Mudou. Não o placar de um jogo, nem a escalação de uma equipe — mudou, possivelmente, a arquitetura sobre a qual o Brasil construiu décadas de hegemonia no futebol de base mundial. A Fifa estuda a fusão dos Mundiais Sub-17 e Sub-20 em um único torneio para jogadores de até 18 ou 19 anos, com 48 seleções participantes — o dobro do contingente atual de 24 equipes em cada competição. A informação foi revelada pela agência Associated Press após reuniões conduzidas pelo presidente da entidade, Gianni Infantino, com representantes de associações nacionais na Nigéria e na Mauritânia.

A proposta não é cosmética. Ela reorganiza o calendário, redefine janelas de desenvolvimento etário e, inevitavelmente, força confederações como a CBF a repensar a lógica de suas categorias de base — um sistema que, apesar de produzir talentos com regularidade invejável, opera sob pressões crescentes de mercado, especialmente com a antecipação das transferências para a Europa.

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O que Infantino discutiu nos bastidores africanos

Nas reuniões realizadas nesta semana em solo africano, Infantino apresentou um modelo em que o novo torneio Sub-18/19 poderia ser disputado anualmente — rompendo com o ciclo bienal em anos ímpares que rege atualmente os Mundiais Sub-17 e Sub-20. A lógica declarada é dupla: ampliar o alcance geográfico da competição e criar um laboratório de teste para o formato de 48 seleções que estreia na Copa do Mundo adulta de 2026. As exigências de infraestrutura seriam, segundo a proposta, menores do que as da Copa do Mundo principal, tornando a candidatura de países emergentes mais viável.

Para o futebol feminino, a mudança também está na mesa. Os torneios jovens femininos poderiam ser unificados com 24 seleções participantes, ante as 16 atuais — um crescimento de 50% que, na prática, abre espaço para nações que hoje mal chegam às eliminatórias.

"A proposta está em discussão e pode ser um teste para o formato de 48 equipes", indicou a Associated Press ao reportar as conversas conduzidas por Infantino com dirigentes das associações nacionais.

A Inglaterra chega a esse debate como a única seleção a deter simultaneamente os títulos Sub-17 e Sub-20 — venceu o Sub-17 em outubro passado na Índia, derrotando a Espanha por 5 a 2 na final, e conquistou o Sub-20 em junho do ano anterior, superando a Venezuela por 1 a 0. Esse duplo domínio inglês, construído sobre um modelo de academias privadas com investimento bilionário, é o espelho incômodo que a proposta coloca diante do modelo brasileiro.

O Brasil entre a tradição e a janela etária que some

O Brasil acumulou ao longo das últimas quatro décadas uma das trajetórias mais consistentes em Mundiais de base: são 11 títulos entre Sub-17 e Sub-20 combinados, com gerações que produziram jogadores como Ronaldo, Ronaldinho, Neymar e Vinicius Jr. — todos moldados precisamente nessas competições. A questão que a nova proposta coloca com precisão cirúrgica é: o que acontece quando a janela de desenvolvimento se comprime em uma única faixa etária?

O Sub-17 e o Sub-20 operam, estruturalmente, em lógicas distintas. O primeiro identifica talentos em estado bruto, ainda em formação física e tática; o segundo avalia jogadores já próximos da transição para o futebol profissional. Fundir essas duas realidades em uma competição Sub-18/19 não é apenas uma questão de nomenclatura — é uma decisão que afeta o ritmo de maturação dos atletas e, consequentemente, o planejamento das divisões de base dos clubes brasileiros.

Clubes como Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro investiram nos últimos anos em centros de treinamento que operam com categorias etárias bem delimitadas. O Flamengo, por exemplo, tem no Ninho do Urubu uma estrutura avaliada em mais de R$ 40 milhões, onde Sub-15, Sub-17 e Sub-20 seguem trilhas de desenvolvimento distintas. A compressão etária proposta pela Fifa pode forçar uma revisão desses modelos — e não necessariamente para melhor.

A contabilidade por trás da reforma etária

Há uma dimensão econômica que não pode ser ignorada. A ampliação para 48 seleções em um torneio anual significa mais jogos, mais direitos de transmissão, mais patrocinadores e, consequentemente, mais receita para a Fifa. O modelo atual dos Mundiais de base movimenta cifras consideravelmente menores do que a Copa do Mundo adulta — que em 2022 gerou receitas superiores a US$ 7,5 bilhões para a entidade. Não há tragédia nisso: há contabilidade.

O problema é que a lógica comercial e a lógica pedagógica raramente coincidem no esporte de alto rendimento. Pesquisadores da área de ciências do esporte, como os vinculados ao Instituto de Ciências do Esporte da USP, já documentaram que a antecipação de competições de alto nível em idades intermediárias pode favorecer o chamado burnout precoce e prejudicar o desenvolvimento técnico de jogadores que amadurecem mais lentamente — um perfil historicamente comum no futebol brasileiro.

"O Brasil tem uma cultura de paciência com o talento. Nosso jogador muitas vezes explode mais tarde", como costumam apontar formadores de categorias de base ouvidos em relatórios da CBF sobre o calendário competitivo nacional.

A frequência anual do torneio proposto também comprime o ciclo de planejamento das seleções de base. Hoje, com competições bienais, a CBF tem tempo para construir uma geração, identificar lideranças táticas e preparar um projeto coletivo. Com edições anuais, o risco é transformar o torneio em uma vitrine de talentos individuais — o que, ironicamente, acelera ainda mais a fila de olheiros europeus nos centros de treinamento brasileiros.

A proposta ainda será debatida formalmente nas instâncias da Fifa antes de qualquer decisão. O Congresso da entidade e o Conselho da Fifa precisam aprovar mudanças dessa magnitude, e há resistência de confederações que já estruturaram seus calendários de base em torno do formato atual. A CBF, que nos últimos dois anos vem tentando reorganizar o calendário doméstico das categorias de base em diálogo com os clubes, terá que se posicionar sobre uma reforma que chega de cima para baixo — e que pode alterar o terreno sobre o qual o Brasil formou gerações.

Se a proposta avançar e o torneio Sub-18/19 com 48 seleções for aprovado para entrar em vigor ainda nesta década, a pergunta que fica para os dirigentes da CBF e dos clubes brasileiros é objetiva: o Brasil está disposto a adaptar seu modelo de formação ao calendário da Fifa, ou vai insistir em uma lógica pedagógica própria mesmo correndo o risco de chegar às competições sem o mesmo preparo coletivo que sempre diferenciou suas seleções de base?