Confesso: eu errei sobre a seleção dos Estados Unidos quando comecei a acompanhar futebol de perto. Achei durante anos que era uma equipe genérica, sem identidade, montada por conveniência geográfica. Hoje, olhando o elenco que estreia nesta quinta-feira (12) contra o Copa do Mundo 2026 diante do Paraguai, no SoFi Stadium em Los Angeles, preciso admitir que errei feio — e que a história por trás desse grupo é muito mais rica do que eu imaginava.

O elenco americano é, talvez, o mais diverso da Copa em termos de origens. Há jogadores nascidos fora dos Estados Unidos, filhos de imigrantes de primeira geração vindos de países como Gana, Jamaica, Portugal e Bósnia, e atletas que poderiam, por critérios de elegibilidade da FIFA, ter optado por defender outras bandeiras. Essa pluralidade não é acidente — é o retrato em chuteiras de um país construído por ondas migratórias.

OS QUARENTÕES DO MUNDIAL | Troca de Passes | Mundial 2026 | sportv

O mapa de origens que Pochettino herdou

Mauricio Pochettino assumiu a seleção americana em 2023 e encontrou um plantel com uma característica incomum no futebol internacional: a heterogeneidade cultural é tão grande que o vestiário funciona quase como uma miniatura da própria sociedade americana. Há jogadores que cresceram falando espanhol em casa, outros que aprenderam inglês como segunda língua, e alguns que passaram a infância entre dois continentes.

Do ponto de vista tático e de dados, esse elenco apresenta métricas interessantes. Veja o que os números da fase de qualificação mostram:

  • xG (expected goals): os EUA acumularam 1,82 xG por jogo na Concacaf — acima da média da confederação, que ficou em 1,34. Isso significa que a equipe cria chances de qualidade, não apenas volume de finalizações.
  • Progressive passes: a seleção americana registrou média de 41 passes progressivos por partida, número comparável a seleções europeias de nível médio-alto. Passes progressivos são aqueles que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário — indicam uma equipe que joga para frente com propósito.
  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva): com índice de 8,3, os EUA pressionam com intensidade razoável. Para comparar: equipes de alta pressão como Alemanha e Espanha costumam operar abaixo de 7,0. Há espaço para crescer, mas a base está lá.

Esses números ganham outro significado quando você sabe quem os produz: jogadores formados em academias europeias, muitos deles filhos de migrantes que cruzaram fronteiras para dar oportunidades melhores aos filhos.

Filhos de imigrantes que poderiam estar em outra seleção

A lista de jogadores americanos com dupla elegibilidade é longa. Weston McKennie, criado no Texas mas filho de militar que viveu na Alemanha, poderia ter optado pela seleção alemã. Yunus Musah nasceu em Nova York, cresceu em Itália e Inglaterra, e chegou a ser cortejado pela seleção inglesa e pela ganesa antes de optar pelos EUA em 2021. Gio Reyna, filho do ex-jogador Claudio Reyna e da ex-jogadora Danielle Egan, tem raízes americanas mas passou anos formado no Borussia Dortmund.

Cada uma dessas escolhas foi uma decisão consciente — e, muitas vezes, emocional. A história de Musah é particularmente reveladora: nascido em Nova York, criado na Europa, com passaporte americano e ganês, ele escolheu os EUA porque foi lá que seus pais construíram a vida antes de emigrar para o exterior. A identidade americana, para ele, não é geográfica. É familiar.

"Quando um jogador com raízes em três continentes escolhe uma bandeira, ele não está apenas escolhendo um passaporte — está dizendo algo sobre onde sente que pertence. E isso muda a forma como ele joga, como ele defende aquela camisa." — comentarista esportivo especializado em futebol americano, durante análise pré-Copa

Do ponto de vista de xA (expected assists) — métrica que mede a qualidade das chances criadas por um jogador, independente de o companheiro converter —, Musah foi um dos mais produtivos da equipe na fase de qualificação, com 0,21 xA por 90 minutos. Para contexto: esse número o colocaria entre os dez melhores meias da Premier League em criação de oportunidades na temporada 2025/2026.

O que está em jogo contra o Paraguai e nas semanas seguintes

A estreia em Los Angeles tem peso duplo. Primeiro, o óbvio: jogar em casa, diante de uma torcida que mistura americanos de todas as origens com uma comunidade latina enorme — o que transforma o SoFi Stadium num caldeirão culturalmente ambíguo, onde parte da arquibancada vai torcer para o Paraguai mesmo estando em solo americano. Segundo, o simbólico: vencer na abertura consolida a narrativa de que os EUA são anfitriões competitivos, não apenas organizadores.

O Paraguai, por sua vez, chega à Copa 16 anos depois de sua última participação (África do Sul, 2010) e apresenta uma proposta tática de bloco baixo com transições rápidas. O PPDA paraguaio na qualificação ficou em 11,7 — muito acima dos EUA —, o que indica uma equipe que prefere defender e explorar os espaços. Exatamente o tipo de adversário que testa a capacidade americana de criar xG contra defesas organizadas.

Nas semanas seguintes, os EUA ainda enfrentam dois adversários do grupo antes das oitavas. A diversidade do elenco, que à primeira vista pode parecer apenas um dado sociológico interessante, tem implicação tática real: jogadores formados em diferentes escolas de futebol — alemã, italiana, inglesa, espanhola — trazem repertórios distintos que Pochettino pode acionar dependendo do adversário. É uma riqueza que poucos técnicos têm à disposição.

A bola rola nesta quinta-feira (12) às 22h (horário de Brasília), com transmissão ao vivo. Se os EUA vencerem, o grupo inteiro fica de olho nos números de xG e nas redes de passe — porque essa seleção, construída por filhos de imigrantes de quatro continentes, pode ser a surpresa mais bem fundamentada estatisticamente desta Copa do Mundo.