Falhou. Não o árbitro, não o visto, não a documentação. Falhou o sistema que deveria garantir que a Copa do Mundo fosse, de fato, um evento global. Omar Artan, primeiro árbitro da Somália a ser selecionado para um Mundial, chegou aos Estados Unidos com todos os formulários em ordem, foi conduzido a uma sala de interrogatório e lá permaneceu por 11 horas. Ao final, recebeu papéis com a notificação de remoção acelerada, baseada na seção 8235 da Lei de Imigração e Nacionalidade norte-americana. O motivo declarado pela Casa Branca foi "associação com supostos membros de organizações terroristas". Artan negou qualquer vínculo. Eleito o melhor árbitro da Confederação Africana de Futebol em 2025, ele voltou a Mogadíscio como herói involuntário de uma história que ninguém queria contar.

O que Artan disse e o que Washington respondeu

A versão do árbitro somali foi dada ao New York Times com uma clareza desconcertante.

"Estou muito, muito desapontado. Sou apenas um árbitro tentando viver seu sonho, o maior sonho da minha vida, vir para a Copa do Mundo. Acho que eles têm um problema com meu país", disse Artan ao jornal americano.
A resposta do governo Trump foi igualmente direta, embora em sentido oposto: "O governo do presidente Trump não permitirá que qualquer ameaça à segurança entre em nosso país — ponto final", afirmou a Casa Branca em comunicado. Entre as duas declarações, há um abismo que a Fifa não conseguiu atravessar. A entidade confirmou que Artan não apitará na competição, encerrando o sonho histórico sem qualquer recurso formal.

O que Artan disse e o que Washington respondeu Como a fronteira americana barrou
O que Artan disse e o que Washington respondeu Como a fronteira americana barrou

Infantino entre Trump e o mundo

Gianni Infantino tentou, pelo menos nos discursos, equilibrar lealdade política e credibilidade institucional. Em coletiva de imprensa marcada por perguntas previamente combinadas com alguns veículos sul-americanos — conforme apurado e registrado pelo SportNavo —, o presidente da Fifa dedicou os primeiros 40 minutos a pedir "união" em torno do torneio. Sobre o caso Artan, foi lacônico.

"Acreditem em mim, ou não acreditem, mas sempre tentamos encontrar uma solução", afirmou Infantino, sem detalhar quais gestões concretas foram feitas junto ao governo americano.
Minutos depois, o mesmo Infantino exaltou sua relação com Donald Trump: "Tenho uma grande relação com o presidente Trump, fico feliz por isso. Não seria possível organizar uma Copa do Mundo sem o envolvimento dele." A contradição ficou suspensa no ar da sala de imprensa. Um jornalista da BBC questionou se "a Fifa perdeu o controle sobre seu próprio torneio". A pergunta ficou sem resposta satisfatória.

O caso de Artan não foi isolado. Jogadores e membros de delegações do Senegal e do Uzbequistão foram submetidos a revistas consideradas vexaminosas nas fronteiras americanas. Um atleta iraquiano foi retido por sete horas em interrogatório. A seleção do Irã, por sua vez, enfrentou restrições que por semanas colocaram em dúvida sua capacidade de treinar em solo norte-americano — Infantino chegou a dizer, em tom grandiloquente, que "se precisasse trazê-los de carro de Teerã até aqui, eu traria", sem esclarecer se os iranianos só poderão entrar nos EUA nos dias dos próprios jogos.

Uma Copa blindada por dentro e por fora

A atmosfera de controle rígido não se limita às fronteiras aéreas. Em Kansas City, uma das cidades-sede do torneio, o município aprovou a construção de uma unidade de detenção com capacidade para 100 presos, com orçamento que chegou ao equivalente a R$ 133 milhões após aportes adicionais. O argumento usado pelas autoridades locais durante o processo de aprovação foi explícito: o "aumento esperado de visitantes para a próxima Copa do Mundo pode pressionar ainda mais os recursos limitados de reabilitação e detenção da cidade". A estrutura ficou conhecida como "Prisão da Copa do Mundo" — e nem isso funcionou conforme planejado: a inauguração prevista para 1º de junho não aconteceu, com atrasos atribuídos a problemas de fornecimento de materiais e contratação de pessoal.

O rigor regulatório da Fifa, por sua vez, alcança até os uniformes. O Haiti, adversário do Brasil na fase de grupos, foi obrigado a alterar sua camisa às vésperas da estreia — marcada para o dia 13 de junho, no Gillette Stadium, em Foxborough, Massachusetts, contra a Escócia. A fornecedora colombiana Saeta havia incluído uma imagem inspirada na Batalha de Vertières, de 1803, decisiva para a independência haitiana. A Fifa classificou o elemento como potencialmente político e exigiu modificações. A entidade que não conseguiu garantir a entrada de um árbitro africano nos EUA mostrou-se capaz de agir com rapidez quando o alvo era uma costura numa camisa.

O que a Fifa poderia fazer de diferente

Especialistas em direito internacional esportivo apontam ao menos três caminhos que a entidade poderia adotar para evitar novos episódios como o de Artan:

  • Negociar, antes da escolha dos países-sede, acordos de livre trânsito para árbitros, delegações e oficiais credenciados — com garantias diplomáticas formais, não apenas verbais;
  • Incluir cláusulas de rescisão de contrato de sede caso o país anfitrião impeça a entrada de participantes credenciados pela própria Fifa;
  • Criar um mecanismo de recurso rápido — com prazo máximo de 48 horas — para casos de retenção de árbitros ou jogadores na fronteira, com representação jurídica da entidade.

Nenhuma dessas medidas está em vigor. E a Copa do Mundo já começou. Artan não estará em nenhum dos 104 jogos do torneio. O árbitro que deveria escrever história foi devolvido antes de pisar no gramado — e a Fifa, por ora, segue tentando encontrar uma solução que chegou tarde demais para Omar Artan.