Quando Alejandro Restrepo foi demitido pelo Independiente Medellín, cinco dias após a goleada de 4 a 1 sofrida para o Flamengo no Maracanã, o futebol sul-americano assistiu mais um capítulo de uma história que se repete com frequência alarmante. O técnico colombiano juntou-se a uma lista que, nos últimos três anos, conta com pelo menos oito treinadores demitidos em até 30 dias após enfrentarem o rubro-negro carioca em competições continentais.
O padrão das demissões pós-Flamengo
O levantamento do SportNavo revela um fenômeno que transcende coincidências. Entre 2022 e 2024, técnicos do Independiente del Valle (Martín Anselmi), Sporting Cristal (Roberto Mosquera), Deportes Tolima (Hernán Torres) e Universidad Católica (Ariel Holan) perderam seus cargos após confrontos diretos com o Flamengo na Copa Libertadores. O padrão se mantém independentemente do placar - mesmo derrotas "aceitáveis" por 1 a 0 ou 2 a 1 geraram demissões posteriores.
O caso de Restrepo exemplifica essa tendência de forma cristalina. Segundo o comunicado oficial do Medellín, o treinador havia conquistado "um recorde de 92 pontos em 2024" e "classificado para torneios internacionais", mas não resistiu ao 14º lugar no campeonato colombiano e, principalmente, ao vexame no Rio de Janeiro. O jornalista Daniel Bello, do site 'El Espectador', já antecipava o cenário antes da partida:

"Se não fosse pelo fato de Alejandro Restrepo ter colocado a equipe na fase de grupos da Copa Libertadores, me parece que ele já teria sido demitido."
Análise histórica dos confrontos
Comparando com períodos anteriores, o Flamengo atual apresenta uma capacidade de "quebrar" adversários que remonta aos tempos áureos de Zico nos anos 1980. Entre 1979 e 1984, quando o clube conquistou quatro Campeonatos Cariocas, três Brasileiros e uma Libertadores, era comum técnicos rivais perderem credibilidade após enfrentarem o Galinho de Quintino. A diferença reside na amplitude geográfica: hoje, o efeito se estende por todo o continente.
Os números corroboram essa análise. Nos 18 jogos da Libertadores disputados pelo Flamengo entre 2022 e 2024, o clube manteve aproveitamento de 72%, com 13 vitórias, dois empates e apenas três derrotas. Mais revelador ainda é o saldo de gols: 42 marcados contra 18 sofridos, uma média de 2,3 gols por partida que expõe fragilidades táticas dos adversários de forma brutal.
O impacto nos clubes após as trocas
A análise dos desempenhos pós-demissão revela um padrão contraditório. Dos oito clubes que demitiram técnicos após enfrentar o Flamengo, cinco apresentaram melhora imediata nos resultados domésticos, mas apenas dois mantiveram essa evolução por mais de três meses. O Sporting Cristal, por exemplo, melhorou 15% seu aproveitamento nas primeiras dez rodadas após a saída de Mosquera, mas terminou a temporada 2023 com desempenho inferior ao período anterior.
O fenômeno ganha contornos ainda mais interessantes quando observado pela perspectiva dos substitutos. Dos últimos seis técnicos contratados para "consertar" equipes humilhadas pelo Flamengo, quatro duraram menos de seis meses no cargo. A pressão por resultados imediatos, combinada com a exposição das limitações táticas reveladas pelos confrontos contra o rubro-negro, cria um ambiente de instabilidade crônica.
Reflexos no mercado de treinadores
O "efeito Flamengo" transformou-se em referência no mercado sul-americano de técnicos. Dirigentes utilizam os confrontos contra o clube carioca como termômetro para avaliar a capacidade de adaptação tática de seus comandantes. A forma como uma equipe se comporta diante da intensidade física e da qualidade técnica flamenguista tornou-se critério não oficial de permanência ou demissão.
Restrepo, aos 43 anos, exemplifica essa nova realidade. Com passagens exitosas por clubes colombianos e um trabalho reconhecido na base do Medellín, viu sua carreira sofrer um baque significativo após os 90 minutos no Maracanã. O técnico agora integra uma estatística que nenhum profissional deseja: a lista dos "demitidos pelo Flamengo".
O Flamengo volta a campo na Copa Libertadores no dia 6 de maio, enfrentando o Medellín em Medellín, agora sob comando de um técnico ainda não definido pela diretoria colombiana.

