Não é a política de segurança dos Estados Unidos que está em julgamento neste momento — é a capacidade da Fifa de proteger os participantes do seu próprio torneio de decisões unilaterais de um governo anfitrião. A Copa do Mundo de 2026 ainda não havia dado sua primeira bola rolada quando ao menos quatro episódios distintos já haviam transformado aeroportos americanos em palco de crise diplomática, deixando claro que o regulamento do torneio e a legislação de imigração de Donald Trump operam em universos paralelos que, inevitavelmente, colidem.

O árbitro somali que chegou a Miami com visto válido e foi mandado embora

No sábado, 6 de junho, Omar Abdulkadir Artan desembarcou no Aeroporto Internacional de Miami vindo de Istambul carregando na bagagem um visto válido para os Estados Unidos e a credencial de melhor árbitro masculino da CAF em 2025. A Alfândega e Proteção de Fronteiras americana (CBP) submeteu o somali a uma inspeção adicional e, ao final do processo, declarou-o inadmissível por "preocupações com a verificação de antecedentes" — sem detalhar quais. Artan seguiu para a Turquia.

Dois dias depois, a Fifa encerrou qualquer expectativa de reversão. Em nota oficial, a entidade confirmou que o árbitro "não poderá treinar nem atuar na Copa do Mundo 2026" e acrescentou que "foi informada pelas autoridades de que a situação do Sr. Artan não será alterada no momento". A entidade reiterou não se envolver nos processos de imigração dos países-sede — uma posição juridicamente defensável, mas politicamente frágil.

Com a exclusão, desapareceu também a perspectiva histórica: Artan seria o primeiro árbitro somali a apitar uma partida de Copa do Mundo. O governo de Mogadíscio não aceitou o desfecho em silêncio. Ciise Aden Abshir, assessor do Ministério da Juventude e Esportes da Somália, foi categórico:

"Ele é um dos árbitros mais respeitados da África e negar sua entrada nos Estados Unidos e impedi-lo de trabalhar prejudica não apenas a ele pessoalmente, mas também mina o compromisso do futebol com a equidade, o mérito e o espírito de fair play."

O próprio Artan, em comunicado, optou pelo tom conciliador sem esconder o golpe sofrido:

"Gostaria de agradecer à FIFA e à CAF por todo o apoio e prometo manter meu nível de arbitragem elevado enquanto me concentro no futuro."

A CBP, por sua vez, limitou-se a afirmar que "as decisões sobre admissibilidade são tomadas caso a caso, com base em informações policiais, de segurança nacional e de imigração disponíveis no momento da inspeção" — e aí vem o problema.

Ingressos iranianos cancelados e o Uzbequistão sob cães farejadores em Chicago

O caso Artan não é isolado. Na terça-feira, 9 de junho, a Federação de Futebol do Irã (FFIRI) anunciou que sua cota de ingressos havia sido revogada poucos dias antes do início do torneio, deixando torcedores que já tinham passagens compradas e acomodações reservadas sem acesso aos jogos de sua seleção. O governo Trump impôs, no ano passado, proibições de visto e restrições de viagem a cidadãos de 12 países — entre eles Irã, Somália, Senegal, Costa do Marfim e Haiti, todos com representação direta ou indireta nesta Copa.

Na segunda-feira, 8 de junho, foi a vez da delegação do Uzbequistão protagonizar uma cena constrangedora no Aeroporto O'Hare de Chicago. Segundo relatos de dirigentes presentes, toda a bagagem foi submetida a detectores de metal e cães farejadores, e o grupo aguardou por horas sob sol forte antes de ser liberado. Dirigentes uzbeques demonstraram insatisfação abertamente — um gesto incomum em contexto diplomático esportivo.

O mesmo aeroporto O'Hare havia sido, na semana anterior, o cenário da detenção do atacante iraquiano Aymen Hussein por sete horas. O fotógrafo oficial da seleção do Irã teve a entrada negada após dez horas de triagem. São quatro episódios em menos de dez dias, todos envolvendo delegações ou cidadãos de países contemplados pelas restrições impostas pela administração Trump — e todos ocorridos antes do apito inicial, marcado para a quinta-feira, 11 de junho, conforme registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura pré-torneio.

A mesa de decisão que a Fifa evita sentar

Para quem acompanha a história dos Mundiais com algum rigor documental, o que se passa em 2026 não tem paralelo direto. Nas edições de 1994 (Estados Unidos), 2002 (Coreia do Sul e Japão), 2010 (África do Sul) e 2014 (Brasil), houve tensões pontuais de segurança — atentados no entorno, protestos internos, ameaças logísticas —, mas nenhum governo-sede chegou a impedir a entrada de árbitros credenciados pela própria Fifa ou a cancelar cotas de ingressos de federações filiadas às vésperas do torneio.

A distinção jurídica que a Fifa tenta sustentar — "não nos envolvemos em processos de imigração" — existia em 1994 também, mas nunca precisou ser acionada desta forma. O contrato de sede firmado entre a entidade e os governos dos Estados Unidos, Canadá e México prevê garantias de acesso a participantes credenciados. O que a Fifa não explicou publicamente é por que não acionou as cláusulas contratuais de proteção ao árbitro Artan, que possuía visto válido e credencial oficial do torneio.

A resposta mais provável, ainda que não declarada, é pragmática: a Fifa não quer — e provavelmente não pode — confrontar o governo americano a dois dias do início de um Mundial que custou décadas de negociação política e bilhões de dólares em infraestrutura. O silêncio institucional tem um preço, e quem o paga é Artan, são os torcedores iranianos com passagens compradas, são os dirigentes uzbeques que esperaram horas no calor de Chicago.

A Copa do Mundo de 2026 começa na quinta-feira, 11 de junho, com o jogo de abertura entre México e — ironicamente — um adversário ainda aguardando confirmação logística de acesso para parte de sua delegação. O torneio terá 104 partidas distribuídas entre 16 cidades dos três países-sede, com a final marcada para o MetLife Stadium, em Nova Jersey, no dia 19 de julho. Cada uma dessas partidas precisará de árbitros — e agora a Fifa sabe, com precisão cirúrgica, que a lista de árbitros disponíveis pode encolher a qualquer momento, por decisão tomada não em Zurique, mas em Washington. Uma partitura escrita por dois maestros que nunca ensaiaram juntos — e o concerto já começou.