Não foi a CazéTV que tomou a Copa da Globo. A Globo entregou a Copa por conta própria. Em novembro de 2022, poucas semanas antes do torneio no Catar, a emissora renovou seu contrato com a FIFA e inseriu, voluntariamente, uma cláusula inédita: abriu mão da exclusividade de exibição em todas as plataformas — TV aberta, fechada e digital. O motivo foi financeiro e direto: manter o monopólio absoluto custava cerca de US$ 90 milhões anuais, valor que se tornou insustentável diante da disparada do dólar e da recessão publicitária que atingiu as mídias tradicionais após a pandemia. A pergunta, então, não é por que a CazéTV cresceu. A pergunta é o que a Globo deixou de pagar para que isso fosse possível.

A negociação que partiu o mercado em fatias

A brecha aberta pela Globo foi ocupada com velocidade e método. A agência LiveMode, em parceria com o YouTube, garantiu à Copa do Mundo de 2026 um novo dono digital: a CazéTV, que fechou os direitos de exibição de todos os 104 jogos do torneio — 40 a mais do que as 64 partidas disputadas no Qatar. A ampliação do formato, com a entrada de 48 seleções em vez das tradicionais 32, foi um fator decisivo para tornar inviável à Globo encaixar o volume total na grade. Cobrir 104 jogos em um único mês significaria suspender novelas das 18h, das 19h e das 21h, telejornais locais e atrações fixas — destruindo fontes de receita consolidadas que nenhum cheque da Copa compensaria integralmente.

A Globo, então, garantiu 55 partidas — as de maior audiência esperada, incluindo os jogos do Brasil, os clássicos entre potências e toda a fase eliminatória final. Esse recorte preserva o que a emissora classifica como "nobre e altamente rentável", enquanto transfere ao mercado digital o custo logístico e financeiro dos jogos de menor apelo imediato. Segundo registrado por SportNavo ao longo da cobertura pré-Copa, a emissora também aumentou sua receita com a venda de cotas publicitárias para o período, compensando parcialmente a redução do portfólio de partidas.

Do lado da LiveMode, a estratégia foi diferente — e reveladora. Em vez de secar o conteúdo para maximizar o valor da exclusividade digital, a empresa optou por espalhar o sinal da CazéTV como uma rede de distribuição. A Amazon comprou da LiveMode o direito de exibir o conteúdo da CazéTV no Prime Video sem custo adicional para assinantes. Em seguida, a LiveMode firmou acordo com a Disney, dona da ESPN, para espelhar o sinal da CazéTV dentro do Disney+. Essa colaboração não se limita à Copa de 2026: o acordo cobre também a Copa do Mundo Feminina de 2027 e os Jogos Olímpicos de 2028, os três eventos mais caros do calendário esportivo global.

O modelo que tritura a lógica da exclusividade

A operação da LiveMode representa uma inversão do modelo que dominou o mercado de direitos esportivos por décadas. Historicamente, o valor de uma transmissão era proporcional à sua exclusividade: quem pagava mais levava tudo, e o investimento era recuperado justamente pelo monopólio de audiência. A CazéTV e seus parceiros funcionam de forma oposta — o conteúdo é distribuído em múltiplas plataformas simultaneamente, e a receita vem da escala publicitária, não do bloqueio à concorrência.

Para a Copa de 2026, a CazéTV fechou contratos com 11 empresas de grande porte em seus respectivos segmentos como patrocinadoras do canal durante o torneio. Esse modelo já havia sido testado em competições menores, mas a Copa do Mundo é o primeiro stress test em escala máxima. A lógica, como descreveu o Estadão em análise sobre o tema, é que "a dupla LiveMode e Google poderia resolver o negócio sozinha e secar o conteúdo do resto do mercado", mas há uma aposta deliberada em alcance: quanto mais telas exibem o sinal, maior a audiência total e maior o argumento para marcas investirem em publicidade.

"A Amazon não é dona de nenhum direito com exclusividade, exceto um jogo do Brasileirão por rodada, mas passa de tudo", como a própria plataforma tem se posicionado publicamente ao descrever sua estratégia de direitos esportivos no Brasil.

A parceria com a Disney também funciona na direção contrária. A ESPN comprou os direitos da Premier League com exclusividade para América do Sul e Caribe até a temporada 2027/2028. A CazéTV anunciou que também vai transmitir a competição inglesa, por meio de um acordo de sublicenciamento com a Disney. A mesma lógica que a LiveMode aplicou à Copa está sendo replicada para o futebol de clubes europeu — o modelo não é um experimento isolado, é uma filosofia de distribuição.

O impacto real para o torcedor e para o mercado publicitário

Para o torcedor brasileiro, o efeito imediato é positivo em termos de acesso. Os 104 jogos da Copa estarão disponíveis gratuitamente no YouTube pela CazéTV, sem necessidade de assinatura. Quem já assina Amazon Prime ou Disney+ terá o mesmo conteúdo disponível dentro de suas plataformas habituais, sem custo extra. A Globo mantém sua programação em TV aberta para os 55 jogos selecionados, garantindo alcance para os domicílios sem acesso à internet banda larga — ainda uma fatia relevante da população brasileira.

O impacto publicitário, contudo, é onde a transformação é mais estrutural. O mercado de anúncios em TV aberta durante a Copa sempre foi um dos mais cobiçados do calendário comercial brasileiro. Com a fragmentação dos direitos, as marcas agora precisam decidir entre investir na Globo — com maior alcance em faixas etárias mais velhas e regiões com menor penetração digital — ou na CazéTV e suas plataformas parceiras, com audiência concentrada entre os 18 e 35 anos e métricas digitais mais granulares. Não há mais uma única vitrine. Há cinco, com públicos parcialmente sobrepostos e precificações distintas.

"Pelo menos no Brasil. Pelo menos agora", escreveu o Estadão ao descrever como a LiveMode parece ter "triturado" o conceito de exclusividade no mercado de direitos esportivos — uma ressalva temporal que, dado o alcance dos contratos já assinados até 2028, soa cada vez menos provisória.

A transformação que se vê na Copa de 2026 é, na verdade, como um rio que muda de leito lentamente — sem barulho de cachoeira, mas de forma irreversível. O novo curso já está traçado: os acordos entre LiveMode, Amazon e Disney cobrem eventos até 2028, e a lógica de sublicenciamento da Premier League sugere que o mesmo modelo será aplicado ao futebol de clubes europeu com regularidade crescente. A Globo, com seus 55 jogos e sua grade protegida, não perdeu a Copa — mas perdeu a hegemonia que definia o que era, no Brasil, assistir a um evento esportivo de massa. Se a FIFA, ao renovar os contratos para a Copa de 2030, decidir aprofundar esse modelo de distribuição múltipla, qual será o espaço real que restará para as emissoras tradicionais nas negociações?