Diz-se que a Croácia é uma seleção de ciclos curtos, que depende de um homem para existir. Na verdade, não depende — e o motivo importa muito antes de qualquer análise do amistoso desta tarde. A Copa do Mundo de 2026 começa em quatro dias, e a seleção croata já demonstrou, em três Mundiais consecutivos (2018, 2022 e agora), que possui estrutura coletiva suficiente para chegar longe mesmo quando Luka Modric opera abaixo do seu nível máximo. O que acontece no Estádio Varteks, em Varaždin, neste domingo às 15h45 (horário de Brasília), contra a Eslovênia, é o último teste antes de uma estreia que o mundo inteiro já marcou na agenda: dia 17 de junho, Croácia x Inglaterra.

Um precedente que a história croata conhece bem

Quem acompanhou a preparação da Croácia para a Copa de 1998, na França, lembra de uma seleção que também chegou ao torneio com amistosos modestos e saiu com o terceiro lugar. Naquele ciclo, Zvonimir Boban e Davor Šuker eram os eixos de um time que ninguém apostava que chegaria às semifinais — onde perdeu 2 a 1 para a França de Zidane, que viria a ser campeã. O paralelo com 2026 não é forçado: a Croácia novamente chega sem ser favorita no Grupo L, ao lado de Inglaterra, Panamá e Gana, e novamente carrega um meio-campista de classe mundial como símbolo de uma geração. A diferença é que, em 1998, Boban tinha 29 anos. Luka Modric chega a este Mundial com 40 anos completos.

A Eslovênia, adversária desta tarde, não disputará a Copa de 2026 — o que transforma o amistoso num exercício assimétrico de motivação. Para os eslovenos, o jogo é um banco de testes sem pressão de resultado. Para os croatas, cada minuto tem peso de ajuste fino: o técnico Zlatko Dalić precisa definir se Modric aguenta 90 minutos de ritmo ou se será preservado para a estreia contra os ingleses.

O Grupo L e o peso de jogar contra a Inglaterra na abertura

Croácia e Inglaterra têm história recente e dolorosa para os ingleses. Na semifinal da Copa de 2018, na Rússia, a seleção croata venceu por 2 a 1 na prorrogação — com gol de Mario Mandžukić — e eliminou um time inglês que acreditava ter chegado ao momento de quebrar o jejum de títulos. Aquele resultado ainda ecoa nos bastidores da FA. Agora, no Grupo L, o confronto entre as duas seleções está marcado para o dia 17 de junho, e os ingleses, sob o comando de Thomas Tuchel, chegam com Jude Bellingham, Harry Kane e Phil Foden como pilares de um projeto que também carrega o peso da história.

Para a Croácia, o cenário do Grupo L é tecnicamente favorável se comparado ao de 2022, quando enfrentou Marrocos, Canadá e Bélgica na fase de grupos e ainda assim avançou para as quartas de final — onde eliminou o Brasil nos pênaltis. Panamá e Gana são adversários manejáveis. A variável é a Inglaterra, e é exatamente para ela que Dalić calibra o time neste domingo.

"A Croácia chega à reta final da preparação buscando ganhar confiança para a competição", conforme registrado por SportNavo a partir das informações divulgadas pela confederação croata.

Modric titular e o peso de uma possível despedida

Há uma contabilidade silenciosa que ronda qualquer análise sobre Modric em 2026: este será, com altíssima probabilidade, o último Mundial de um dos três melhores meias da história do futebol europeu. O croata conquistou a Bola de Ouro em 2018, o mesmo ano em que levou a Croácia à final da Copa, onde perdeu 4 a 2 para a França. Desde então, acumulou mais duas participações em Copas — semifinal em 2022, onde a Croácia perdeu 3 a 0 para a Argentina — e manteve nível de atuação que poucos jogadores de campo sustentam depois dos 38 anos.

A titularidade esperada contra a Eslovênia não é um gesto sentimental de Dalić. É uma necessidade técnica: Modric precisa de ritmo de jogo real antes de encarar o meio-campo inglês, que tem Bellingham como referência e Declan Rice como âncora. O amistoso desta tarde funciona como aquecimento de motor — não para testar se o motor funciona, mas para calibrar a rotação ideal antes da estrada longa.

"Cada partida ganha importância a mais", segundo a avaliação do staff técnico croata divulgada antes do confronto desta tarde — as seleções utilizam os confrontos para dar ritmo aos jogadores e corrigir detalhes antes do início da caminhada.

O que esperar do amistoso em Varaždin

O Estádio Varteks — também identificado como Stadion Anđelko Herjavec — tem capacidade para pouco mais de 10 mil torcedores e serve de palco para um jogo que, na prática, tem função de treino com plateia. A Eslovênia, que ficou fora da Copa de 2026, deve apresentar um bloco médio-baixo que force a Croácia a construir pelo lado e testar variações de posicionamento. Para Dalić, isso é útil: a Inglaterra de Tuchel usa linha de quatro defensores compacta, e qualquer exercício de circulação rápida contra bloco organizado tem valor prático.

O jogo tem transmissão ao vivo pelo SporTV, às 15h45 no horário de Brasília. Quatro dias depois, no dia 11 de junho, começam os jogos da Copa do Mundo de 2026 — e a Croácia estreia no dia 17, contra a Inglaterra, num confronto que, se a história servir de guia, promete muito mais do que o ranking atual das seleções sugere.

Modric joga hoje. Na semana que vem, a Croácia joga para valer.