação Francesa de Futebol ainda busca parceiros adicionais na região para diversificar os trabalhos ao longo da competição. A França estreia no torneio no dia 16 de junho, contra o Senegal, pelo Grupo I. Iraque e Noruega completam a chave — e os noruegueses, com Erling Haaland no comando do ataque, são o adversário que mais preocupa os analistas europeus nessa fase inicial.
Se os jogos-treino funcionarem como nas edições anteriores, Deschamps entregará para seu sucessor não apenas um título — mas uma seleção que chega ao mata-mata com todo o elenco em alta performance. A estreia é dia 16. O tabu de 64 anos começa a ser testado em menos de uma semana.








