Quando o quarto pênalti italiano bateu na trave em Sarajevo, o roteiro já estava escrito: a seleção mais titulada da Europa continental voltava para casa sem passagem para a Copa do Mundo de 2026. O placar de 1 a 1 no tempo normal, seguido da derrota por 4 a 1 nas penalidades máximas diante da Bósnia e Herzegovina, sacramentou o que nenhum torcedor da Azzurra queria admitir. A Itália ficará fora do Mundial pela terceira edição consecutiva — um recorde negativo sem precedentes na história do torneio.
A marca que nenhuma campeã mundial carregava antes
Tetracampeã mundial com títulos em 1934, 1938, 1982 e 2006, a Itália acumulou ao longo do século XX uma das mais consistentes presenças em Copas do Mundo. O colapso, porém, começou cedo: em 2014, no Brasil, a Azzurra caiu na fase de grupos com apenas três pontos em nove disputados, vencendo a Inglaterra, mas cedendo a Costa Rica e Uruguai. A partir daí, a ausência virou hábito. A eliminação para a Suécia nas repescagens de 2018 e o fiasco diante de Portugal em 2022 já tinham exposto uma crise estrutural. Agora, a derrota para a Bósnia confirma o que os dados já sugeriam: a Itália é a primeira seleção campeã do mundo a ficar fora de três Copas seguidas na história do torneio.
Para contextualizar a dimensão do fracasso, basta lembrar que a Itália disputou duas finais de Copa fora do período de títulos — em 1970, quando perdeu por 4 a 1 para o Brasil no México, e em 1994, quando caiu nos pênaltis por 3 a 2 para a mesma seleção brasileira após empate por 0 a 0 no tempo normal. Uma seleção com esse histórico, campeã da Eurocopa de 2020, está hoje na 12ª posição do ranking FIFA — e olhando para o torneio de fora pela terceira vez.
A analogia mais precisa para o que acontece com o futebol italiano talvez venha da música: é como uma orquestra sinfônica de prestígio centenário que, por três temporadas seguidas, não consegue preencher as cadeiras do palco principal. Os músicos existem, o repertório existe, mas a afinação coletiva simplesmente não acontece quando mais importa.
O fator Irã e o impasse político que pode mudar tudo
A menos de dois meses do início do torneio, uma variável externa mantém acesa uma centelha de esperança italiana. O Irã, classificado pelas eliminatórias asiáticas, está alocado no Grupo G ao lado de Bélgica, Egito e Nova Zelândia — com partidas programadas para cidades norte-americanas. E aí mora o problema.
As tensões políticas entre Teerã e Washington criaram um impasse concreto. O ministro dos Esportes iraniano, Ahmad Donyamali, chegou a declarar publicamente que o país poderia não participar do Mundial. A proposta intermediária — transferir os jogos do Grupo G para México ou Canadá, também sedes do torneio — foi apresentada à FIFA, mas a entidade não aprovou a mudança. Por ora, o Irã segue oficialmente inscrito na competição. A situação, contudo, permanece em aberto.
"A possibilidade de transferir os jogos para México ou Canadá foi sugerida à FIFA, mas a entidade não aprovou a proposta", informou a agência RMC Sport, que também apurou os bastidores das discussões sobre um possível playoff extraordinário.
A indefinição tem uma data-limite implícita: o torneio começa em junho de 2026, e qualquer mudança de elenco exige tempo para logística, inscrição e preparação. Cada semana sem uma resolução oficial reduz ainda mais a margem para qualquer cenário alternativo.
O playoff improvável que colocaria a Itália de volta no mapa
Se o Irã formalizasse sua saída, a FIFA precisaria definir um substituto — e é aqui que o nome da Itália reaparece. De acordo com informações da agência RMC Sport, a entidade discute internamente a possibilidade de organizar uma repescagem intercontinental extraordinária, com dois representantes da Europa e dois da Ásia. O critério de seleção seria o ranking FIFA vigente.

Nesse cenário hipotético, a Itália, 12ª no ranking, seria candidata europeia ao lado da Dinamarca. Pelos asiáticos, Emirados Árabes Unidos e Omã figurariam como postulantes. O vencedor do playoff herdaria a vaga iraniana no Grupo G, enfrentando Bélgica, Egito e Nova Zelândia. O caminho é longo, incerto e depende de uma sequência de decisões políticas e institucionais que ainda não ocorreram.
"A situação segue indefinida", resumiu a RMC Sport ao detalhar que nenhuma mudança oficial foi anunciada pela FIFA até o momento.
Para que a Itália chegue à Copa por essa rota, precisaria que: o Irã confirmasse sua desistência oficialmente; a FIFA aprovasse o formato do playoff extraordinário; a Azzurra vencesse a Dinamarca na disputa europeia; e então derrotasse o representante asiático. São quatro condicionantes independentes, cada uma com probabilidade baixa. A combinação de todas torna o cenário estatisticamente remoto — mas tecnicamente possível enquanto nenhuma decisão definitiva for tomada.
A Copa do Mundo 2026 começa em 11 de junho, com a fase de grupos se estendendo até 2 de julho. A FIFA tem prazo até o final de maio para fechar a lista definitiva de participantes — o que significa que as próximas três semanas serão decisivas para saber se a Azzurra terá ou não uma segunda chance. Enquanto a diplomacia entre Teerã e Washington não encontrar um desfecho, a Itália aguarda, sem poder fazer nada além de observar.
A Itália não disputa uma Copa do Mundo desde o Brasil, em 2014.








