Se Wesley França não tivesse caído no gramado de Cleveland aos 16 minutos do amistoso contra o Egito, ninguém estaria falando de Éderson agora. A convocação do volante da Atalanta não estava nos planos — e é exatamente isso que torna a decisão de Carlo Ancelotti tão reveladora sobre como o técnico italiano enxerga a Copa do Mundo que começa em poucos dias.

A realidade chegou rápido. Wesley sentiu o músculo adutor da coxa esquerda ceder, levou a mão à parte posterior da perna e desabou no gramado. Chorando, foi substituído e amparado pelos companheiros antes de deixar o campo. O exame de ressonância magnética confirmou o pior: lesão muscular, Copa encerrada. Com ele foi embora também a única opção de lateral-direito puro que Ancelotti tinha no elenco — agora restam Danilo, 34 anos, como única alternativa de ofício na posição.

O precedente que explica a lógica de Ancelotti

Não é a primeira vez que uma Seleção Brasileira chega a uma Copa do Mundo com um buraco tático mal resolvido na lateral direita. Em 2002, o técnico Luiz Felipe Scolari perdeu Emerson na véspera do torneio — o capitão rompeu o tendão do ombro num treino no Japão — e substituiu o volante por Kleberson, um meio-campista de marcação com perfil diferente. A resposta não foi buscar um clone do ausente, mas reforçar o meio-campo com um jogador que pudesse cobrir múltiplas funções. O Brasil ganhou o penta. Ancelotti, ao convocar Éderson, parece ter lido o mesmo manual.

A diferença é que, em 2002, a substituição foi de volante por volante. Aqui, o técnico trocou um lateral por um volante — e foi essa decisão que acendeu o debate. O jornalista André Rizek foi direto ao ponto nas redes sociais:

"Desde ontem defendo que, no corte do Wesley, tinha de chamar um meia, para corrigir um problema da convocação inicial. É também mais um sinal de que o esquema com quatro atacantes já era. Éderson é que não seria minha escolha. Prefiro o Gérson. Mas... mentalidade italiana."

A crítica de Rizek tem fundamento técnico, mas ignora um dado concreto sobre o perfil de Éderson: o volante da Atalanta não é um jogador de função única. Na Serie A 2025/2026, ele atuou como volante de marcação, como meia de construção e, em pelo menos três partidas pela Atalanta de Gian Piero Gasperini, foi utilizado como lateral-direito em momentos de pressão ofensiva. É essa versatilidade que Ancelotti quer na Copa.

O que Éderson já fez na Atalanta que ninguém está contando

O calor de Bérgamo no outono europeu moldou um jogador diferente do que chegou à Itália vindo do Salernitana em 2022. Éderson absorveu a intensidade do futebol de Gasperini — aquele pressing sufocante, aquela exigência de que cada jogador entenda pelo menos duas ou três posições — e saiu de lá com um repertório tático que vai muito além do volante de marcação que o torcedor brasileiro conheceu na Seleção.

Na temporada atual, Éderson acumula mais de 2.800 minutos em campo pela Atalanta, com participação em seis gols (dois marcados, quatro assistências), números que colocam o brasileiro entre os meio-campistas mais produtivos da Serie A. Quando Gasperini precisou, ele recuou para a direita da defesa e manteve o posicionamento sem perder a capacidade de sair jogando. Ancelotti viu isso. E foi exatamente esse ponto que o técnico usou para justificar a convocação — a capacidade de ocupar múltiplas funções dentro do mesmo sistema.

Danilo sozinho e o risco real que o Brasil corre

O problema não é Éderson. O problema é o que acontece se Danilo sentir qualquer coisa durante o torneio. Com Wesley fora, o Brasil entra na Copa do Mundo com um único lateral-direito de ofício no elenco — situação que nenhuma comissão técnica séria planejaria intencionalmente. O ex-jogador Vampeta, durante a programação da rádio Jovem Pan neste domingo (7), colocou o dedo numa ferida maior:

"Essa geração é a que não ganhou nada. Conseguiram perder para seleções de menor porte, africanas, destruíram tudo nos últimos oito anos. O Raphinha e o Vini Jr não têm moral para pedir para não sair. O que eles fizeram para encantar os nossos olhos? Conquista? Não tem."

A crítica de Vampeta é mais ampla — e vai além da lateral direita. Mas ela captura o clima de cobrança que cerca a Seleção Brasileira antes da Copa. O Brasil venceu o Egito por 2 a 1 no último sábado (6), com gol de Bruno Guimarães logo aos 6 minutos do primeiro tempo e gol de Endrick no segundo tempo após assistência de Raphinha. O resultado foi positivo, mas a lesão de Wesley e o debate sobre Éderson dominaram o domingo.

O trunfo tático que Ancelotti está apostando

A lógica de Ancelotti faz mais sentido quando você olha para o esquema que o técnico vem testando. Com quatro atacantes no papel, o Brasil precisa de um volante que consiga equilibrar a equipe — alguém que cubra o espaço que os laterais deixam quando sobem. Éderson faz isso na Atalanta com naturalidade. Se Danilo precisar ser poupado ou se o técnico quiser usar um esquema com três zagueiros, Éderson pode operar como ala-direito sem que o sistema desmorone.

Não é uma solução perfeita. Mas é uma solução inteligente — e coerente com a filosofia de um técnico que, no Real Madrid, já improvisou jogadores em posições inusitadas e saiu vencedor. Ancelotti não convocou Éderson para substituir Wesley. Convocou para ter um coringa que pode aparecer em qualquer canto do tabuleiro quando o jogo exigir.

O Brasil estreia na Copa do Mundo na fase de grupos, e os próximos dias de treino em solo americano vão revelar como Ancelotti pretende encaixar Éderson no esquema titular ou usá-lo como recurso saindo do banco. Vale gravar os treinos abertos que a CBF deve liberar para a imprensa ainda nesta semana — é nesses trabalhos que as decisões táticas reais aparecem, antes de qualquer coletiva oficial.