Todo mundo já sabe que Neymar saiu chorando do campo na estreia do Brasil na Copa do Mundo 2026, com o tornozelo direito inchado e o olhar de quem reconhece a cena. O que poucos param para calcular é quantas vezes esse roteiro já foi ensaiado — e o que ele revela sobre a fragilidade estrutural de uma Seleção que, Copa após Copa, constrói tudo em torno de um único jogador que sistematicamente não consegue chegar inteiro ao fim do torneio.
O tornozelo que parou o Estádio Lusail na estreia contra a Sérvia
Aos 34 minutos do segundo tempo, com o Brasil já vencendo a Sérvia no Estádio Lusail, Neymar torceu o tornozelo direito após mais uma falta sofrida. Não foi uma pancada isolada: ao longo da partida, a Sérvia cometeu 8 das 11 faltas do jogo diretamente sobre o camisa 10, tornando-o o jogador mais caçado do Mundial até aquele momento. Antony entrou em seu lugar enquanto as câmeras da TV Globo flagravam Neymar no banco com o rosto coberto pela camisa e uma bolsa de gelo aplicada pelo departamento médico da Seleção.
Após o apito final, enquanto os demais jogadores saudavam os torcedores no gramado, Neymar saiu mancando direto para o túnel, acompanhado pelo médico Rodrigo Lasmar. A cena era familiar demais para qualquer um que acompanha o futebol brasileiro há mais de uma década.
"Ele será reavaliado nesta sexta-feira", informou o médico Rodrigo Lasmar logo após a partida, sem dar detalhes sobre o diagnóstico ou o prazo de recuperação.
O tornozelo apareceu visivelmente inchado nas fotos divulgadas pela Reuters e pela AFP ainda dentro do estádio. A gravidade da lesão — se entorse de grau 1, 2 ou 3 — só seria conhecida após os exames do dia seguinte, mas o impacto psicológico já havia se instalado sobre o grupo brasileiro antes mesmo de qualquer laudo.
Três Copas, três histórias de dor — o padrão que define uma carreira
Quando faz uma Copa do Mundo, Neymar carrega o peso de ser o principal nome do Brasil. Quando sai lesionado, ele carrega também o peso de um histórico que não perdoa.
Em 2014, no Brasil, ele foi carregado nos ombros de Davi Luiz após uma joelhada de Zúñiga no jogo contra a Colômbia, nas quartas de final, com fratura na terceira vértebra lombar. A Seleção caiu 7 a 1 para a Alemanha sem ele. Em 2018, na Rússia, chegou em recuperação de cirurgia no metatarso do pé direito — operado em fevereiro daquele ano — e foi eliminado pelo Bélgica nas quartas, em uma atuação coletiva apagada. Em 2022, no Catar, o tornozelo direito voltou a ser o ponto fraco: lesionado na estreia contra a Sérvia, ficou fora dos dois jogos seguintes e retornou apenas nas oitavas, quando o Brasil foi eliminado pela Croácia nos pênaltis.
O ditado popular diz que "burro que não aprende na primeira, aprende na segunda" — e a Seleção já está na quarta Copa tentando aprender a mesma lição: depender de um único jogador em torneios de seis jogos eliminatórios é uma aposta com histórico de perda.
"Neymar foi muito caçado em campo", reconheceu a transmissão da Globo durante a partida, documentando as oito faltas sofridas pelo camisa 10 somente no jogo de estreia contra os sérvios.
O que a Seleção tem para jogar sem o camisa 10
Quando faz os jogos sem Neymar disponível, o Brasil de 2026 tem um elenco com mais profundidade do que em edições anteriores — mas também com a mesma dependência emocional e tática do número 10 que marcou as últimas quatro décadas.

Antony, que entrou no lugar de Neymar contra a Sérvia, tem histórico irregular em clubes europeus mas velocidade e capacidade de condução que podem ser úteis em transições rápidas. O esquema de Carlo Ancelotti, mais pragmático do que o futebol ofensivo que Tite tentou construir, oferece uma estrutura defensiva mais sólida que pode sustentar o Brasil mesmo sem o principal criador.
Danilo, que também saiu mancando do jogo contra a Sérvia, é outro ponto de atenção para o staff médico coordenado por Lasmar. Perder dois jogadores na mesma estreia, ambos com problemas físicos, coloca a comissão técnica diante de decisões que precisam ser tomadas em 48 horas — o prazo entre a estreia e o próximo compromisso da fase de grupos.
A Seleção enfrenta seu segundo adversário da fase de grupos com a dúvida mais importante do torneio ainda sem resposta. O médico Rodrigo Lasmar tem o laudo dos exames como primeira obrigação da manhã seguinte ao jogo, e a comissão técnica de Ancelotti precisará decidir se escala o camisa 10 mesmo parcialmente recuperado — repetindo o erro de 2022 — ou poupa Neymar para as fases decisivas, apostando que o Brasil tem qualidade suficiente para avançar sem ele na fase de grupos. O próximo jogo da Seleção na Copa do Mundo 2026 está marcado para os próximos dias, e a presença ou ausência de Neymar na convocação de Ancelotti para o encontro definirá o tom de toda a campanha brasileira no torneio.








