O comunicado caiu como pedra no vidro. Sem barulho de torcida, sem câmeras de televisão — só um post no X e um silêncio pesado sobre o futebol japonês. Wataru Endo, 33 anos, capitão do Japão e peça mais importante do meio-campo de Hajime Moriyasu, está fora da Copa do Mundo. Uma lesão no pé esquerdo destruiu meses de planejamento e encerrou, de uma vez, sua trajetória pela seleção. A notícia foi confirmada na quinta-feira, 11 de junho, a três dias da estreia japonesa contra a Holanda.
O vazio que Endo deixa no centro do campo japonês
Não se trata de ausência simbólica. Endo era o pulmão do sistema de Moriyasu — o jogador que recuperava a bola, distribuía o jogo e liderava dentro e fora de campo. Pelo Liverpool, na Premier League, o meia construiu nos últimos anos uma reputação sólida como um dos melhores volantes da Europa na função de ancoragem. No esquema japonês, ele operava como pivô defensivo num 4-2-3-1, funcionando como um filtro compacto entre a defesa e os meias criadores — um dique que segurava a pressão adversária antes de ela virar tempestade.
A liderança dele também não era apenas técnica. Desde a Copa do Qatar, em 2022, Endo carregou a braçadeira com uma postura que moldou a identidade do grupo. O próprio jogador traduziu esse peso ao se despedir:
"Claro que há a frustração de não poder participar desta Copa do Mundo, mas, mais do que isso, sinto orgulho por, desde depois da Copa do Catar, como capitão, ter liderado este time e crescido junto com ele até o ponto em que o objetivo de 'vencer a Copa do Mundo' se tornou algo que todos podemos dizer naturalmente."
E ainda completou, sobre a decisão de encerrar o ciclo com a seleção:
"Com esta convocação, decidi me aposentar da seleção. Então, de agora em diante, vou apoiar a seleção japonesa como um simples torcedor."
Quem é Shuto Machino e o que ele muda na equação de Moriyasu
O nome escolhido para ocupar a vaga na lista foi o de Shuto Machino, 26 anos, atacante do Borussia Mönchengladbach, da Bundesliga alemã. A escolha revela, antes de qualquer coisa, uma mudança de perfil. Machino não é meio-campista. Ele é um centroavante com mobilidade, acostumado a trabalhar nas linhas de pressão alta e a servir de referência ofensiva. Sua entrada na lista não substitui Endo diretamente — ela sinaliza que Moriyasu pode optar por reconfigurar a estrutura tática ao invés de replicar o papel do capitão ausente.
O técnico japonês, conhecido pela rigidez disciplinada do seu esquema, terá que decidir entre dois caminhos. O primeiro é promover um volante de dentro do próprio elenco — como Hidemasa Morita ou Ao Tanaka — para a função de âncora central, mantendo a espinha dorsal tática. O segundo é adaptar o sistema para aproveitar Machino como referência ofensiva, liberando um dos meias para assumir responsabilidades defensivas maiores.
O Grupo F e a urgência de uma resposta antes de domingo
O relógio não para. O Japão está no Grupo F, ao lado de Holanda, Suécia e Tunísia, e estreia no domingo, 14 de junho, às 17h (horário de Brasília), contra os holandeses. A Holanda é o adversário mais pesado do grupo e exige exatamente o tipo de cobertura defensiva que Endo oferecia com naturalidade. Sem ele, o meio-campo japonês fica exposto às transições rápidas e ao talento técnico de jogadores como Xavi Simons e Cody Gakpo.
Moriyasu terá menos de 72 horas para fechar uma solução. Em matéria do SportNavo, o cenário mais analisado aponta Hidemasa Morita, do Sporting, como o candidato mais preparado para absorver as responsabilidades defensivas de Endo no miolo. Morita tem experiência em duelos físicos na liga portuguesa e já atuou como pivô nas fases de classificação asiática.
O que o Japão pode fazer antes da estreia na Holanda
A ausência de Endo expõe uma fragilidade estrutural do futebol japonês: a dependência de um único jogador para equilibrar as duas fases do jogo no meio-campo. Ao Tanaka, do Freiburg, é a outra opção de volante com características mais defensivas, mas ainda não demonstrou a mesma consistência de Endo em jogos de alta pressão. A aposta em Machino como atacante adicional sugere que Moriyasu pode estar inclinado a jogar com mais presença ofensiva — um risco calculado contra uma Holanda que também não é inexpugnável na defesa.
O Japão enfrentou desfalques pesados antes desta Copa — Mitoma e Minamino também ficaram fora por lesão — mas nenhuma ausência chegou com o peso simbólico do corte do capitão a três dias da abertura. Moriyasu precisará convencer 25 jogadores de que o projeto segue de pé. A pergunta que fica para os próximos dias é direta: se Hidemasa Morita não conseguir replicar a função de Endo contra a Holanda no domingo, Moriyasu tem coragem de mudar o sistema na estreia e escalar Machino como titular de imediato?








