Duas derrotas. Esse era o peso que João Fonseca carregava cada vez que o nome de Alejandro Tabilo aparecia no chaveamento. O chileno de 28 anos, número 45 do mundo, era a única equação que o carioca de 19 anos não conseguia resolver — com vitórias em Bucareste, em 2024, e em Buenos Aires, no início desta temporada. Mas nesta terça-feira, 14 de abril, nas quadras de saibro do ATP 500 de Munique, Fonseca reescreveu o roteiro com uma autoridade que fez a bola soar diferente: 7-6(1) e 6-3, em 1h33 de um duelo que foi, do primeiro ao último ponto, uma obra de precisão cirúrgica.
O peso de uma escrita que precisava ser apagada
Tabilo não era um adversário qualquer para Fonseca. Era o único tenista que havia derrotado o brasileiro duas vezes, construindo um histórico de 100% de aproveitamento no confronto direto. A primeira vez aconteceu em Bucareste, em 2024, num duelo de três sets que terminou 4-6, 7-6(5) e 6-4. A segunda, já em 2026, no Aberto de Buenos Aires — o mesmo torneio onde Fonseca havia conquistado seu primeiro título ATP em 2025. Eliminar o campeão defensor no próprio palco tem um sabor particular, e Tabilo havia degustado isso com elegância. O chileno carrega três títulos ATP na carreira, dois conquistados em 2024 — em Mallorca e em Auckland — e um em 2025, em Chengdu, além de uma final de Rio Open nesta temporada, perdida para Tomás Etcheverry.
A análise do SportNavo sobre o histórico desses confrontos revelava um padrão claro: Tabilo explorava a consistência de fundo de quadra e forçava Fonseca a errar em momentos de break point, aproveitando a experiência de quem já navegou por circuitos mais áridos. Em Munique, porém, o roteiro foi outro.
Um primeiro set que foi uma obra em si mesmo
O primeiro set de Munique foi um estudo de nervos e técnica. Equilibrado a ponto de exigir tie-break, o duelo inicial mostrou Fonseca operando num nível de confiança diferente dos confrontos anteriores. O backhand cruzado do brasileiro cortou o ar com precisão milimétrica nos momentos decisivos, e quando o set chegou ao tie-break, não houve hesitação: 7 a 1, um placar que diz tudo sobre quem dominou os pontos mais importantes. No segundo set, com 6-3, Fonseca consolidou a vitória sem permitir que o chileno reencontrasse o fio do jogo. Foram 1h33 de tênis que apagaram, de uma vez, o peso de dois confrontos perdidos.
O brasileiro chegou ao ATP 500 de Munique como número 35 do mundo, quatro posições à frente de Tabilo no ranking. A altitude da cidade alemã, que afeta a velocidade e o quique da bola no saibro, é um fator que tende a favorecer jogadores com saque mais potente e bola mais pesada — características que Fonseca vem desenvolvendo com consistência desde a conquista do ATP 500 de Basileia em 2025, quando ganhou 121 posições no ranking durante a temporada.
O próximo desafio e a sequência no torneio
Com o tabu derrubado, Fonseca já sabe qual é o próximo capítulo: Arthur Rinderknech, francês de 30 anos e atual número 26 do mundo, que é o cabeça de chave 7 do torneio. Os dois já se enfrentaram uma semana antes em Monte Carlo, onde o brasileiro venceu por 7-5, 4-6 e 6-3, numa batalha de três sets que revelou um adversário capaz de variar ritmo com drops shots cirúrgicos e saques que chegam rápidos e sem aviso. Fonseca foi preciso ao descrevê-lo:
"É uma partida muito difícil. É um jogador que tá só crescendo no ranking, que está fazendo belíssimos resultados, ainda mais aqui na altitude. É um jogador que é muito perigoso também, um pouco imprevisível, dá umas bolas rápidas, umas curtas subidas à rede, saque muito bom. Então é quem souber lidar melhor com a partida", disse Fonseca em entrevista à ESPN.
Rinderknech tem uma trajetória singular: jogou no circuito universitário americano pela Texas A&M entre 2015 e 2018, tem uma final de Masters 1000 no currículo — perdida para seu primo Valentin Vacherot em Xangai — e vive a melhor fase da carreira, ocupando sua posição mais alta no ranking. Para Fonseca, que chegou ao top 30 com 19 anos e acumula vitórias sobre nomes como Andrey Rublev, a partida desta quarta-feira em Munique é mais um exame de maturidade numa temporada 2026 que começou com lesão lombar e eliminação precoce no Australian Open, mas que vem ganhando forma e substância a cada set disputado.
Uma temporada que se constrói ponto a ponto
A vitória sobre Tabilo não foi apenas uma vingança estatística. Foi a demonstração de que Fonseca aprendeu a ler o adversário, a escolher o momento certo para acelerar o backhand e quando desacelerar o jogo com um drop shot inesperado. Tenistas como Alex de Minaur, número 6 do mundo, Casper Ruud, 13º, e Francisco Cerundolo, 20º, já declararam publicamente que gostariam de enfrentá-lo no Brasil — sinais de que o circuito profissional reconhece no carioca um rival que exige preparação específica.
Fonseca entra em quadra nesta quarta-feira, 15 de abril, contra Arthur Rinderknech, em horário ainda a confirmar pela organização do ATP 500 de Munique. Uma vitória o levaria às quartas de final do torneio alemão, continuando a construção de um ranking que, quando estiver plenamente saudável e em ritmo de competição, tem tudo para romper barreiras ainda mais altas do que as que já foram derrubadas.








