Diz-se que a Copa do Mundo tem o ingresso mais acessível entre os grandes eventos esportivos dos Estados Unidos. Na tarde desta quarta-feira, 10 de junho, Gianni Infantino reforçou essa tese em coletiva na Cidade do México — e o argumento, na superfície, tem coerência aritmética. O problema está no que ele deliberadamente omite.

A cena na Cidade do México e o que Infantino escolheu dizer

Diante de jornalistas na capital mexicana, o presidente da Fifa construiu sua defesa sobre dois pilares: o preço oficial mínimo de US$ 60 e a intensidade da demanda no mercado de revenda. A lógica apresentada foi quase de manual de microeconomia introdutória — se o mercado secundário eleva os valores, é porque os preços foram bem calibrados.

"Quando colocamos esses ingressos à venda, eles passam por um mercado secundário legal, o que eleva significativamente os preços. Isso demonstra que os valores foram bem definidos. Não é alguém que acorda de manhã e decide o preço — há um trabalho de vários especialistas", afirmou Infantino.

A citação revela uma escolha retórica precisa: transformar um sintoma de exclusão em prova de acerto. Que o mercado secundário eleve os preços é, na teoria econômica, evidência de que a oferta foi artificialmente restringida — não necessariamente de que o preço original era justo. A diferença entre as duas interpretações não é semântica; é política.

A cena na Cidade do México e o que Infantino escolheu dizer Como Infantino justi
A cena na Cidade do México e o que Infantino escolheu dizer Como Infantino justi

O argumento da redistribuição e seus limites empíricos

O segundo pilar do discurso de Infantino foi a promessa de retorno sistêmico. A Fifa, segundo ele, investe em países onde nenhum outro agente privado aplica recursos, e as receitas da Copa financiam esse ciclo.

"O mais importante é que cada dólar gerado volta para o futebol. Precisamos encontrar um equilíbrio. Como presidente da Fifa, é importante investir em países onde ninguém mais investe. Fazemos isso graças às receitas", completou o dirigente.

O argumento não é novo — e tampouco é falso em sua totalidade. A Fifa distribiu, segundo seus próprios relatórios financeiros, mais de US$ 727 milhões para federações nacionais no ciclo anterior ao Mundial do Qatar. O problema é que a promessa de redistribuição não responde à pergunta central: por que o torcedor de renda mediana, seja ele mexicano, brasileiro ou americano, não consegue comprar um ingresso pelo preço oficial sem recorrer ao mercado paralelo?

Há aqui uma tensão que a sociologia do esporte já mapeou com precisão. Em matéria do SportNavo, analisamos que a Copa do Mundo 2026 pode custar até R$ 45 mil por torcedor quando somados passagens, hospedagem e ingressos no mercado secundário — um valor que exclui estruturalmente as classes médias do Sul Global, exatamente o público que a Fifa alega priorizar em seu discurso de inclusão.

Demanda como legitimação e o que os números não explicam sozinhos

Invocar a demanda como prova de preço adequado é o equivalente econômico do que George Orwell chamaria de doublethink em "1984" — a capacidade de sustentar simultaneamente duas crenças contraditórias. Se a demanda é tão intensa que o mercado secundário triplica os valores, isso significa que milhões de torcedores querem estar no estádio mas não podem pagar o que o mercado exige. Isso não é validação de preço — é exclusão quantificada.

Infantino também comparou o ingresso mínimo de US$ 60 com os praticados pela NBA e outros torneios esportivos nos Estados Unidos, afirmando que a Copa oferece o menor valor de entrada nessa fase do torneio. A comparação tem um problema metodológico: a NBA é um produto de entretenimento urbano consumido majoritariamente por residentes locais com renda americana. A Copa do Mundo é um evento que mobiliza torcedores internacionais, muitos vindos de economias onde US$ 60 representa dois ou três dias de salário mínimo.

Pesquisas de audiência global mostram que o Brasil, México e Argentina respondem por fatias expressivas do público televisivo da Copa — em alguns torneios, mais de 30% do total de espectadores. Esses países têm PIB per capita entre US$ 9 mil e US$ 14 mil anuais, muito abaixo dos US$ 65 mil dos Estados Unidos. Tratar o mercado como um bloco homogêneo é uma escolha analítica que favorece a narrativa da Fifa, não a realidade do torcedor.

A entidade tem mecanismos concretos para enfrentar esse desequilíbrio: cotas de ingressos subsidiados por federação nacional, programas de venda direta vinculados ao CPF ou documento de identidade local, e restrições mais rígidas à revenda. Algumas dessas ferramentas existem formalmente — mas sua escala é insuficiente para alterar a dinâmica de mercado que Infantino, paradoxalmente, celebrou como evidência de sucesso.

A Copa do Mundo começa em 11 de junho, com o jogo inaugural entre México e o adversário do Grupo A no Estádio Azteca, em Cidade do México, transmitido gratuitamente pela CazéTV no Disney+. Para quem não conseguiu ingresso oficial — e são milhões —, essa será a única forma de estar presente num evento que, segundo a própria Fifa, existe para democratizar o futebol global. Há uma contradição nessa frase que nenhum especialista contratado pela entidade parece ter sido chamado para resolver.

Uma receita pode ser sofisticada, cara e tecnicamente impecável. Mas se apenas uma fração dos convidados consegue sentar à mesa, o chef pode chamar isso de exclusividade. O torcedor chama de fome.