Se a Copa do Mundo de 2026 tivesse começado sem Neymar, o Brasil teria estreado com um elenco tecnicamente mais coeso — ao menos na visão de Giovane Elber. A realidade, porém, foi outra: o camisa 10 está em Nova Jersey, participando de altinhas com os companheiros enquanto realiza trabalhos separados de recuperação de uma lesão muscular na panturrilha direita. Não jogará contra Marrocos no sábado, dia 13 de junho. A questão que fica no ar não é se ele estava pronto para a Copa, mas quem, afinal, decidiu que ele deveria estar lá.

A denúncia de Elber e o peso do presidente

Giovane Elber, que vestiu a camisa da Seleção Brasileira em 15 oportunidades entre 1995 e 2003 e foi artilheiro do Bayern de Munique por quatro temporadas consecutivas, não poupou palavras ao jornal alemão Bild. Segundo ele, Carlo Ancelotti não agiu sozinho ao incluir Neymar na lista da Copa do Mundo.

A denúncia de Elber e o peso do presidente Como Giovane Elber expôs a pressão po
A denúncia de Elber e o peso do presidente Como Giovane Elber expôs a pressão po
"Uma grande maioria exigiu a convocação do Neymar. Até o presidente do país se meteu e se posicionou publicamente a favor dele. A pressão sobre Ancelotti ficou cada vez maior, e ele não teve outra escolha", afirmou Elber ao Bild.

A declaração reacende um debate que o futebol brasileiro conhece bem. Em 1970, João Saldanha foi demitido da Seleção após resistir a pressões externas para convocar determinados jogadores — e Zagallo assumiu o time que conquistaria o tricampeonato no México. Em 1994, a discussão sobre Romário e a condução de Parreira também envolveu interferências além do campo técnico. A diferença é que, desta vez, o personagem tem 177 milhões de seguidores no Instagram, mais do que qualquer outro atleta no planeta.

Ancelotti, que aceitou o comando da Seleção em janeiro de 2025 após deixar o Real Madrid, construiu sua carreira sobre uma imagem de equilíbrio e autonomia técnica. Ceder — ou parecer ter cedido — a uma convocação politicamente motivada é o tipo de episódio que corrói essa imagem. Cedeu.

Marketing x campo — o diagnóstico duro de um ex-parceiro de ofício

Elber foi além da denúncia institucional. Ele atacou o que considera uma metamorfose do atacante em produto comercial.

"Sinto muito, mas eu não o teria convocado. Talvez Neymar me surpreenda e jogue tão bem quanto alguns anos atrás. Mas eu não acredito nisso. Neymar já foi um jogador de nível mundial, hoje ele é apenas uma máquina de marketing."

Os números da passagem de Neymar pelo Al-Hilal, entre 2023 e início de 2025, sustentam parte da crítica. Em quase dois anos na Arábia Saudita, o atacante disputou apenas sete partidas pelo clube saudita, acumulando lesões no joelho esquerdo, na coxa e no tornozelo. Ao retornar ao Santos no começo de 2025, voltou a se machucar com frequência. A lesão atual na panturrilha direita é mais um capítulo de uma história que já tem páginas demais dedicadas a centros médicos.

Para Elber, a passagem pelo Al-Hilal equivaleu a "férias pagas" — e a volta ao Brasil não restabeleceu o ritmo de jogo que uma Copa do Mundo exige. A comparação histórica que vem à mente é a de Ronaldo Fenômeno em 2002: também chegou ao Mundial japonês-coreano em situação física delicada, mas saiu de lá com oito gols e dois títulos de artilharia. A diferença é que Ronaldo tinha 25 anos naquele junho. Neymar chegará a esta Copa com 34.

Nadine nas arquibancadas e a fé como estratégia

Enquanto o debate técnico fervilha nos bastidores, Nadine Gonçalves embarcou na última quarta-feira, dia 10 de junho, rumo aos Estados Unidos para acompanhar pessoalmente os jogos da Seleção. Será a quarta Copa do Mundo que ela acompanha ao lado do filho — Neymar esteve presente em 2010, 2014 e 2018, acumulando 12 gols em 14 partidas disputadas nessas três edições.

Em conversa com repórter da CazéTV durante o embarque, Nadine foi direta sobre seu ritual nos dias de jogo.

"É orar, orar sempre. Pedindo a Deus que dê tudo certo dessa vez. Que Deus esteja no controle de todos, principalmente do meu filho", disse ela.

A frase revela, de forma involuntária, a ansiedade que circunda a participação de Neymar. "Dessa vez" carrega o peso de 2014, quando o atacante saiu de maca contra a Colômbia nas quartas de final com uma fratura na vértebra lombar, e de 2022, quando uma entorse no tornozelo direito contra a Sérvia o afastou por duas rodadas da fase de grupos. O Brasil foi eliminado pelo próprio Neymar-lesionado como ausência nas decisões.

A estreia sem o número 10 e o que vem depois

O Brasil entra em campo no sábado, dia 13 de junho, diante de Marrocos — a mesma seleção que chegou às semifinais da Copa do Mundo do Catar em 2022, eliminando Espanha e Portugal pelo caminho. A ausência de Neymar não é apenas simbólica: é tática. Ancelotti precisará decidir quem ocupa a função de ligação entre meio e ataque sem o camisa 10.

A expectativa da CBF é contar com Neymar a partir da segunda rodada, quando o Brasil enfrenta o Haiti no dia 19 de junho. Elber, porém, projeta um caminho brasileiro que independe do retorno do atacante: acredita que a Seleção pode chegar às quartas de final, mas vê o título como improvável. "A classificação não foi boa, tivemos três técnicos nesse período. O que talvez dê um pouco de esperança: com Ancelotti, a Seleção volta a agir mais como time", avaliou o ex-atacante ao Bild.

O próximo treino de Neymar com bola está previsto para os dias que antecedem o jogo contra o Haiti. Se o atacante evoluir sem intercorrências nos próximos seis dias, Ancelotti terá em mãos o dilema que Elber já antecipou: escalar um jogador que chegou à Copa pela pressão de muitos e que precisará, em campo, responder com os próprios pés. Neymar tem 34 anos e seis dias de recuperação.