A luz do Estádio Akron, em Guadalajara, cai diferente às 20h locais. Aquela hora em que o calor da tarde já cedeu um pouco, o gramado ainda está perfeito e os torcedores já ocuparam os assentos com aquela mistura de expectativa e nervosismo que só a estreia de Copa do Mundo produz. É nesse cenário que Copa do Mundo 2026 recebe um duelo inédito: Coreia do Sul e República Tcheca nunca se enfrentaram em Mundiais — e o primeiro encontro pode eliminar uma das duas antes mesmo de a segunda rodada começar.

O que os números revelam sobre as duas seleções

A Copa do Mundo 2026 marca a 12ª participação consecutiva da Coreia do Sul, uma sequência que começou exatamente no México, em 1986 — há quatro décadas nesse mesmo país. Os sul-coreanos entram em campo com a melhor marca asiática da história das Copas: quarto lugar em 2002, quando foram anfitriões ao lado do Japão. O técnico Hong Myung-bo, que já comandou a seleção em 2014 e pediu demissão após eliminação na fase de grupos, vive sua segunda chance.

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Do outro lado, a República Tcheca volta a uma Copa depois de 20 anos de ausência — a última participação foi em Alemanha 2006, eliminação ainda na fase de grupos. A classificação veio pelo caminho mais difícil: repescagem europeia, com vitória sobre a Irlanda e depois sobre a Dinamarca nos pênaltis, após empate em 2 a 2 no tempo regulamentar e na prorrogação. Nas palavras do técnico Miroslav Koubek, o grupo entrou na Copa com mentalidade de quem não tem nada a perder — e esse tipo de time costuma ser o mais perigoso.

Olhando para os dados táticos, a diferença de perfis é clara:

  • xG (expected goals) médio por jogo — a Coreia do Sul criou situações de maior qualidade nas eliminatórias asiáticas, com média acima de 1.8 xG por partida, enquanto a República Tcheca oscilou mais na criação, com índices próximos de 1.4 xG na fase europeia.
  • PPDA (passes por ação defensiva) — o esquema de três zagueiros de Koubek resulta em um bloco mais passivo, com PPDA acima de 11, o que significa que a equipe tcheca pressiona menos e deixa o adversário circular mais no campo deles antes de agir. Já a Coreia, quando bem organizada, aplica pressing mais intenso, com PPDA próximo de 8.
  • Progressive passes — a Coreia avança a bola com mais frequência em direção ao gol adversário, especialmente pelos lados, onde Son Heung-min aparece para criar desequilíbrio.

Um dado curioso: 12 dos últimos 13 gols da Coreia do Sul em Copas do Mundo saíram no segundo tempo. Isso sugere um time que começa mais cauteloso e cresce com o jogo — o que pode ser uma armadilha para a República Tcheca, caso os tchecos acreditem que o 0 a 0 na primeira etapa representa controle real da partida.

Son Heung-min e o peso de carregar uma nação

Não tem como falar de Coreia do Sul sem falar de Son Heung-min. O atacante, que passou anos no Tottenham e hoje ainda carrega o status de maior jogador da história do país, é o principal criador e finalizador da seleção. Nos dados de xA (expected assists), Son aparece consistentemente entre os jogadores que mais geram oportunidades reais de gol na seleção — não apenas pela qualidade dos passes, mas pela capacidade de forçar situações de finalização com progressão direta.

A defesa tcheca, organizada em bloco de cinco quando sem a bola, vai tentar neutralizar exatamente esse tipo de jogador. O esquema de Koubek com três centrais e dois carrileros cria uma linha defensiva compacta que historicamente sufoca pontas que gostam de encarar em velocidade. A questão é: quando a linha sobe para pressionar, o espaço nas costas dos alas aparece — e Son sabe explorar esse corredor melhor do que quase qualquer outro jogador do mundo.

"Nos últimos cinco jogos da República Tcheca, todos tiveram mais de 2.5 gols no total", aponta a análise pré-jogo publicada pelo portal muydefutbol.com — um dado que contraria a imagem de equipe defensiva que o esquema de Koubek sugere à primeira vista.

O que está em jogo além dos três pontos

O Grupo A reúne Coreia do Sul, República Tcheca, México e África do Sul. O México já abriu a rodada com vitória sobre os sul-africanos no Estádio Azteca — o que significa que o vencedor deste jogo em Guadalajara assume a liderança isolada do grupo. Um empate, por sua vez, deixa os dois times com um ponto cada, enquanto o México lidera. Matematicamente, qualquer resultado serve para alguém — mas perder na estreia, em Copa com 48 seleções e três classificados por grupo, não é catástrofe. Ainda assim, nenhum técnico quer começar atrás.

Para a Coreia, uma derrota colocaria pressão imediata sobre o confronto seguinte contra o México — jogo que, em casa, os mexicanos vão encarar como obrigação. Para a República Tcheca, que voltou ao Mundial depois de duas décadas, começar com derrota seria uma narrativa difícil de reverter em apenas dois jogos.

"A classificação tcheca pela repescagem, com dois jogos decididos nos pênaltis, mostra um grupo que sabe jogar sob pressão", segundo análise publicada pelo portal Guatefutbol.com no OneFootball — e isso pode ser o fator mais importante quando o placar apertar no segundo tempo.

Em matéria do SportNavo, o árbitro designado para o jogo é o egípcio Amin Mohamed Omar, que vai apitar o primeiro encontro oficial entre as duas seleções em toda a história das Copas do Mundo. O historial entre elas em amistosos é equilibrado: um empate em 1998, vitória tcheca em 2001 e vitória sul-coreana em 2016, pelo placar de 2 a 1.

Às 20h locais em Guadalajara, Son Heung-min vai encarar uma linha de cinco defensores tchecos sob as luzes do Akron — e do outro lado do campo, Koubek vai esperar que o PPDA alto da sua equipe não abra espaço demais nas costas dos alas no segundo tempo, exatamente quando a Coreia do Sul historicamente acorda.