"Nossa equipe mostrou coisas muito boas contra um adversário muito forte", declarou Mohamed Ouahbi após o empate de 1 a 1 com a Noruega. A frase soou mais como consolo do que celebração: o técnico marroquino falou com o microfone na mão enquanto dois de seus titulares já haviam deixado o gramado antes do intervalo, carregando consigo uma nuvem de incerteza que pode definir os rumos do Grupo C da Copa do Mundo.
O que aconteceu com Mazraoui e Ezzalzouli no amistoso contra a Noruega
Noussair Mazraoui, lateral-direito do Manchester United, durou apenas o primeiro tempo. O jogador sofreu uma lesão no ombro esquerdo após um choque e precisou ser substituído ainda na primeira etapa. Abdessamad Ezzalzouli, atacante do Betis, seguiu o mesmo caminho: saiu antes do intervalo com suspeita de entorse no ligamento colateral medial do joelho direito — uma das lesões mais traiçoeiras para atletas que dependem de explosão e mudança de direção. O técnico Ouahbi confirmou que ambos serão submetidos a novos exames e não descartou a possibilidade de corte da competição.
O cenário é delicado porque os dois jogadores não são peças intercambiáveis. Mazraoui é o lateral-direito titular há anos e representa o equilíbrio entre a marcação disciplinada e a participação ofensiva pelo corredor direito. Ezzalzouli, por sua vez, é o atacante de maior mobilidade no esquema marroquino — capaz de atuar pelos flancos ou centralizado, criando desequilíbrio com aceleração e drible curto. Perder os dois simultaneamente não é apenas perder dois nomes: é perder dois perfis funcionais que Ouahbi levou meses construindo.
O peso tático dessas ausências contra a Seleção Brasileira
Na Copa do Mundo do Catar, em 2022, o Marrocos chegou à semifinal sustentado por uma defesa que sofreu apenas um gol em cinco jogos — e esse gol foi contra. A solidez defensiva era a espinha dorsal da campanha histórica. Mazraoui era peça central nesse sistema: sua capacidade de cobrir espaços e iniciar a saída de bola pelo lado direito dava ao time uma transição organizada. Sem ele, o substituto natural terá de enfrentar imediatamente um dos ataques mais velozes do torneio.
Quando ataca pelo lado esquerdo, Vinicius Jr. isola o lateral adversário em duelos individuais. Quando acelera pelo lado direito, Rodrygo explora o espaço entre a linha defensiva e o meio-campo. Qualquer substituto de Mazraoui chegará à estreia sem o rodagem e a leitura de jogo que o titular acumulou — e isso, diante do Brasil, é um risco mensurável, não especulativo.
No setor ofensivo, a ausência de Ezzalzouli retira do Marrocos sua principal opção de desequilíbrio em velocidade. No futebol, como diz o ditado popular, quem não tem cão caça com gato — e Ouahbi terá de buscar alternativas que não foram testadas em amistosos recentes. O banco marroquino tem nomes competentes, mas nenhum com o mesmo perfil de imprevisibilidade que o atacante do Betis oferece.
O que os exames médicos vão determinar nas próximas horas
A lesão no ombro de Mazraoui pode ser tratada com imobilização e analgesia, dependendo do grau de comprometimento articular. Se os exames descartarem lesão ligamentar grave ou fratura, há chance de o jogador ser liberado com restrições. A entorse no ligamento colateral medial de Ezzalzouli é mais preocupante: em grau II ou III, o tempo de recuperação pode superar três semanas — o que praticamente elimina qualquer participação na fase de grupos, cujo encerramento ocorre no dia 24 de junho, em Atlanta.
O técnico Ouahbi preferiu não antecipar decisões.
"Deixamos uma boa impressão, apesar de não termos vencido. Esse é o objetivo de enfrentar equipes desse nível, ainda mais quando você faz tantas mudanças", disse o treinador, sinalizando que o jogo contra a Noruega serviu como laboratório — mas um laboratório que cobrou um preço alto. A palavra final pertence ao departamento médico, e o prazo para decisão é curto: a estreia contra o Brasil está marcada para 13 de junho.
O calendário do Grupo C e o que está em jogo para o Brasil
Após a estreia contra a Seleção Brasileira, o Marrocos enfrenta a Escócia no dia 26, em Boston, e encerra a fase de grupos diante do Haiti no dia 24, em Atlanta. A ordem dos jogos coloca o confronto com o Brasil como o mais exigente da fase inicial — justamente quando as dúvidas sobre o elenco marroquino são maiores.
Para o Brasil, a equação é objetiva: se Mazraoui e Ezzalzouli forem cortados ou chegarem em condições físicas comprometidas ao dia 13, o corredor direito marroquino se torna o ponto de pressão mais evidente do jogo. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, o perfil defensivo do Marrocos já havia sido apontado como o principal obstáculo para o ataque brasileiro — mas um sistema defensivo privado de seu lateral titular e de sua referência ofensiva principal opera com margens de erro muito maiores. Os exames médicos, esperados nas próximas 48 horas, dirão se Ouahbi chega ao MetLife Stadium com um problema resolvido ou com dois buracos no elenco que precisará tapar às pressas.








