Quando Alisson Becker tinha sete anos e ainda era descrito por ele mesmo como "baixo, nervoso e chorão", Taffarel já havia defendido o pênalti de Cocu na semifinal da Copa de 1998 contra a Holanda — o mesmo pênalti que fez o pai dos Becker sair gritando pela sala com bolo espalhado no rosto. Naquele julho de 1998, a família reunida na casa de uma tia em Novo Hamburgo não sabia que estava assistindo, sem perceber, ao embrião de uma das histórias mais bonitas do futebol gaúcho. Vinte anos depois, o filho caçula repetiria a trajetória de Taffarel como titular absoluto da Seleção Brasileira — mas nenhum daquele pênalti defendido, nenhum daquele bolo atirado, nenhum daquele grito de euforia teria sentido sem um personagem que o mundo quase não conheceu: Muriel Becker.
A escola colorada que formou dois goleiros da mesma família
O Internacional de Porto Alegre tem uma tradição sólida na formação de goleiros — Dida, que defendeu o clube no início dos anos 1990, já é referência nessa genealogia. Mas raramente a base colorada viu dois irmãos disputando a mesma posição, no mesmo clube, com a mesma seriedade. Muriel, cinco anos mais velho que Alisson, chegou primeiro às categorias de base do Inter e foi ele quem, de certa forma, puxou o irmão para dentro do gol. "O verdadeiro motivo que me fez jogar no gol foi meu irmão", declarou Alisson em texto publicado no The Players Tribune, às vésperas da Copa do Mundo da Rússia, em 2018. A confissão tem peso de quem sabe exatamente o que está dizendo.
A linhagem de goleiros na família Becker é quase genética: a mãe jogou no handebol, o bisavô foi goleiro amador em Novo Hamburgo e o pai defendia o gol na equipe da empresa onde trabalhava. Mas foi Muriel quem transformou essa herança em rotina de treino, em provocação constante e, paradoxalmente, em escola de controle emocional para o irmão mais novo. "Ele sabia exatamente o que fazer para que eu perdesse a paciência", admitiu Alisson no mesmo texto. Não há tragédia nessa história: há pedagogia — do tipo que só um irmão mais velho sabe aplicar.
A disputa silenciosa pela camisa 1 do Inter
Houve um momento específico, registrado pelo Globo Esporte RS em 2015, que resume com precisão a dinâmica entre os dois: com Alisson convocado para a Seleção Brasileira e em viagem aos Estados Unidos, Muriel assumiu o gol do Internacional em uma goleada de 6 a 0 sobre o Vasco da Gama — a maior goleada do Brasileirão 2015 até aquela rodada. O irmão mais velho, que havia aberto o caminho, estava ali para segurar a posição quando o caçula precisava ser outra coisa: um representante do país.
Essa inversão de papéis diz muito sobre a trajetória dos dois. Muriel chegou ao Inter com vantagem etária e física. Alisson chegou depois, menor, mais nervoso, precisando trabalhar o que não podia controlar — a altura — com o que podia: a técnica. "Em um ano, passei de 1,70 para 1,87 de altura", contou Alisson, descrevendo o salto físico que coincidiu com o aprimoramento técnico impulsionado pelo irmão. Quando o corpo cresceu, a técnica já estava lá, lapidada nas tardes de treino em que Muriel não dava moleza.
"Eu pegava muito no pé dele quando éramos crianças, mas ele sabe que eu o amo muito, ele me enche de orgulho e já é um vencedor. Tenho certeza que ele vai conseguir grandes coisas", disse Muriel em entrevista ao GloboEsporte.com, quando já atuava pelo Belenenses, de Portugal.
A carta que parou o vestiário de Portugal
Em junho de 2018, às vésperas do duelo entre Brasil e México pelas oitavas de final da Copa do Mundo da Rússia — partida que a Seleção venceria com gols de Neymar e Firmino —, Alisson publicou no The Players Tribune um texto que circulou o mundo e chegou a Muriel pelo celular da cunhada Natália. O goleiro do Belenenses estava no vestiário após o treino quando começou a ler. Dois parágrafos foram suficientes.
"Então, se você estiver lendo isso, mano, saiba que cada defesa que eu fizer na Rússia é sua, também. Meu sucesso é o seu sucesso — porque nós somos parte da mesma história. E por isso, eu sempre serei grato", escreveu Alisson.
Muriel, então com 31 anos, teve que parar a leitura, tomar banho, entrar no carro e só então terminar o texto — porque chorar no vestiário não estava nos planos. "É raro eu chorar", admitiu ele. Naquele mesmo dia, o Brasil derrotou o México por 2 a 0, com Alisson encerrando a partida como o goleiro menos vazado do torneio ao lado do uruguaio Muslera — apenas um gol sofrido até as quartas de final. A carta havia sido publicada dois dias antes. Coincidência ou não, o goleiro jogou com algo a mais naquele jogo.
O legado que a Copa de 2018 deixou para a família Becker
Muriel não pôde viajar à Rússia para acompanhar o irmão de perto — estava em pré-temporada pelo Belenenses e o clube não liberou. Assistiu ao Brasil x Bélgica, pelas quartas de final, de dentro de casa, sem conseguir ver o jogo na rua por causa do nervosismo. A Seleção perdeu por 2 a 1 naquela sexta-feira de julho de 2018, e o sonho do hexacampeonato ficou para outra Copa. Mas a história dos dois irmãos saiu da Rússia maior do que entrou.
O texto publicado pelo SportNavo ao longo desta semana sobre a trajetória de Alisson reacende uma questão que o futebol brasileiro raramente se faz: quantos grandes jogadores foram formados, em silêncio, por irmãos mais velhos que nunca chegaram ao mesmo patamar? Muriel Becker foi goleiro do Internacional, atuou em Portugal pelo Belenenses e nunca vestiu a camisa da Seleção principal. Mas foi ele quem ensinou ao caçula que emoção se controla, que técnica se treina e que a posição de goleiro exige uma solidez interior que não vem do talento bruto — vem da convivência com quem te conhece melhor do que você mesmo.
Alisson tem hoje 31 anos, é titular do Liverpool na Premier League e acumula uma Champions League conquistada em 2019 e um título da Copa da América de 2019 com a Seleção. Muriel, agora com 36 anos, acompanha cada jogo do irmão com a mesma mistura de orgulho e nervosismo de sempre. A Copa do Mundo de 2026 começa em poucos dias, e Alisson chega como titular indiscutível de Ancelotti. Se ele defender um pênalti decisivo, alguém em algum lugar vai chorar no carro antes de conseguir terminar de ler a próxima carta — e ninguém vai achar isso nada menos do que justo. Qual seria o impacto para a Seleção se Alisson, em algum momento do torneio, precisasse ser substituído por um goleiro que nunca teve um Muriel ao lado para ensiná-lo a controlar as emoções?








